Quando ocorre uma tragédia – como o triste incêndio que vimos em Santa Maria (RS) – é comum ouvirmos que houve um “comportamento de manada”, onde pessoas “entraram em pânico”, que a situação era “caótica”, e predominava o “cada um por si”.

Muitas pesquisas tem sido feitas ao redor do mundo com pessoas que sobreviveram a diversas tragédias como incêndios, inundações, tumultos, ataques terroristas, etc.

Através destas pesquisas, muitas idéias dominantes no senso comum tem sido revistas, como o de que as pessoas entram facilmente em pânico, agindo de modo irracional ou que sempre predomina o comportamento egoísta, onde cada um tenta salvar sua própria pele sem se importar com os outros.

A investigação científica das situações de tragédias, por exemplo, derruba o mito do egoísmo extremo, demonstrando que o comportamento predominante é de cooperação e solidariedade. Geralmente as pessoas começam ajudando quem está com elas e tendem a estender esta ajuda aqueles desconhecidos em volta, criando um forte sentimento de identidade coletiva.

Existe um ponto crítico, no entanto, em que o comportamento tende a mudar e a sobrevivência passa a contar mais do que o sentido de coletividade. Para que ocorra esta mudança na direção do comportamento precisam ocorrer duas condições simultâneas: as pessoas se sentirem sem saída e sob o risco iminente de morte. Num incêndio, por exemplo, quando o fogo está próximo, a fumaça intoxicando e as saídas parecem escassas, fugir imediatamente da situação torna-se imperativo para preservar a própria vida.

Nesta hora crítica o estado emocional de pânico entra em ação, ativando padrões automáticos de comportamentos de luta/fuga. O comportamento racional, solidário e cooperativo dá lugar então a um comportamento de emergência, em que sair da situação torna-se a única prioridade.

Quando as pessoas entram neste estado emocional de pânico, acabam se empurrando, se atropelando, o que aumenta os danos de uma tragédia, com pessoas que morrem pisoteadas e sufocadas no meio da multidão tentando sair de um lugar ameaçador em saídas insuficientes.

As pessoas não saem correndo, se empurrando porque estão agindo de modo cruel e caótico, mas porque estão agindo sob o imperativo da preservação de suas vidas, num comportamento automático de fuga, disparado pelo estado emocional de pânico. Seu comportamento não é irracional, desvairado, mas atende a uma lógica primária de preservação da vida. Com o perigo aumentando e a sensação de risco de morte iminente, sair da situação o mais rápido possível é o comportamento mais coerente pela lógica de preservação do cérebro humano. Depois de sair, muitas pessoas voltam para ajudar os outros, muitas vezes até colocando em risco a própria vida.

O que aumenta as mortes e danos numa tragédia não decorre do “comportamento irracional” das pessoas, mas das limitações do ambiente, como insuficiência de saídas, ausência de sinalização, falta de liderança e treinamento em procedimentos de evacuação, etc.

Estas falhas contribuem para conduzir os sujeitos a entrarem em pânico, neste modo psicológico de “emergência total”, quando precisam sair urgentemente do local visando a própria sobrevivência. Nesta hora crítica, o comportamento é conduzido individualmente, o que cria um novo perigo. Na ausência de coordenação das ações por uma liderança e de estrutura adequada de saídas, surgem as tristes cenas de empurrões e pisoteamentos involuntários.

As estratégias para lidar com tragédias precisam oferecer condições para as pessoas saírem daquela situação antes de entrarem neste “modo de pânico”. Esta deve ser uma prioridade no planejamento arquitetônico de espaços públicos e no desenvolvimento de estratégias de evacuação.

De modo geral, situações trágicas mostram que o ser humano tem uma forte tendência de cooperação e cuidado recíproco. Explicitam também como nossas emoções estão programadas para facilitar comportamentos coerentes para lidar com perigos reais e preservar a vida. Com planejamento e ações coordenadas deve-se evitar que a situação chegue ao ponto crítico da fuga individualizada sem uma estrutura adequada para saída.

(por Artur Scarpato)

9 Comments
  1. Ricardo RJ

    Seu artigo é muito oportuno após essa tragédia que aconteceu.Concordo com suas ponderações.O que predomina numa situação dessas é a preservação da própia vida,mas o senso de solidariedade não se perde.

  2. josé carlos s. sá

    Talvez eu precise de mais subsídios para entender a solidariedade apontada.
    Entendo que o gesto de “solidariedade” (de quem já se salvou ou está se salvando), para salvar mais um ou outros semelhantes, inscreve-se na instintintiva condição humana de sobrevivência da espécie.
    É claro que a manifestação de preservação da própria vida é o primeiro passo para aludida sobrevivência da espécie.
    Quem sabe eu precise de melhor entender o que seja “solidariedade humana” (atributo cultural exclusivo do homem ) e “ação instintiva” que é inerente aos seres vivos.
    Reitero minha admiração pelo escorreito texto.

  3. JaqueP

    eu sofro de sindrome do panico desde os meu 13 anos. hoje tenho quase 18, e desde que isso tudo começou a minha vida virou um inferno. o q mais me desesperava era que eu nao sabia o que eu tinha, porque nunca havia visto ninguem que sentisse as mesmas coisas que eu. aquilo me atormentava demais porque eu pensava que era a unica pessoa no mundo q tinha isso. ate q um dia assistindo ao programa bem estar eles começaram a falar da sindrome do panico. entao enquanto eu assistia o programa eu sentia um grande alivio por saber q nao estava sozinha e por finalmente ter descoberto o que eu tinha. antes de descobrir eu havia feito varios exames pra descobrir o pq de tantos enjoos e o porque das dores no peito, mas sempre dava que nao tinha nada. até que toda a minha familia começou a achar q tudo o que eu tinha era fingimento. que eu nao querer ir p escola era por eu ser desobediente ou louca. mas so eu sabia o q passava, so eu sabia o q sofria. ate q um dia cansada de tudo isso pedi pra minha mae me levar em uma psicologa. eu comecei o tratamento, mas ela nao me receitou nenhum remedio. e como eu ainda nem sabia o q tinha acabei desistindo das consultas. entao comecei a tentar me controlar ao maximo na frente de todo mundo para que pensassem que eu estava curada. parei com os estudos depois do ensino fundamental, e la veio a conversa de novo de que eu nao estudava por falta de interesse. eu sempre inventava uma desculpa pra nao ir pro colegio. dizia que nao gostava de estudar de noite, nem de tarde. e deixava sempre para me matricular nos ultimos dias q era p nao conseguir vaga de manha q entao eu nao ia em periodo nenhum. ate q um dia durante uma discussao com a minha mae, enquanto ela me comparava com a minha irma que havia estudado, e que trabalha eu acabei explodindo e despejei tudo que eu tava passando durante todos esse anos. mas falei tudo. falei de todas as coisas que eu havia deixado de fazer, de todos os lugares que eu havia deixado d ir, por causa dessa desgraça que me consome. desabafei mesmo. entao a minha mae finalmente viu que nao era fingimento. ela viu que eu realmente estava sofrendo. entao ela e meu pai me ajudaram. me levaram a uma psicologa, que eu ia uma vez por semana para conversar. mas nao via diferença. ate que um dia durante uma briga com o meu marido. porque eu ja estava casada ja que ao lado dele eu me sentia mais protegida ao contrario de estar em casa. eu acabei tomando arios remedios que um medico havia me indicado. entao fui parar no hospital. eu havia tomado 10 comprimidos de imipramina. pois nao aguentava mais viver assim. mas isso so resultou em um forte enjoo, e nada de mais
    entao a minha mae furiosa foi falar com a psicologa e disse o que eu havia feito. entao ela me encaminhou para um psiquiatra q me receitou tomar dois comprimidos por dia ja que um nao estava resolvendo. mas entao como a mae havia falado de mim para a psicologa eu acabei ficando com vergonha e desisti das consultas. segui tomando os remedios por um tempo. mas mesmo assim tentei voltar a estudar e nao deu certo. hoje a minha vida é um inferno. nao estudo, estou sempre ansiosa, com medo. nao vou a lugares publicos com medo de ficar presa ou de pagar mico. agora eu tomo os meus remedios so quando estou com muito medo. e sinceramente nao acredito em mais nada para me curar. eu sei que eu vou viver assim pelo resto da minha vida. que nem sei mais quanto tempo pode durar. eu sei que nao tem nada a ver com essa tragedia que aconteceu. mas é que de alguma forma eu precisava desabafar. desculpem

    • Orlando

      Lá na frente talvez você comece a achar que “era melhor ter ido do que não ter ido”. Eu iria, e não funcionando, procuraria outro, mais outro, até achar alguém que ajude… Budismo, meditação… talvez ajude… mas são palavras de leigo, infelizmente.

    • Régis

      Oi minha amiga, queria deixar um comentário muito simples mas espero que te ajude. Eu já tive pânico, e realmente é um inferno. Tive duas situações fortes de pânico uma que durou alguns meses quando eu tinha 15 anos e uma outra mais prolongada depois do 18. É um medo irracional muito forte, me lembro que eu me apavorava só de olhar pra parede do quarto e qualquer outra coisa ou mudança, de lugar, sair do quarto por exemplo, gerava esse medo desgraçado. Eu acordava de manhã e sentia uma profunda tristeza simplesmente por existir. E os piores sentimentos além desse medo irracional eram a falta de esperança de cura e a falta de respostas pra esse medo. Porém quero te dizer que há cura. Há quem diga que não seja cura mas sim controle, bem pra mim dá no mesmo, porém dá trabalho e deve-se ter perseverança e com muita paciência matar um leão por dia pra ficar vivo, porém sei que é o que tu mais quer. Eu consegui neutralizar o efeito do medo com um forte pensamento do tipo: “pior do que tá não fica” e de que não ia me acontecer nada de pior pq eu já estava no fundo do posso mesmo. Isso me livrou de uns 60% dessa desgraça, depois aprendi a controlar meus pensamentos, me lembro que o simples fato de ouvir uma música melancólica por vezes me deixava mal o dia todo ou até mais de um dia. Então depois de neutralizar o medo, eu comecei a me policiar fortemente pra não deixar nenhum pensamento ruím entrar na mente, isso dava muito trabalho, as vezes entrava um ou outro, mas isso me ajudou muito. E por último, não tente encontrar respostas neste estado, saiba que respostas a gente só encontra quando estamos sãos, neste estado a gente não consegue raciocinar direito. A leitura da Bíblia também me ajudou muito. Hoje não sinto nenhum sintoma desse inferno, e consegui, com muito esforço, me livrar sozinho dele, porém, além de, se possível tu aplicares esses princípios, tu também procurar ajuda médica. As vezes pode demorar mas se Deus quiser tu acha um bom psiquiatra.

    • JaqueP, não desiste não, você está assumindo uma condição de refém do seu problema, sempre fugindo e se distanciando das pessoas e dos compromissos, sempre com um medo do que as pessoas vão dizer sobre você e do seu problema. Primeiro lugar, o seu problema não é o maior de todos, existem pessoas em condição pior que a sua, como os que sofrem de Transtorno Bipolar, fora uma centena de outros transtornos. Pode-se dizer que o seu é um dos menores. Primeiramente, você precisa enfrentar essa situação com naturalidade, chegar o colégio, fazer amigos e comentar abertamente o que tem, que é pra quando acontecer os sintomas de ansiedade e medo, todos à sua volta já saberão o que é e, ao invés de ficarem criticando, vão se aproximar para lhe amparar e confortar. Não podemos ficar fugindo a vida inteira. Veja uma coisa que eu descobri em meus estudos sobre nossos comportamentos e tomadas de decisão: nossa mente trabalha com uma coisa chamada processo associativo, isto significa que alguma coisa que apenas sua mente vê, possa estar levando você à um passado, em que tenha acontecido algo que a tenha assustado ou apavorado e isso ficou gravado dentro de você como momento traumático, às vezes nem tão traumático, mas para a cabeça de uma criança ou feto (caso tenha ocorrido quando ainda dentro da barriga da sua mãe), um pequeno susto que sua mãe tenha passado, passou pra você como sendo a barriga dela um lugar inseguro e isso ficou de referência desde então. Tenta procurar um psicanalista, é possível que com ajuda dele, posso descobrir se realmente aconteceu alguma coisa desse tipo e o que sobrar de tudo isso, fará com que você tenha uma vida muito mais tranquila. Se der, dá uma olhadinha em meu blog pra conhecer melhor como funciona a nossa “caxola” e veja que somos, em meio à tantos tipos de problemas, uma pequena gota. Sai devagar do seu casulo e comece a enfrentar esse problema de frente e parar de ficar fugindo feita refém, isso realmente deixa agente maluco. rsr Seja Feliz, nascemos pra isso. Tudo bem. Estou torcendo por você.

    • Oi, qualquer dúvida, meu e-mail é: epifaniodg@hotmail.com Em meu Blog existe um atalho direto para o facebook, onde você também, poderá deixar uma mensagem pra mim, que tão logo possa eu te retornarei, ou à quem também quiser conversar. tudo bem ?

      Deus não previu para nós, sofrimentos nem tragédias, mas como as pessoas vivem saindo do roteiro que Êle estabeleceu para nós, muito provável que para alguns (não estou me referindo à você), sinta como se o telhado estivesse caindo sobre a própria cabeça. rsr

      Deus estabeleceu para nós uma vida plena e feliz, mas às vezes, como relata na carta aos hebreus 12, 5 e 6 às vezes precisamos ser corrigidos, porque Deus, como Pai amoroso, se preocupa e muito, por nós, todos nós.

      Abraço à todos e que Deus os abençoe. Estarei à disposição.

    • Mônica

      Olha, a sua história é vbem parecida comigo. Em um momento desses de desespero vim parar aqui, tentando assim encontrar uma solução. Eu sei o que você sente, pois eu passo pelas mesmas coisas. Tenho vinte anos e já cheguei a acreditar que isso não teria fim, mas tem. E a chave para sair deste quarto fechado esta dentro de você. Mas sozinha realmente não ira conseguir, você precisa de um bom profissional, igual a este blogueiro que com palavras descreve o que tanta gente passa. E por ultimo e a principal atitude procurar a Deus, ele sabe das nossas vidas, do que sentimos, ele é o nosso criador ninguém melhor para entender o que acontece dentro de nós do que ele. Então busque a Deus, eu também Buscarei. E nunca se esqueça você não esta só

  4. V c nao sabe o quanto seu blog tem me ajudado.
    Eu fui picada por um carrapato, aqui na Suecia e tive meningite encefálica DURANTE um coma de dez dias…
    SAI do hospital 33 dias depois, sem andar, falar ou saber onde eu estava.Depois disso, coemcei a fisioterapia, hidroterapia, psicologo, psiquiatra e estou retomando aos poucos. Até que 4 dias atras, a sindrome do panico me atacou.Foi terrivel…Nunca viv aquilo e se vivi foi algo parecido quando tive avc em 2007
    Quando a crise vem, eu corro para a bicicleta e faco ginastica, tento trabalhar o corpo mas tem vezes em que as crises vem quando eu estou durante a fisioterapia e é aquele sufoco..com os medicos massageando minha coluna….Eu choro do nada
    Tudo isso se dá, 9 meses depois da picada do carrapato
    Mas, comoa neuro me disse, o panico vem do medo e tudo isso se dá depois do meu irmao ter sido assassinjado no Brasil e meu pai ter me dito por telefone que quer vinganca….Nao sossegará enquanto nao descobrir quem foi…
    Isso me deu um desespero e segundo os medicos essa foi a causa da sindrome me atacar.O que vc acha?
    obrigada

Leave Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

clear formSubmit