A regulação emocional através da convergência binocular

Uma crise de pânico é um estado de hiperativação autonômica, com sintomas de aceleração dos batimentos cardíacos, dificuldade de respirar, transpiração, tremores etc.

Existem técnicas que ajudam a diminuir estes sintomas, regulando o sistema nervoso desequilibrado. Exercícios de respiração abdominal lenta e pausada, por exemplo, são clássicos na diminuição dos sintomas de pânico, por reduzirem os sintomas de hiperventilação.

Há outro recurso precioso a ser utilizado em situações de ansiedade, podendo ajudar tanto nas situações de ansiedade antecipatória como no início de uma crise de pânico. São técnicas específicas de convergência binocular. Entre outros efeitos, estas técnicas ativam o reflexo oculocardíaco, que promove uma ativação do ramo ventral do nervo vago, com consequente incremento na atividade parassimpática.

As técnicas de convergência binocular reduzem os batimentos cardíacos, aumentam a sensação de presença e promovem um estado de calma. Seu aprendizado deve ser feito em consultório, para depois poder ser praticado sempre que a ansiedade aumentar.

A prática clínica tem demonstrado bons resultados das técnicas de convergência binocular no processo de regulação da ansiedade. Devemos sempre lembrar que uma das principais metas do tratamento da Síndrome do Pânico é aumentar a capacidade de regulação emocional.

por Artur Scarpato

Quando não ter crises não significa superação

Uma pessoa com Síndrome do Pânico que fica um período sem crises de pânico pode não significar uma real superação. Pode indicar que a pessoa tem evitado situações que disparam suas crises, mas que continua vulnerável a elas.

Quem tem um transtornos de ansiedade como síndrome do pânico, fobia ou fobia social costuma usar uma estratégia clássica para não ter novos picos de ansiedade: a evitação.

Há muitos caminhos de evitação, variando com os disparadores, como evitar lugares onde se passou mal, não se afastar dos lugares seguros, não sair sozinho, limitar certos comportamentos, evitar situações de exposição social etc.

Se alguém tem medo de voar de avião e passa a evitar viagens aéreas, pode passar anos sem ter uma crise. Sua vida pode prosseguir aparentemente na normalidade, mas na verdade continua com o mesmo problema, só que mascarado pela evitação. A evitação tem um custo alto, limitando e privando a pessoa de experiências importantes.

Evitar é um péssimo negócio para quem sofre de um transtorno de ansiedade, pois a evitação tem por efeito reforçar a ansiedade, aumentando o sentimento de impotência e a crença na incapacidade.

A estratégia terapêutica eficaz é de enfrentamento, de exposição. Porém o processo de exposição tem que ser gradual.

Uma exposição intensa demais pode levar a inundação, com retraumatização e sensação de impotência e derrota.

Através da exposição gradual a pessoa pode colocar em prática recursos aprendidos na terapia. É importante desenvolver recursos de regulação emocional para ajudar o corpo a descarregar a tensão e se acalmar. Também é importante entender e aceitar as reações do corpo para não entrar num conflito interno que leva a uma escalada na ansiedade.

Para caminhar na superação de um Transtorno de Ansiedade, temos que substituir a evitação pela exposição gradual, aumentando a capacidade de regulação emocional.

por Artur Scarpato

O Quarto do Medo

Imagine um quarto especial em que você sente ansiedade assim que entra. Enquanto estiver no quarto, a ansiedade não passa, podendo ficar mais ou menos intensa, mas sempre presente e sem nenhum motivo aparente.

Ficando neste quarto você pode perceber os tumultos em seu corpo como a aceleração do coração, a respiração ofegante, o suor frio, o tremor; percebe sua mente desligando ou acelerando e imaginando vários perigos que poderiam lhe ocorrer, sente insegurança, vulnerabilidade e um desejo de sair rápido dali…

É um quarto especial, capaz de produzir ansiedade em qualquer um que entrar.

Este quarto foi imaginado para pessoas que Síndrome do Pânico e por uma razão.

As pessoas com um Transtorno de Ansiedade como a Síndrome do Pânico costumam apresentar Sensibilidade à Ansiedade (Anxiety Sensitivity), que é um medo dos sintomas de ansiedade como se estes pudessem ser perigosos e danosos. A partir deste medo elas desenvolvem mil estratégias de evitação e tentativas de controle que só pioram a situação, gerando ainda mais ansiedade.

Vamos imaginar um Quarto do Medo programável, permitindo num dia focar a atenção nos sintomas físicos da ansiedade, como as alterações cardíacas, respiratórias, térmicas, musculares, etc.

Em outro dia o foco pode ser nos pensamentos negativos, nos cenários temidos e nas fantasias catastróficas.

O objetivo de se frequentar o Quarto do Medo é aprender a transformar a relação com os sintomas da ansiedade. Aprende-se a perder o medo das reações do corpo e a enfraquecer os pensamentos catastróficos negativos.

A estratégia é ir atrás dos fantasmas para encará-los de frente, ao invés de continuar fugindo deles. Mesmo parecendo paradoxal, encarar assim a ansiedade tem por efeito diminuí-la.

As visitas ao Quarto do Medo devem ser graduais. A pessoa escolhe quando entrar e tem liberdade para sair quando quiser. A intenção não é produzir uma avalanche de reações que poderiam retraumatizar, trazendo um sentimento de derrota e reforçando e evitação. Tem que se expor gradualmente, um pouco mais a cada dia, sem inundação, aumentando a janela de tolerância e resignificando a experiência.

O segredo está na atitude mental de observação com aceitação e no respeito ao caminhar devagar, passo a passo.

por Artur Scarpato

Trauma e Janela de Tolerância: o campo produtivo entre o caos e a paralisia.

Uma experiência traumática pode afetar a capacidade posterior de uma pessoa lidar com sua excitação interna – sejam suas reações corporais, emoções ou sentimentos.

Frequentemente as pessoas traumatizadas ficam com uma pequena Janela de Tolerância.

A Janela de Tolerância é o quanto de excitação física e emocional uma pessoa consegue lidar de modo integrado, sem se desregular, sem congelar e nem dissociar.

Podemos pensar na janela de tolerância como uma faixa produtiva entre duas margens problemáticas. Quando a janela de tolerância se estreita, a pessoa entra num dos extremos, de caos ou paralisia.

Na margem de cima, quando a excitação vai além da capacidade de integração, pode surgir descontrole, impulsividade e inundação emocional, com acessos de ansiedade, raiva e/ou choro.

No outro extremo, há mecanismos que buscam uma restrição radical da excitação, surgindo anestesia, depressão, perda de vitalidade e lentificação.

É somente entre as duas margens da janela de tolerância que a experiência interna pode ser assimilada e integrada. Neste estado de integração há possibilidade de uma articulação coerente entre sensações, sentimentos, pensamentos e ações.

A psicoterapia deve trabalhar ampliando esta faixa produtiva da Janela de Tolerância, ajudando tanto na assimilação do excessivo como no descongelamento da rigidez. Assim é possível sair tanto da desorganização caótica da alta exitação como do congelamento defensivo da imobilidade, duas consequências comuns do trauma.

por Artur Scarpato

Destravar o Estado de “Fuga sem Saída”.

As sensações de uma crise de pânico são como a de se sentir ameaçado mas sem escapatória. Há ativação de repostas corporais de fuga mas ao mesmo tempo há paralisia, gerando uma sensação de aprisionamento, impotência e desespero.

Neste estado “travado”, de fuga sem saída, a mente se projeta para o futuro, imaginando consequências catastróficas: vou morrer, vou enlouquecer, vou perder o controle… A imaginação de um cenário trágico futuro ativa ainda mais respostas de ansiedade, num corpo que já está congelado numa mistura de urgência de fuga com desorientação e paralisia.

O primeiro passo é poder identificar o que acontece através de uma auto-observação que aceita o que ocorre dentro de si. Não há um perigo real, mas um sensação de medo travado, que não consegue escapar, que não consegue avançar nem fugir. É importante aprender como este estado interno não é perigoso, para que assim se pare de gerar mais ansiedade com os pensamentos catastróficos negativos.

Em seguida deixamos de lado os pensamentos negativos e nos voltamos para as respostas somáticas. Através da atenção ao que acontece no corpo, buscamos acolher as reações, regular os estados internos e destravar o medo paralisante. É importante identificar e completar, mesmo que na imaginação, respostas somáticas inacabadas de fuga como correr, empurrar, desviar, gritar, chorar etc. Assim as respostas somáticas incompletas vão encontrando solução e o estado emocional ativado de ameaça vai se dissolvendo.

A pessoa com pânico se sente aprisionada numa reação de medo “inescapável”, o que gera um forte sentimento de impotência e confusão. Para sair disto, precisamos reconhecer, aceitar, regular e liberar o estado congelado de fuga sem saída.

por Artur Scarpato

PÂNICO SEM PÂNICO: A PREPARAÇÃO PARA LIDAR COM AS CRISES DE PÂNICO

As crises de pânico – ou ataques de pânico – podem ser experiências traumáticas. A pessoa ficou traumatizada pelo modo como viveu a crise de pânico, com uma sensação de desorientação, descontrole e catástrofe iminente. A partir deste trauma ela passa a viver com uma expectativa ansiosa de ter uma nova crise de pânico, com medo de sentir o descontrole e o terror que sentiu daquela vez, acentuado por fantasias catastróficas de que a próxima crise pode ser ainda pior.

Neste estado traumatizado, qualquer reação interna parece indicar um possível retorno do monstro, daquela experiência tão temida.

A visão do futuro fica limitada pelo trauma passado, um tormento constante de monitoramento das reações do corpo e pensamentos catastróficos, deixando a pessoa sentindo-se sempre vulnerável. Qualquer sinal do corpo parece indicar o surgimento daquela ameaça terrível.

O desafio para quem tem pânico é se preparar para lidar com as crises. As primeiras crises se tornaram traumáticas por pegarem a pessoa desprevenida e despreparada, levando-a um estado de pavor e pânico. Para interromper a repetição das crises de pânico, é necessário uma preparação, com uma nova atitude para enfrentar as ondas de ansiedade.

É importante aprender a ficar mentalmente presente e observar as reações de ansiedade exatamente como elas realmente acontecem e não como a mente fantasia que elas possam se tornar. Esta diferença é essencial. Estar preparado para observar as reações de ansiedade no presente, e não, a olhar as reações esperando o pior – um futuro que seja repetição do passado traumático.

Quando sente os primeiros sintomas, o trauma das primeiras crises deixa a pessoa com medo do que possa vir. Ela não fica presente, observando o que sente, mas começa a imaginar o pior cenário e assim gera mais ansiedade, se apavorando com o que sente e perpetuando o ciclo das crises de pânico.

Quando se consegue realmente a aceitar as reações de ansiedade, torna-se possível viver as crises sem medo, sem pavor, aceitando o desconforto, sem se deixar levar pelos pensamentos catastróficos. Na verdade nunca houve uma catástrofe real, mas uma experiência emocional intensa de medo e desorientação nas primeiras crises, que deixaram a pessoa com pavor de que aquilo pudesse se repetir ou se transformar em algo ainda pior.

A partir do momento que se sabe o que é uma crise de pânico, que se consegue ficar presente no centro da consciência observando as reações, é possível atravessar qualquer “crise de pânico” sem entrar em pânico, sem se apavorar.

Este é o verdadeiro estado de Pânico sem Pânico. A partir daí as crises de pânico vão desaparecendo, interrompendo assim seus ciclos automáticos.

Através de uma psicoterapia especializada fazemos um treinamento formal com técnicas específicas, preparando a pessoa para lidar e superar suas crises de pânico.

por: Artur Scarpato

Consumo compulsivo: Resposta a um menino de 9 anos

SEÇÃO ARTIGOS

Este texto foi escrito como resposta a um garoto de 9 anos que me pediu informações sobre consumo compulsivo. Ele estava fazendo um trabalho para a feira de ciências de sua escola. Na falta de um material acessível na hora para lhe enviar, resolvi escrever este texto. 

Consumo compulsivo: resposta a um menino de 9 anos

por Artur Thiago Scarpato

Caro Beto,

O que segue são alguns comentários a partir da minha experiência em consultório.

O consumo esta sempre ligado a objetos desejados. Consumimos o que queremos ter para nós. Um tênis, um videogame, um carro, uma bolsa, um sapato, uma camisa, etc.

O que nos move na direção deste querer Ter ? Porque acreditamos que tendo o objeto desejado, nós Seremos mais felizes…

Observe, Beto, que estamos falando de dois verbos: o verbo TER e o verbo SER.

Ao TER o que queremos, SERemos mais…felizes!!!

Esta é a primeira fórmula que eu queria te mostrar:

o TER promete transformar o SER.

Quando consumimos algo desejado, podemos ter o reconhecimento dos outros por isto; é o que chamamos de status social.

Quando compro um videogame de ultima geração, por exemplo, posso mostrá-lo para os meus amigos, e através dos olhares deles me valorizar junto com o objeto que comprei.

O atributo, o valor que é do objeto (videogame) – ser de ultima geração, moderno, legal – estende-se a mim também, e passo a ser visto pelos meus amigos como legal, moderno, de última geração… E isso vale para o carro potente, o tênis da moda, etc.

De novo a primeira fórmula: o Ter promete transformar o Ser aos olhos dos outros também.

Quando queremos o reconhecimento dos outros, o que no fundo estamos buscando?

Há uma palavra que resume bem o nosso maior anseio, 
a nossa maior busca: AMOR

Queremos ser amados e para isto queremos ter tudo aquilo que nos faça ser mais desejados, mais admirados, mais importantes, mais valorizados…

O objeto de consumo tenta preencher um lugar vazio em nós: o lugar que gostaríamos de ver ocupado pelo amor.

Sabe Beto, a nossa mente é muito ardilosa e aquele objeto de consumo que nos traria o amor dos outros (pelo reconhecimento), passa ele mesmo a representar o amor para nós.

Há uma IDEALIZACÃO do objeto de consumo (tênis, videogame, etc.) que traz junto consigo, na fantasia, o preenchimento de nossa necessidade de amor, de nossa carência.

Aqui está, então, a segunda fórmula:

OBJETO DE CONSUMO é igual a AMOR
Há assim uma mudança de rumo, uma TROCA de uma solicitação de amor por uma necessidade (compulsiva) de consumir e sentir-se provisoriamente preenchido.

Consumir torna-se, nestes casos, satisfazer uma necessidade de amor. Através do objeto de consumo buscamos ser mais amados.

No entanto como o desejo no fundo não é pelo objeto, mas principalmente pela satisfação da carência, o sentimento de plenitude e de vitória não dura muito e logo logo vem o vazio de novo e a sensação de que falta…de que ainda tem aquele outro objeto que eu quero… e aquele outro e aquele outro…sem fim.

Junta-se a tudo isto o fato de que no amor nós precisamos receber e dar, enquanto que consumindo, nós podemos nos satisfazer por iniciativa própria. O que nos coloca aparentemente menos dependente, mas eternamente insatisfeitos e carentes.

Para você entender, compulsão é todo comportamento que uma pessoa faz repetidamente porque não consegue evitar de fazer. Ela sente ansiedade se não fizer, aí acaba fazendo de novo e de novo.

Ansiedade é aquela inquietação dentro da gente que nos deixa um pouco com medo, na expectativa, inquieto, tenso.

Mas ansiedade de consumir? Por que?

Lembre-se que a pessoa está preenchendo uma carência de afeto, de amor, com o objeto de consumo. Logo se ela não consumir, ela vai sentir a DOR da carência, a tristeza de não se sentir amada.

Esta dor ameaça vir à tona e desfazer aquela TROCA na qual a pessoa substituiu a carência de amor pelo objeto de consumo.

Ela precisa então consumir para não sentir a carência.

A ansiedade avisa para ela de que se ela não consumir, algo ruim pode acontecer. A pessoa não sabe o que é, mas consome para diminuir a ansiedade e assim evitar que esse algo ruim venha.

Esse algo ruim é a carência, a tristeza e a raiva de NAO SE SENTIR AMADA.

 Esta Beto, é uma das maiores dores que um ser humano pode vir a sentir. E no entanto, todos nós a conhecemos em maior ou menor grau em alguns momentos de nossa vida.

Quando não aguentamos essa dor, por ela estar muito, muito forte, colocamos algo no seu lugar para disfarçar a dor; nos casos de que estamos falando, a pessoa consome compulsivamente…

 Quando você estiver lendo isto, gostaria que você buscasse entender junto comigo este comportamento exagerado. Que não considerasse os casos de compulsão ao consumo como se fosse uma doença estranha, mas como um desequilíbrio, que todos nós podemos passar pela vida, em doses maiores ou menores.

Pois assim, compreendendo uma pessoa que está sofrendo, você pode ajudá-la.

Como todo comportamento que causa sofrimento à própria pessoa, este também pode ser tratado (ajudado) . O nome do tratamento é psicoterapia e é feito por um psicólogo – é o tipo de trabalho que eu faço.

Boa sorte,

Respondido em junho/1998 Apenas o nome do menino foi modificado.

Nota: 

O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação (ABNT): Scarpato, Artur (1998).Consumo compulsivo: resposta a um menino de 9 anos. Disponível em: <www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_consum.html> Acesso em: dia/mes/ano.
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Última atualização: 06/09/2016

Videogames e Dependência: Quando o Jogar se Torna Perigoso

SEÇÃO ARTIGOS

Videogames e Dependência: Quando o Jogar se Torna Perigoso *

 Artur Thiago Scarpato**

A vida envolve um processo de pulsação. A partir da pressão de nossas necessidades nos expandimos e nos movemos em direção ao mundo; quando satisfeitos, recuamos e voltamos para nós mesmos. Depois de certo tempo de repouso, com novas necessidades, recomeçamos a expansão, seguida de recolhimento e assim sucessivamente.

Ao longo da vida este processo pode sofrer algumas distorções. Estas alterações resultam em paralisia em algum destes pólos, de expansão ou de recolhimento. Por exemplo, uma certa pessoa paralisa no movimento do recuo e fica constantemente retraída e inibida, enquanto uma outra pessoa paralisa no movimento da expansão e torna-se hiperativa, excitada e agitada na maior parte do seu tempo.

Há muitos modos de distorção da pulsação e nós vamos buscar entender como se dá este processo nas pessoas que se tornam dependentes dos videogames, uma situação que possui várias ressonâncias com outras formas de dependência e que nos ajuda a iluminar algumas coisas da dinâmica geral da adição.

As dependências acontecem com pessoas que se expandem numa situação específica e não conseguem mais recuar e voltar para si. Elas muitas vezes ocorrem com pessoas que eram retraídas em outras esferas da vida, mas que vão além de seus limites nesta nova atividade. Algumas pessoas são capturadas pelas intensidades afetivas da nova experiência e se tornam dependentes. Inicialmente as pessoas se sentem mais vivas quando estão envolvidas com aquilo, mas depois vão se tornando escravas, pois não conseguem recuar, assimilar o que viveram, não conseguem deixar de fazer sempre aquilo.

Comer, praticar esporte, trabalhar, jogar, apostar, consumir, todas as atividades podem assumir uma dimensão explosiva, onde a pessoa passa a fazê-las de forma intensa e repetida e não consegue recuar e ficar sem elas por muito tempo. Aí se inicia um padrão de dependência, também chamado de adição ou mais popularmente, vício.

Muitas atividades podem entrar no circuito da dependência, mas para isto é necessária uma pessoa suscetível, e isto se adquire a partir de uma história de vida que produziu uma distorção do pulso natural entre expansão e recolhimento.

Mas como ocorre o comportamento de adição especificamente em relação aos videogames?

Toda criança brinca de situações de “faz de conta”, brinca de casinha, de boneca, de carrinho, de guerra e de luta. A fantasia e a simulação fazem parte de nossa vida psicológica. “Agora sou um soldado e que vou matar todos os bandidos”. A criança brinca com elementos do mundo adulto (ser policial, ser modelo, ser médico, etc) adaptados para a sua realidade. Neste processo ela encontra um modo de recriar o mundo adulto ao seu modo, dando espaço para viver seus dramas internos e elaborar seus sentimentos. Os videogames permitem a criação de situações de simulação, de faz de conta, porém adaptadas também para os jovens e os adultos.

O sexo virtual não deve ser melhor que o sexo real; participar de uma guerra virtual não deve ser comparável a participar de uma guerra de fato, com armas em punho e presenciando seus amigos sangrarem e morrerem de verdade ao seu lado. Apesar de serem “menos reais” que o real, podem ser experiências bastante intensas, segundo dizem os usuários de games.

A tecnologia permite criar muitas situações “como se”, simulações e criações de realidade através de muitas imagens e sons, que disparam uma miríade de sensações e experiências. Os videogames, os computadores e a internet têm permitido a criação de ambientes cada vez mais fantásticos, onde os recursos gráficos e de multimídia impulsionam as experiências de imersão emocional no jogo.

A intensidade desta “hiper-realidade” pode contribuir para uma pessoa esquecer-se de si mesma, dissociar-se das suas necessidades de alimentação, sono, trabalho, etc, deixando-se absorver pelo mundo fascinante do ciberespaço – os novos ambientes criados pela tecnologia.

Indo além da vida cotidiana através dos videogames, uma pessoa pode experimentar outros tipos de experiências, pode controlar a vida dos personagens num jogo de simulação, arriscar a vida de seu personagem num combate, ir muito além das leis físicas deste mundo, sem os limites frágeis que nossa corporeidade nos impõe.

A dimensão dos fatos reais da vida os fazem únicos e sem volta. Se uma pessoa corre com seu carro numa estrada e bate de frente com um caminhão, dificilmente terá uma segunda chance para experimentar de novo esta emoção, a realidade nos obriga a um nível de responsabilidade sobre a vida que os jogos nos eximem. Dá para se arriscar imensamente nos jogos, dá para se expor, para experimentar. Os jogos nos afastam do horizonte da finitude, eles nos prometem um mundo onde podemos desejar, agir, tropeçar, cair, mas sempre podemos recomeçar em pleno estado de energia.

Os videogames propiciam experiências virtuais cheias de possibilidades, onde é possível ser um outro além de si mesmo, dar vazão a fantasias que não se tornarão realidade e arriscar comportamentos novos. Num certo sentido, os videogames são também exercícios de libertação.

Portanto, o ciberespaço permite experimentações com garantias. Afinal, em última instância, se a coisa ficar muito preta, se eu for morto, se minha cidade falir, se meu império for destruído, posso sair do jogo e tudo voltará ao “normal”. Há uma certa promessa de “superação” das limitações reais da vida, uma negação da morte, permitindo uma experimentação radical e sem efeitos reais. Mas são também estas garantias que podem levar uma pessoa a querer ir sempre um pouco mais e um pouco mais, capturada pelo jogo da simulação. Em alguns casos, a aventura “segura” pode acabar aprisionando por não impor limites. E assim a pessoa vai, vai, e sempre que pode quer ir de novo, sem conseguir voltar, dando alguns passos em direção à dependência. O jogo é sem limites enquanto a vida é uma pressão com limites.

Na dependência a pessoa alcança um estado de preenchimento interno pela atividade que se torna muito envolvente. No jogo há uma suspensão do tempo que não se percebe passar. Em alguns casos o jogar compulsivo pode abafar muitas vozes: o vazio existencial, a falta de sentido, as carências, as frustrações, os sentimentos de inadequação e muitos problemas da vida.

A dependência do jogo pode ser avaliada por alguns sinais, entre os quais a freqüência. Ninguém que é “viciado” joga só de vez em quando, o viciado joga muito e freqüentemente joga bem mais do que pretendia fazê-lo inicialmente. A pessoa tende a comprometer outras atividades em sua vida, como relacionamentos, família, trabalho, escola e outros passatempos. Ela até pensa e tenta reduzir a freqüência com que joga, mas não consegue. Há uma impotência para mudar este padrão. Quando deixa de jogar a pessoa pode sentir-se irritada, desanimada, ansiosa, tomada por uma série de sensações ruins, mal conhecidas dentro de si. O afastamento freqüente de si nos deixa cada vez mais estranhos a nós mesmos. Nestas situações, voltar a jogar permite o abafamento e o alívio temporário deste “mal estar” nunca enfrentado e solucionado.

O comportamento de adição, de dependência, torna-se uma fonte de sofrimento, pois se uma pessoa depende de algo, ela já não faz mais por prazer, mas por necessidade. A pessoa sofre se não jogar e repete exaustivamente seu comportamento de jogar a ponto de comprometer seus relacionamentos, seus estudos, seu trabalho, sua saúde, etc.

O problema não está no videogame, que pode ser uma boa diversão, mas no padrão de uso que se estabelece com ele. Algumas pessoas perdem o controle e passam a ser dominados pelo jogo. Estas precisam da ajuda psicológica, sendo que a dependência é um estado que pode ser superado.

Notas:

*Voltar ao início do texto Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação (ABNT):

Scarpato, Artur (2004).Videogames e dependência: quando o jogar se torna perigoso. Disponível em: <www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_games.html> Acesso em: dia/mes/ano.

**Voltar ao início do texto Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

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A Psicossomática Reichinana

SEÇÃO ARTIGOS

A Psicossomática Reichinana *

Artur Thiago Scarpato**
Artigo publicado pela Revista Catharsis n. 28 Nov-dez 1999

A Psicologia tem origens que se perdem nos campos da medicina, da filosofia e da religião. Mas a Psicologia que praticamos hoje, nos consultórios, grande parte dela derivou da medicina no século passado, numa tentativa de dar conta de fenômenos que os recursos médicos não davam conta na época: a histeria, a psicose, etc. Assim Freud, um neurologista, vai se aventurar pelo mundo psíquico. Como ele, muitos outros médicos deram início a algumas das principais correntes da Psicologia.

Neste contexto, é possível entender que a Medicina tente hoje retornar a Psicologia ao Biológico, numa tentativa de fazer o psíquico retornar à sua “origem”, ao cérebro; como se a Psicologia tivesse sido um recurso provisório da medicina, enquanto os avanços das neurociências não pudessem controlar as variáveis anímicas. No entanto parece que o filho cresceu e adquiriu autonomia.

Há uma concepção dualista dominante na cultura ocidental, que separa o corpo da alma. Aliás o dualismo é que tornou possível o surgimento da Psicologia como temos hoje, como ramo terapêutico separado da Medicina. Temos, portanto, a Medicina como ciência que estuda os fenômenos orgânicos e a Psicologia, como ciência que estuda os fenômenos psíquicos.

A própria medicina na antigüidade já foi diferente: em Hipócrates, por exemplo, temos uma concepção psicossomática, onde os sonhos eram usados como indicadores do estado de saúde do sujeito, saúde física e emocional, integradas.

Hoje observamos uma tendência nas áreas biomédicas de explicar os fenômenos psíquicos e seus “distúrbios” recorrendo a modelos de funcionamento bioquímico cerebral e à genética. É um movimento de “biologização” da dimensão psíquica.

Por outro lado, na Psicologia está crescendo uma abordagem dos fenômenos biológicos e das doenças orgânicas, pela recorrência a símbolos, mitos, metáforas e modelos psicológicos. “Psiquizações” curativas, processos de cura e mutações que contrariam a concepção tradicional médica de doença. É um movimento de “psicologização” da dimensão biológica.

Além disso, temos visto o fenômeno das curas espirituais dos problemas do corpo e da alma, contrariando os princípios das ciências psicológicas e médicas. Os “milagres” explicitam um processo de “espiritualização” do psíquico e do somático.

Há portanto movimentos antagônicos de “biologização” do psíquico, “psiquização”do corpo e de “espiritualização” de ambos. A mídia tem refletido estes movimentos de forma interessante, um tanto cindida, onde cada matéria fala das últimas tendências seguidas por uma parcela do público e defendida por parte dos profissionais.

Os caminhos da Medicina e da Psicologia cada vez mais se encontram, se conflitam porque os limites estão ficando tênues, difusos. O avanço dos conhecimentos tanto nas áreas médicas como psicológicas tem permitido vislumbrar conexões antes insuspeitas entre corpo e o psiquismo.

Pesquisas sobre bioquímica, neurotransmissores e genética, demonstram que o chamado mundo psíquico tem fortes raízes no biológico. Avanços na Psicologia desvelam um corpo emocional, erógeno, simbólico que é constitutivo do psiquismo e fortemente ativo nos fenômenos biológicos. Portanto cada área está começando a dar conta de fenômenos que eram da outra área.

Pesquisas recentes têm demonstrado que tanto um medicamento quanto uma psicoterapia “focal” tem efeitos semelhantes sobre o cérebro na cura de alguns transtornos como o Obsessivo-Compulsivo, a Síndrome do Pânico, etc. Estamos falando de uma perspectiva sintomática, pois as implicações psicodinâmicas destes fenômenos têm raízes mais amplas e de difícil mensuração cerebral.

Está havendo também uma cisão no campo do conhecimento, onde a Medicina acadêmica e algumas abordagens na Psicologia cada vez mais se afastam quanto à linguagem, metodologia, objetivos. Valores como auto-conhecimento, desenvolvimento pessoal, desenvolvimento espiritual, estão substituindo na Psicologia o valor médico de cura das patologias.

Não é a abordagem psicológica ou biológica que está certa ou errada; o problema é de outra ordem. O que falta, isto sim, é uma abordagem que lide com a lógica interna da unidade psicossomática.

No entanto, uma perspectiva “de dentro”, “unitária” já foi desenvolvida. Talvez o melhor modelo disso que chamo lógica interna da unidade psicossomática nos tenha sido legada por Wilhelm Reich: a psicossomática em sua funcionalidade.

A abordagem reichiana não busca nem a “psicologização” nem a “biologização”, mas insere um terceiro elemento nesta relação, e considera os outros dois, psique e soma, como derivações da energia. Os fenômenos psicológicos e orgânicos são articulados como manifestações em níveis diferentes de um mesmo princípio comum: a energia orgone. Poderíamos dizer que Reich faz uma“energetização”.

Há uma vantagem epistemológica neste modelo ao permitir operar com a unidade psicossomática. Psique e soma não estão separados, pois apresentam um funcionamento integrado, uma inter-relação intrínseca. Derivam do mesmo princípio comum, são expressões da realidade energética. O corpo sem a psique, o corpo-objeto, desprovido de sua fenomenologia vivencial não é o corpo reichiano. A psique sem corpo, alma desencarnada, não é a psique reichiana.

A energia quando presente no organismo vivo torna-se bioenergia, ou mais precisamente, biopsicoenergia e então, passa a adquirir algumas leis próprias de funcionamento: as leis da unidade psicossomática. Reich faz uma “biopsicoenergética”.

Há também um espaço possível de ver a espiritualidade nesta vinculação energética de todo ser vivo com o cosmos. Reich não segue este caminho, ele era muito comprometido com os valores científicos, mas sua obra permite este salto.

Neste sentido a obra reichiana oferece-se como uma possibilidade de resposta a esta cisão moderna de que eu falava: a aparente incompatibilidade entre a Medicina e a Psicologia, e também com a espiritualidade. Há também uma grande preocupação com as raízes sociais dos problemas emocionais que percorre toda a obra de Reich.

Podemos afirmar que a neurose é um estado de ser comprometido em seus aspectos biológico, psicológico, social e espiritual.

Qual o preponderante? O psiquiatra organicista, o psicólogo, o sociólogo e o padre provavelmente vão divergir na hora de montar uma hierarquia destes fatores.

A obra de Reich é um longo percurso de pesquisas e experiências buscando dar conta de uma concepção de neurose que abarque todos estes terrenos.

EMOÇÃO

 

A conexão corpo-psique deve começar primeiro a ser entendida através do conceito de emoção. Há um plano psíquico e outro somático pelo qual podemos perceber qualquer manifestação emocional. Juntos formam uma unidade funcional. Não existe emoção que não seja manifestação fisiológica e psíquica simultaneamente. Toda emoção acompanha-se de alterações do fluxo sangüíneo, alterações elétricas na superfície da pele, mudanças respiratórias, bioquímicas, posturais, enfim, de mudanças que envolvem o corpo em seus diversos sistemas e aparelhos. Ao mesmo tempo apresentam-se como vivência psíquica, que permite a quem as sente reconhecer o sentido do que está sentindo; se raiva, medo, tristeza, alegria. A emoção, portanto, existe a partir de um movimento corporal interno e da percepção.

No caso da psicose, por exemplo, parece que há uma cisão entre os planos psíquicos e corporais; assim uma manifestação energética emocional não é percebida pelo sujeito como lhe sendo própria. O delírio e a alucinação seriam construções que visam dar sentido a esta excitação que o sujeito sente, mas não consegue reconhecer como sua. Há uma dificuldade na integração entre as vivências psíquica e corporal. Está em ação o que chamamos de couraça vegetativa visual.

No trabalho com pessoas que apresentam traços “esquizo”, é interessante notar como as alucinações diminuem conforme você vai trazendo estas pessoas para a presença no corpo. Ao mesmo tempo vai aumentando o nível de angústia e de excitação emocional que estas pessoas não suportam muito. É um trabalho lento, delicado e difícil.

 

AS FASES DO DESENVOLVIMENTO

 

Há vários recortes possíveis no desenvolvimento infantil. Podemos mapear as fases do desenvolvimento da inteligência, as fases do desenvolvimento motor, as fases de interação e sociabilidade ou as fases do desenvolvimento emocional. Dentro do desenvolvimento emocional realçamos o desenvolvimento da sexualidade na criança. Por que esta primazia do sexual sobre os outros aspectos da vida emocional? Antes de qualquer coisa, é pertinente afirmarmos que quando falamos de sexual, estamos falando de um aspecto que é energético e relacional ao mesmo tempo.

Talvez haja uma única temática que seja comum a todos os clientes e apresente ao mesmo tempo muitas variações na forma com que se apresenta: as questões afetivas do relacionamento humano. O amor – se fosse para resumir em uma única expressão – poderíamos dizer que todos padecemos pelo amor. Basta ouvir os clientes. Ouvir suas queixas, associações, lembranças, seus insights, devaneios, suas imagens, suas dores.

As fases do desenvolvimento afetivo-sexual são cinco: a fase visual relacionada às primeiras semanas de vida, a fase oral, a fase anal, a fase genital infantil e a fase do controle do diafragma ou “fase do poder” que se organiza ao redor dos 7 anos de idade. Estas fases se estruturam primordial mente em torno de zonas erógenas, que por sua vez são zonas corporais. Dizem respeito a vivências corporais erógenas e a modalidades de relacionamento afetivo. As zonas erógenas se diferenciam das outras partes do corpo, pois se constituem também como organizadores psíquicos. Cada fase está relacionada também a uma organização afetiva, motora e cognitiva.

A vivência relacional é uma vivência emocional, portanto psicossomática e não apenas psíquica. Logo não deveria estranhar o fato de eu falar que as marcas destas experiências deixam inscrições corporais tanto quanto psíquicas. A observação do corpo na terapia reichiana ocupa o lugar que a interpretação dos sonhos vai ocupar na visão junguiana. O corpo revela aspectos visíveis do mundo inconsciente.

 

O CARÁTER

 

Na visão reichiana, o caráter é o jeito de ser de cada um e está relacionado à dinâmica emocional das fases do desenvolvimento, à utilização de certos mecanismos de defesa, à estruturação mental de crenças internas, enfim, à um funcionamento energético, emocional e corporal. Há cinco tipos principais de caráter: esquizóide, oral, masoquista, rígido (fálico-narcisista, histérico e passivo) e psicopata. Cada um deles relacionado principalmente a uma das fases do desenvolvimento afetivo-sexual: visual, oral, anal, genital e diafragmática respectivamente.

Quais os traços corporais de uma oralidade, por exemplo? Vamos utilizar um exemplo para tornar as coisas mais claras, acentuando as coisas para ficar mais visível. Um cliente chega ao nosso consultório e numa situação hipotética nós podemos olhar bem o seu corpo antes que ele comece a falar. Observamos os seguintes sinais corporais: apresenta pouca musculatura geral no corpo, tônus muscular alterado na região da boca, fraqueza nas pernas, peito afundado, braços com pouca energia e respiração superficial. Depois conversando e ouvindo esta pessoa percebemos seu jeito de ser: é uma pessoa que se queixa muito, e ser queixoso mostra-se uma característica básica sua. Sempre espera receber tudo dos outros, mas ao mesmo tempo tem uma convicção interna de que nunca receberá o suficiente. Muitas vezes quando recebe, não dá valor a isso e não consegue acolher o que lhe é dado. Vive uma sensação interna de ser injustiçada pela vida. Tem também uma capacidade agressiva fraca, lutando pouco pelo que quer, como se esperasse que as coisas chegassem à ela apenas pelo seu merecimento. É uma pessoa que parece ter uma imagem de si muito valorizada, mas incompatível com a sua realização.

Vamos ficar somente com estas características. Agora vamos tentar “ler” alguns daqueles sinais corporais: Tônus muscular da região da boca alterado: este traço tem o significado mais claro, já que, quando criança, esta pessoa deve ter sentido falta, carência erógena no contato com a mãe na fase oral. A alimentação deveria satisfazer-lhe tanto as necessidades de comida como de afeto. Fraqueza nas pernas: Se a energia ficou aí, paralisada nesta insatisfação oral, menos energia desceu na ativação das pernas e da autonomia características da fase seguinte que é a fase anal. Este traço pode prejudicar o contato desta pessoa com o chão, com a realidade. Peito afundado: o peito afundado reflete o estado de carência de afeto e estas pessoas freqüentemente relatam uma sensação de vazio no peito. Isto pode trazer uma intensa vivência de fragilidade. Braços com pouca energia: os braços indicam baixa capacidade de ação e realização características destas pessoas, o seu baixo nível de agressividade. Respiração superficial: a respiração está relacionada à carga energética e emocional e uma pessoa com fortes traços orais vive num nível energético bem baixo precisando, portanto receber, receber energia, amor, atenção, etc.

Este foi só um exemplo ilustrativo; a oralidade apresenta uma complexidade grande em sua caracterização corporal e suas implicações psicodinâmicas. Normalmente as pessoas apresentam mais de um traço de caráter. Assim, uma pessoa com um caráter predominante rígido pode apresentar também traços visuais e orais. Ou seja, tipos puros são raros.

Há uma relação muito próxima entre os traços corporais e o jeito de ser de uma pessoa, o que envolve a sua modalidade de relacionamentos, os seus afetos predominantes, suas crenças internas, a sensibilidade que essa pessoa tem de seu próprio corpo, sua imagem corporal, sua identidade, sua sexualidade, etc.

O corpo e a postura têm uma relação íntima com os mecanismos de defesa e com as fases de desenvolvimento emocional. É curioso como as modalidades relacionais que se estruturaram na infância passam a fazer parte do repertório automático no dia a dia do adulto, mostrando como ainda está ativa a criança nele. Naquele momento quem está reclamando, quem está se boicotando é esse outro eu que nos habita e que tem profundas relações com a vida emocional infantil, a criança em nós.

Se fizermos um corte apenas no momento presente podemos perceber que as pessoas apresentam uma sensibilidade corporal seletiva. Há partes do corpo que elas sentem mais, outras que sentem menos ou até partes que não sentem. Falo de sensação não apenas muscular, mas também visceral, de ondas de prazer e de emoção. Em toda neurose há uma certa anestesia do corpo. Sentindo mais o corpo, sentimos mais a angústia, a dor. O que é próprio do encouraçamento é justamente a diminuição da sensibilidade e da motilidade corporal. Uma forma de reduzir a dor profunda e a angústia através da diminuição da sensibilidade geral.

Couraças são mecanismos de proteção necessários para a integridade do ego ou da vida. Trabalhamos para atenuar a utilização de soluções anacrônicas, de recursos defensivos e protetores que foram fundamentais num determinado momento da vida do sujeito, geralmente em sua infância, quando seu ego era mais frágil, mas que atualmente poderia ter sido superados, mas ainda restringem a vida da pessoa.

No geral as couraças apresentam as seguintes funções:

  • Diminuem a vitalidade: respirando menos, sentimos menos.
  • Limitam a mobilidade e a motilidade, levando a um agir e sentir controlado através da diminuição e contenção das reações emocionais no corpo.
  • Estruturando o pensamento: crenças internas que reforçam as defesas: “Eu não mereço”, “eu não pertenço a este mundo”, “eu não confio em você”.
  • Estruturando a percepção: não percebo em mim o que não posso sentir. “Isto não é meu, é dele”; projeção.

As couraças levam a uma restrição motora, sensorial e emocional. A restrição sensorial leva diretamente a uma restrição perceptiva. Como diz Reich: “o organismo pode sentir somente o que ele por si mesmo expressa”. Não podemos perceber o que não podemos sentir e expressar em nós mesmos, ou, se percebemos, não conseguimos compreender. Quando calamos uma voz dentro de nós, temos dificuldade em ouvir esta voz vindo de outra pessoa.

Assim a couraça vai construindo um campo de coisas percebidas pela pessoa, organizando valores, um jeito de ser e responder às situações, e principalmente, uma visão de mundo.

A terapia reichiana se desenvolve a partir da relação cliente-terapeuta, utilizando-se de referências psicodinâmicas. Há uma organização do trabalho prático, das técnicas de mobilização corporal, que são feitas de acordo com os traços de caráter do cliente, das defesas utilizadas, das couraças ativas, etc. Apresenta tanto um caráter analítico, desconstrutivo das estruturas cristalizadas, como sintético e construtivo de modos de ser mais positivos e vitais.

Reich é um autor muito pouco lido e mal compreendido. Felizmente este panorama está se modificando, o que permite a um número maior de pessoas entrar em contato com um conhecimento tão rico e exemplar na profundidade com que aborda a vida emocional. É um conhecimento que integra as dimensões psíquicas, somática e energética numa concepção de ser humano que está faltando às ciências da saúde e ao universo terapêutico.

Os caminhos abertos por Reich oferecem-se para serem explorados, redescobertos e ampliados. A prática clínica reichiana fala por si, em seu eficaz trabalho a favor do maior de todos os valores: a vida.

* Artigo publicado pela Revista Catharsis n. 28 nov-dez 1999. Este texto serviu de base para palestra proferida na UNIBAN SP por ocasião da 2° Jornada de Psicologia em 16/09/97.

** Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Notas:

O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido:
Scarpato, Artur. A Psicossomática Reichiana. Revista Catharsis São Paulo, n. 28, nov-dez, 1999
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Última atualização: 06/09/2016

Síndrome do Pânico: Uma abordagem Psicofísica

SEÇÃO ARTIGOS PARA PROFISSIONAIS

Síndrome do Pânico: Uma Abordagem Psicofísica *

Artigo publicado pela Revista Hermes do
Instituto Sedes Sapientiae SP, numero 3 1998.
Artur Thiago Scarpato**

Resumo:

O presente trabalho desenvolve uma concepção psicofísica do fenômeno da Síndrome do Pânico. Faz um paralelo entre a crise de pânico e o que Freud denominava Neurose de Angústia em 1895, comparando a reação de Pânico à reação de angústia. Explica a fase visual do desenvolvimento infantil e o papel da contração do anel visual como agente atuante nas futuras respostas de pânico. Explicita as relações entre as vivências precoces da criança e os processos de organização da consciência e de identificação com o corpo. Procura demonstrar a ordem implícita nas reações corporais das crises de pânico e seu significado emocional. Caracteriza alguns traços psicofísicos comuns às pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico, como a desorganização do anel visual, a contração crônica do diafragma e o pouco contato com a parte inferior do corpo. Explicita alguns modos de funcionamento destas pessoas nos períodos entre as crises. Propõe uma abordagem psicofísica de tratamento que leve em consideração todos estes fatores.

Abstract:

This works develops a psychophysical conception of the phenomenon of Panic Disorder. It draws a parallel betwen panic attacks and what Freud in 1895 named anxiety neurosis, comparing the response to panic with the response to anxiety. It explains the visual stage of infant development and the role of the contraction of the visual segment as an active agent in future responses to Panic. It makes clear the links between a child’s early experiences and the processes of organisation of the conscience and identification with the body. It aims to show the order implicit in the bodily reactions to panic attacks and its emotional significance. It characterizes certain psychophysical features common to people who develop Panic Disorder, such as disruption of the visual segment, the chronic contraction of the diaphragm and the reduced contact with the lower part of the body. It describes various forms of behaviour of these people in the periods between panic attacks. It proposes a psychophysical approach to treatment wich takes into consideration all of these factors.

“…pode irromper de repente na consciência sem ser despertado pelo curso da imaginação e provoca assim um ataque de angústia. Tal ataque pode constituir somente em sensação de angústia, não associada a nenhuma representação, ou ligada à idéia de morte ou loucura, ou também acompanhada de uma parestesia qualquer…ou unida à perturbação de uma ou mais funções físicas, tais como da respiração, da circulação, da inervação vasomotora ou da atividade glandular.

(…) Eis aqui uma relação das formas de ataque de angústia que até agora me são conhecidas:

a) Com perturbação da atividade cardíaca: palpitações, arritmias breves, taquicardia duradoura…

b) Com perturbação da respiração: formas diversas de dispnéia nervosa, ataques análogos ao do asma, etc….

c) Ataque de suor, às vezes noturno.

d) Ataques de tremores e convulsões…

e) Ataques de bulimia, acompanhados às vezes de vertigem.

f) Diarréias emergentes em forma de ataques

g) Ataques de vertigem locomotora.

h) Ataques das chamadas congestões…denominado neurastenia vasomotora.

i) Ataques de parestesia… “(1)

Estas palavras poderiam ter sido escritas este ano sobre a Síndrome do Pânico, porém foram escritas em torno de 1895 por Freud, ao falar do quadro que ele denominava “neurose de angústia”, em sua obra “A Neurastenia e a Neurose de Angústia”.

Analisaremos o conceito de angústia em Freud nesta época e sua relação com as crises de Pânico. Falaremos então, do conceito de fase visual de desenvolvimento na teoria reichiana e da contração energética do anel visual como fator importante para o desencadeamento da Síndrome do Pânico. Passaremos a uma caracterização dos traços psicofísicos principais que contribuem na resposta de Pânico. Por fim faremos uma proposta de intervenção terapêutica psicofísica voltada tanto para a superação das crises como para uma reorganização mais profunda da personalidade.

Segundo a visão de Freud neste período de sua obra, a angústia provinha de um excesso de energia sexual que não atingia o plano psíquico como representação erótica. Ao invés disto, manifestava-se ainda no plano somático sob a forma de angústia.

Pessoas que tinham uma vida sexual insatisfatória, sofriam de um acúmulo de energia que deixava de estar disponível ao ego. Esta energia ultrapassava a capacidade de integração egóica, tendo assim restrita sua passagem ao plano psíquico, transformando-se em angústia. Angústia era concebida como energia sexual não representável. Havia uma impossibilidade de representação psíquica da excitação sexual e emocional, tendo como conseqüência seu desdobramento em angústia.

Podemos apreender várias coisas da teorização freudiana. A mais importante neste contexto é a de que existe um nível de tolerabilidade a estímulos internos para o ego. Há um limite de excitabilidade emocional e energética suportável e integrável à dinâmica consciente; a partir deste patamar, há um risco de desorganização.

Há uma articulação afeto-representação no funcionamento emocional humano; a todo afeto se liga uma representação. Quando falamos de angústia estamos falando de emoção num estado mais puro, sem representação, no limite entre o biológico e o psíquico. Ultrapassada a capacidade de integração do ego, surge a angústia, como manifestação do limite, da ameaça de morte, do contato com o desconhecido. A angústia é a emoção que acompanha a aproximação do inconsciente, a invasão de conteúdos e emoções que ameaçam rupturas na identidade egóica. É a emoção do nada.

A experiência do Pânico é a experiência da angústia. Angústia pela inundação do ego por fluxos emocionais e energéticos que vêm produzir um abalo sísmico na fina superfície da consciência.

O Pânico reflete uma disparidade entre os planos consciente e inconsciente. Houve um estancamento na comunicação interna, a rigidez do ego anula a tão saudável permeabilidade intra-psíquica. A conseqüência é a ruptura do elo mais fraco; há uma rachadura no represamento do inconsciente por falta de vazão necessária; há uma inundação de águas sobre a consciência.

A brutalidade da Síndrome do Pânico parece ser proporcional à disparidade entre consciente e inconsciente.

A história de vida de cada um vai compondo uma paisagem singular, onde acontecimentos e vivências interiores deixam marcas significativas. Podemos delinear algumas destas marcas e relacioná-las a determinadas problemáticas. É o que faremos em relação à Síndrome do Pânico, identificando elementos comuns que reverberam nas pessoas que têm o Pânico como resposta às questões da vida.

 

A FASE VISUAL

 

O desenvolvimento emocional da criança passa por algumas fases; Reich chamou a primeira delas de fase visual. Esta fase está relacionada às vivências precoces da criança desde as primeiras horas de vida, tendo um limite difuso com a fase oral, apresentando fortes interpenetrações.

Esta fase está relacionada aos primeiros contatos que a criança estabelece com o mundo à sua volta através de seus tele-receptores: olhos, nariz e ouvidos. Os “tele-contatos” ocupam um lugar importante na dinâmica psíquica relacional, sendo que a visão vai fornecer as experiências mais estruturantes deste período.

A criança nasce em estado de fusão energética com a mãe e gradativamente vai se diferenciando para constituir-se como uma unidade energética independente. Algumas aquisições sensoriais e motoras da criança acompanham este processo de separação; entre elas, o desenvolvimento da visão binocular focal, isto é, a capacidade de convergir os dois olhos para formar uma imagem tridimensional dos objetos e discernir a figura do fundo.

O desenvolvimento do olhar está relacionado às primeiras experiências da criança no ambiente que a cerca, em suas buscas de satisfação, contato e orientação. O controle do movimento dos olhos talvez seja uma das primeiras manifestações motoras do ego nascente.

Podemos dizer que há uma gravitação das primeiras experiências da criança em torno da erogenicidade dos contatos visuais. Não pelo simples fato do olho ser uma zona erógena, afinal elas são muitas, mas da experiência visual ocupar um lugar central na dinâmica emocional neste período, de forma que as experiências físicas, cognitivas, afetivas e energéticas, estejam de alguma forma inter-relacionadas à ela, compondo uma certa organização. Isto nos permite falar da visualidade como um organizador psíquico; no mesmo sentido da oralidade, da analidade, etc. Assim também podemos falar de uma fase visual do desenvolvimento emocional.

Nos primeiros momentos de vida, a criança tem ainda poucos recursos internos para se proteger das agressões e das frustrações; suas reações são globais e envolvem a sua totalidade psicofísica.

Uma das formas de proteção possível nesta época é a contração energética de todo o organismo, o que no futuro, poderá contribuir no desenvolvimento das biopatias orgânicas, doenças com acentuada alteração somática. Outro recurso possível à criança, e pelo que parece, um pouco posterior ao primeiro, é a contração do anel visual, levando a uma clivagem entre as vivências corporais e psíquicas, entre sensação e percepção. O anel visual tem a função de integração destes níveis de vivência. Além desta função, está relacionado também à organização da consciência, orientação espaço-temporal, atenção, auto-percepção, contato e expressão emocional e discriminação de limites; todas estas funções sofrem algum tipo de alteração quando há encouraçamento do anel visual.

A contração energética do anel visual traz conseqüências importantes, presentes em diversos problemas emocionais, como as psicoses, os estados de desorganização psíquica, confusão, pânico, etc.

Nos períodos iniciais a criança é extremamente sensível aos estímulos que recebe. Um parto problemático ou um contato materno precário, com olhares frios e agressivos, podem repercutir profundamente naquele ser em suas primeiras experiências.

Uma passagem satisfatória pela fase visual conduz ao que o Dr. Dimas Calegari denomina de centramento da identidade energética. O centramento da identidade energética fornece à criança a sensação de ser ela mesma, identificada com seu próprio corpo e em processo de separação da mãe. Esta é a base sobre a qual a criança vai desenvolver suas singularidades existenciais, avançando em seu processo de diferenciação do mundo e do outro. Neste momento a criança estará estabelecendo sua base de confiança na vida, na qual poderá se entregar ao recolhimento e ao sono, com a garantia de que depois será recebida e acolhida em suas necessidades; de outro modo, poderá ficar alerta, ansiosamente paralisada a meio caminho entre a relação com a mãe e o recolhimento que se segue à satisfação, impossibilitada desta pulsação.

Algumas pessoas passam por esta fase sem um bom centramento de sua identidade energética, trazendo ao longo da vida marcadas tendências simbióticas de retorno à indiferenciação energética mãe-bebê. As vivências de rejeição materna precoce estão entre os principais desencadeadores destes problemas. Estas marcas iniciais poderão ser encobertas por mecanismos egóicos de defesa de fases posteriores do desenvolvimento. A pessoa pode levar a vida lançando mão de recursos egóicos mais maduros até que uma determinada conjunção de fatores venha a desequilibrar a camada superficial da personalidade, trazendo à tona estas problemáticas anteriores.

Parece ser este o caso das pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico. Apresentam uma falha estrutural na direção da simbiose. Quando há uma desestabilização na vida, o sistema entra em pane por falta de base. Falta o centramento da identidade energética, que possibilita a identificação com o corpo, elemento fundamental na estruturação egóica.

Quando falamos das primeiras vivências do bebê, abordamos um terreno obscuro, de registros mnêmicos anteriores à aquisição da palavra. As carências deste período não são acessíveis à interpretação verbal. Os melhores recursos são corporais, imagéticos, etc.

 

 

CARACTERIZAÇÃO PSICOFÍSICA

 

Podemos observar uma série de traços corporais próprios à Síndrome do Pânico. Isto não representa uma simples relação causal, como se determinado aspecto corporal fosse o agente causador de uma situação psíquica. As relações psique-corpo compõe-se de matizes muito mais ricas e complexas. Podemos falar de manifestações em níveis diferentes de um mesmo princípio original, sem que uma manifestação seja causa da outra, mas sim co-presentes, corpo-psique.

Existem alguns fatores que parecem contribuir para que algumas pessoas venham a apresentar Síndrome do Pânico: fatores psíquicos, energéticos e somáticos.

Pessoas com deslocamento superior de energia em conjunto com traços visuais parecem ser mais propensos a desenvolverem Pânico. O deslocamento superior caracteriza-se pelo pouco contato com a base (pés, pernas e quadril) e predomínio do movimento energético acima do diafragma.

O Pânico encontra possibilidades de deflagração num ego que traz marcas de dificuldades na integração da vivência corporal, tendências simbióticas e precariedade ao lidar com emoções e conteúdos internos.

Vamos observar a fenomenologia corporal da crise de Pânico.

Há um fluxo intenso de energia (emoção) em direção à cabeça, desorganizando a auto-percepção da pessoa. Na crise, o movimento energético é ascendente; a energia sobe, sai das pernas (tremor, medo de cair, insegurança) e vai em direção à cabeça. O diafragma se contrai (falta de ar, dificuldade de expirar, náuseas) acentuando o movimento ascendente. O coração dispara, há estreitamento da garganta (sufocamento) e inundação da cabeça (confusão, rubor na face, despersonalização, desorganização da percepção – contração profunda do anel visual). Há também uma contração energética no cerne do organismo e uma expansão desordenada do campo energético.

O fenômeno do Pânico assemelha-se a uma inundação da cabeça por emoções e estímulos além da capacidade de integração da consciência. Há um afluxo de tensão visceral que se irradia para a cabeça e para o campo energético sem conteúdo emocional passível de integração pelo ego.

As pessoas com Síndrome do Pânico apresentam algumas características muito freqüentes em seu funcionamento psicofísico:

  • Desorganização do anel visual, com prejuízos da visão binocular focal.
  • Contração crônica do diafragma, com o peito em posição inspiratória.
  • Pouco contato emocional com a parte inferior do corpo (abdome, quadril, pernas e pés).

Estes traços apresentam profundas intersecções com a dinâmica emocional; espelhando no plano somático, realidades psíquicas de significado profundo.

A pessoa com Síndrome do Pânico parece não estar bem enraizada em seu corpo. Apresenta um aspecto de reação de fuga, de afastamento do corpo. Afastamento dos sentimentos e das sensações. O verdadeiro perigo é interno, de invasão do inconsciente. Há dificuldade em centrar a energia no corpo. Há fragmentação da atenção, como se a pessoa estivesse “meio aqui e meio distante ao mesmo tempo”. A sensação de presença no mundo parece ficar um tanto indiferenciada, perdida.

A pessoa pode passar boa parte do tempo ansiosa, na expectativa de ter uma nova crise. O corpo representa uma ameaça para a pessoa. A tendência defensiva seria de proteção nos meandros do mundo mental e afastamento do corpo – fonte do desconforto e do caos. No entanto, a maior capacidade de suportar a “ansiedade antecipatória” acontece quanto mais identificado com o corpo a pessoa está. Haveria aí uma base para suportar a ansiedade.

A imagem mítica do Deus Pã pode nos iluminar na compreensão do Pânico. A origem da palavra pânico se baseia no terrível medo que sentiam os viajantes ao ouvirem gritos estranhos na floresta; supunham serem esses gritos sinais da aproximação de Pã. Em algumas representações este Deus tem um corpo híbrido, metade animal, metade homem. É inevitável a associação desta imagem ao estado de uma pessoa em crise de pânico. O grande perigo ameaçador está na parte inconsciente e animal não integrada à consciência. Pã simbolizando a natureza, o corpo, a sexualidade, a agressividade…aspectos mais distantes da identidade racional consciente.

Reich percebeu a fragmentação emocional do homem moderno e forjou uma imagem onde o ser humano está divido em três partes: o Homem, Deus e Diabo, que podemos associar respectivamente, à Cabeça, ao Peito e ao Quadril. O quadril como fonte da energia sexual, o abdome como reservatório da maldade, enfim, entre múltiplos sentidos, as partes mais distantes do ego, a sede do Diabo, a morada de Pã.

 

A TERAPIA NA SÍNDROME DO PÂNICO

 

Existem três pilares do trabalho corporal no tratamento da Síndrome do Pânico: o desenvolvimento do contato com a base (pés, pernas, quadril), a soltura do diafragma e a mobilização do anel visual.

A passagem do estado de contração crônica do cerne do anel visual para o de pulsação é dinamizado pela utilização de técnicas específicas de ativação deste anel. Uma das técnicas utiliza-se de uma luz que o cliente deve seguir com os olhos, que se afasta e se aproxima da ponta de seu nariz, ativando simultaneamente a convergência binocular, a visão macular, a concentração da atenção e o centramento de sua energia. Neste processo pode ocorrer também a liberação de afetos trazidos pela mobilização do olhar. Esse é um dos caminhos para restaurar a pulsação desse anel e suas funções, onde estaremos catalisando a integração psique-soma e buscando atingir registros psíquicos precoces relacionados a vivências simbióticas.

A liberação do diafragma é alcançada através de exercícios de respiração abdominal, ampliação da capacidade expiratória e toques profundos.

O trabalho com o diafragma possibilita maior fluxo energético para a parte inferior do corpo. Isto contribuirá na expansão do organismo abrindo outros caminhos de descarga energética, ativando, entre outras coisas, o peristaltismo, melhorando o contato com a base e trazendo possibilidade de tranqüilização e alívio da sobrecarga energética-emocional ascendente.

O contato com a base é desenvolvido em exercícios de contato com as pernas, pés e quadril que permitam maior mobilidade energética e sensibilidade. Exercícios de “grounding”, alongamentos, atenção dirigida, etc.

O trabalho com a base mobiliza o “estar na realidade”, o sentimento de segurança e, juntamente com as outras duas técnicas, facilita a integração de sensações e emoções sexuais e agressivas.

Ao propormos os exercícios precisamos estar o tempo todo atentos às vivências do cliente. Não se trata de exercícios físicos, mas psicofísicos, onde contamos com um setting adequado, uma relação terapêutica, uma disposição psíquica e uma mobilização do corpo.

A pessoa com Pânico tem dificuldade em fazer a integração entre as suas sensações corporais e o significado que estas possam ter, parecendo tudo “sem sentido”, como reações de “enlouquecimento do corpo”. Cria-se um estado de desorientação interna e confusão sobre o que está acontecendo. Um dos objetivos do tratamento é ajudar a pessoa a retomar sua identificação com o corpo, reintegrando as suas sensações e emoções. Estamos trabalhando neste momento com a retomada da auto-percepção, integrando as vivências corporais e psíquicas, mobilizando o anel visual.

O estado de angústia é acompanhado por uma dilatação das pupilas, divergência binocular e predominância da visão do campo. Neste estado, a atenção está difusa e a pessoa tem dificuldade em concentrar-se. Podemos observar que a pessoa em pânico tem muita dificuldade em convergir os dois olhos num mesmo ponto, assim como em discriminar a visão macular da visão do campo da retina, isto é, realçar a figura do fundo.

O desenvolvimento da visão binocular convergente focal unida à capacidade de estar em contato com a sensação do olhar traz várias alterações significativas: acentua a sensação corporal, torna os limites do corpo mais nítidos, equilibra o tônus muscular, aumenta a coesão do campo energético, ajuda a expandir o cerne energético, contribui para a identificação com o corpo, traz a pessoa para o aqui e agora e diminui a ansiedade.

A terapia com estes pacientes caminha na direção da reorganização da personalidade. O paciente com Pânico, inundado por emoções além da capacidade de integração do ego, precisa de recursos para lidar com esta situação. Trabalhamos para acentuar a identificação com o corpo, focalizar e centrar a atenção, afinar as discriminações eu-mundo, adquirir uma compreensão coerente sobre as reações do próprio corpo, ampliando os recursos internos.

Posteriormente, e acentuando-se com o decréscimo das crises, passamos a trabalhar com conteúdos mais profundos, buscando trazer as emoções que antes causaram desorganização para agora poderem ser elaboradas. Este momento é semelhante à abordagem psicoterápica desenvolvida com outros pacientes sem queixa específica. Norteia-se pela estrutura de caráter do paciente e constitui um ponto muito significativo do processo. É o momento de contato com as angústias, com as dores, de mudanças profundas da personalidade; de abandonar as estruturas cristalizadas e arriscar novas possibilidades de vida.

Na experiência clínica com esta metodologia de trabalho, podemos observar que a pessoa deixa de ter as crises em pouco tempo de terapia. A questão crítica passa a ser não mais o Pânico – objetivo superado através da técnica – mas a sensibilização, conscientização e mobilização das questões psicodinâmicas envolvidas, visando mudanças mais profundas da personalidade e assim poder abandonar o fantasma das recaídas.

Um dos critérios importantes ao avaliar-se um tratamento para a Síndrome do Pânico é a sua eficácia na prevenção de futuras recaídas. Pesquisas(2)demonstram que a possibilidade de recaídas é menor quando há intervenção psicológica do que quando o tratamento utilizado é apenas medicamentoso. Pesquisas futuras poderão avaliar a contribuição de uma abordagem psicofísica, como é a perspectiva reichiana, comparada a outras formas de tratamento.

Este trabalho está baseado no trabalho clínico com alguns pacientes em consultório particular. Utiliza-se de uma amostra qualitativamente significativa, pela profundidade do contato, observação e acompanhamento do processo do cliente, e por outro lado numa amostra quantitativamente pequena. Outras pesquisas poderão contribuir neste processo de ampliação do campo terapêutico da Síndrome do Pânico segundo a ótica reichiana.

 

CONCLUSÃO:

 

Consideramos este trabalho como uma proposta terapêutica onde a abordagem sintomática não seja incongruente com uma perspectiva psicodinâmica, mas ao contrário, procure integrá-las dentro de uma compreensão mais ampla, visando superar as problemáticas cisões psique – soma, sintoma – conflito, etc. Um trabalho que objetiva equilibrar a dinâmica energética da pessoa atingindo-a em sua dimensão psíquica, vivencial e inconsciente.

A perspectiva desenvolvida é eminentemente psicossomática concebendo psique e soma como elementos intrínsecos de uma unidade funcional. As técnicas psicofísicas contribuem na mobilização da imagem corporal, na ativação energética e no processo de integração emocional. Por todos estes motivos pode constituir-se num recurso valioso na terapêutica da Síndrome do Pânico.

Notas:

*Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação sugerido: 

Scarpato, Artur. Síndrome do Pânico:uma Abordagem Psicofísica, Revista Hermes, São Paulo, numero 3, 1998.

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Referências:

1 –Freud, S., La Neurastenia y la Neurosis de Angustia (Sobre la Justificación de Separar de la Neurastenia Cierto Complejo de Síntomas a Título de “Neurosis de Angustia”) in: Obras Completas, Editorial Biblioteca Nueva, 1981, Madrid, vol I, p 184-185.

2 cf. National Institutes of Mental Health, Treatment of Panic Disorder, NIH Consens Statement Online 1991, Sep 25-27;9(2):1-24.

 

* Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

BIBLIOGRAFIA

 

  • Ann Brennan, B. Mãos de Luz, Editora Pensamento, 1995, São Paulo.
  • Associação Americana de Psiquiatria, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV, Artes Médicas, 1995, Porto Alegre.
  • Atkinson, J., Braddick, O., Development of Basic Visual Functions. In: Slater, A., Bremner, G., Infant Development 1989, cap 1, p.7-41
  • Baker, Elsworth F. O Labirinto Humano: as causas do bloqueio da energia sexual, Summus Editorial, São Paulo, 1980.
  • Calegari, Dimas, Anotações pessoais do Curso de Formação em Teoria e Técnica Reichiana ministrado em São Paulo, 1995-1996.
  • Keller, Luis A. A., Síndrome do Pânico, Globo, 1995, São Paulo.
  • Eid, Flávia Gusmão, Entendendo o Medo e o Pânico, Paulus, São Paulo, 1994.
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  • Laplanche, J, Pontalis, J.B, Vocabulário da Psicanálise, Martins Fontes, São Paulo, 1988.
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  • National Institutes of Mental Health, Treatment of Panic Disorder, NIH Consens Statement Online 1991, Sep 25-27;9(2):1-24.
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  • Ulson, Glauco, Aspectos Psicodinâmicos do Pânico, in: Junguiana, Revista da SBPA, São Paulo, 1984, n. 2

Estresse Pós Traumático: A Situação Emocional de Pessoas Vítimas de Violência

SEÇÃO ARTIGOS

Estresse Pós Traumático: A Situação Emocional de Pessoas Vítimas de Violência

 

Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, São Paulo, número 6, 2004, p. 10-14.

 

Artur Thiago Scarpato

As pessoas que vivem em cidades em que a onda de violência está aumentando, têm que lidar com um problema cada vez mais freqüente, o estado das vítimas após uma situação de agressão. As situações vividas podem ser várias: assaltos, acidentes de trânsito, seqüestros, violência sexual, presenciar uma situação violenta que ocorre com outra pessoa, entre várias outras

Todas estas situações podem ultrapassar o limiar de tolerância de uma pessoa em relação ao que ela experienciou. Assim, para algumas pessoas, a experiência de violência pode ser vivida como traumática, o que significa que a pessoa vive uma intensa reação de estresse na situação, sendo que a reação não se desfaz e a pessoa não retorna ao seu estado psicológico habitual.

Em situações ideais, uma pessoa que se depara com uma situação de agressão, vivencia uma alta intensidade de estresse no momento e logo depois do evento, mas tende a ir voltando ao seu padrão de funcionamento com o passar do tempo. (Selye, 1974, 1976).

Para entender este fenômeno é importante que nós possamos compreender os mecanismos da experiência de violência e os modos como uma pessoa pode viver a agressão durante e depois do evento. Há vários fatores que podem contribuir para que uma pessoa não volte ao seu estado habitual após uma situação de agressão: a idade e o momento em que o evento ocorreu, a intensidade e a duração da experiência, o nível de impotência que a pessoa sentiu, o sentido da experiência na história de vida da pessoa, os sentimentos que a situação despertou, como medo, pavor, raiva, etc.

 

 

 

Os Diferentes Modos de Reagir

Diferentes pessoas não reagem do mesmo modo a uma situação violenta. Quando duas pessoas vivem uma mesma situação de agressão, uma pode ficar traumatizada, enquanto a outra retoma a sua rotina em pouco tempo. Cada pessoa tem uma história singular de agressões e estresses em sua vida, cada uma associa o evento agressivo atual a experiências específicas de seu passado. Uma série de fatores como estes tornam alguém mais vulnerável a determinadas agressões, determinando os limites entre o assimilável e o excessivo.

Por exemplo, durante uma situação de violência, uma pessoa pode se manter fria e sob controle, outra pode entrar em desespero e pânico, enquanto uma terceira pode desmaiar. Três modos diferentes, pessoais, de lidar com a mesma situação de estresse intenso, o que expressa três temperamentos e três histórias de vida diferentes.

Após a situação, cada um poderá viver também de um modo singular os efeitos posteriores. Um pode ficar com medo apenas por alguns dias e depois voltar à vida normal, outro poderá ficar com uma ansiedade muito grande e duradoura e não conseguir voltar à sua rotina, enquanto um terceiro poderá afundar numa profunda depressão decorrente do grande abalo causado pela experiência. Cada um reage de um modo singular às várias situações de agressão que sofre na vida, assim como às eventuais situações de violência intensa.

 

 

 

Os Predisponentes

Apesar de muitas pessoas viverem situações violentas, uma parcela bem menor desenvolve Estresse Pós-traumático. Pesquisas têm apontado que as experiências de relacionamento nos primeiros dois anos de vida exercem um efeito significativo sobre a capacidade posterior de uma pessoa em lidar com o estresse e manejar os seus estados emocionais (Schore, 2001, 2002).

Ao cuidar do seu bebê, uma mãe ajuda a regular os estados internos de seu filho. Por exemplo, a mãe busca acalmar o bebê ao vê-lo muito agitado. A capacidade de auto-regulação emocional ainda não está desenvolvida, e a mãe exerce esta importante função de hetero-regulação até que o bebê possa aprender a se regular por si próprio.

Os traumas relacionados principalmente a experiências de abuso e negligência nesta idade precoce têm um enorme impacto sobre o desenvolvimento da criança e do futuro adulto. Nesta época as áreas cerebrais relacionados à regulação emocional ainda estão se desenvolvendo e os traumas interpessoais precoces podem afetar o desenvolvimento cerebral, tornando uma criança mais vulnerável a uma situação de Estresse Pós-Traumático na vida adulta. Esta área de pesquisas é importante por mostrar como o cérebro se constitui junto com as experiências de vida e não apenas pelo que é dado geneticamente (Schore, 2001). Assim a psicoterapia tem um trabalho valioso ao recuperar a dimensão da experiência vivida como caminho para a transformação da personalidade e do cérebro. A psicoterapia exerce um efeito indireto e remodelador sobre o cérebro no processo de recuperação emocional de um paciente.

 

 

 

Os Sinais e os Sintomas

Podem ocorrer várias manifestações em pessoas que desenvolvem estresse pós-traumático em decorrência de situações violentas.

Durante o evento, por exemplo, a situação pode parecer irreal, tudo parecendo como um sonho ou pesadelo e a pessoa se sentindo anestesiada na situação. Para outras pessoas a vivência pode ser de intenso desespero e dor. A vivência do tempo também pode ficar bastante alterada e o que durou apenas alguns segundos, por exemplo, pode parecer um longo tempo, as coisas podem parecer ocorrer em câmera lenta, tudo ficando muito vívido na percepção.

Logo após o evento, muitas pessoas se mantêm num estado de “anestesia emocional”, sentindo-se distantes da situação, diminuindo sua responsividade ao mundo. Com o passar do tempo a pessoa pode ir “descongelando” e viver experiências intensas de impotência e fracasso. Algumas pessoas desenvolvem um estado mais depressivo, com perda de interesses, desânimo, embotamento emocional, estreitamento de horizontes na vida, etc.

Outras pessoas passam a ficar ansiosas, temendo que a situação se repita, desenvolvendo um padrão ansioso de distresse. A pessoa pode se lembrar repetidamente do evento, com as lembranças invadindo a sua consciência, muitas vezes lembranças dos mínimos detalhes. Há também pessoas que não conseguem lembrar nenhuma imagem da situação, ficando apenas com o efeito emocional do que ocorreu, como se tivesse sido algo dolorido demais que faz a pessoa esquecer.

Podem surgir associações entre o evento e situações específicas, levando a comportamentos de evitação, como não sair à noite, não sair de casa sozinho, não freqüentar determinados locais, etc. Intensas reações emocionais podem surgir frente a estímulos que simplesmente lembram a situação vivida, como certos sons, certo clima, certos olhares, etc.

Há possibilidade de se desenvolverem estados mais constantes de ansiedade, de alerta e vigilância, respostas exageradas de sobressalto e apreensão, dificuldade em se concentrar, atitude de desconfiança, etc.

Podem surgir sensações de irrealidade e distanciamento do mundo, fazendo tudo parecer como um sonho, com sensações de estar separado do corpo, etc. Pode haver pesadelos repetidos.

Algumas pessoas ficam mais irritadas, apresentando ataques de raiva e instabilidade emocional.

No geral as reações vão para duas direções básicas: depressão e ansiedade. Há pessoas que vão para estados mais depressivos, pessoas que vão para estados ansiosos e agitados e pessoas que se alternam entre estes dois estados.

 

 

 

Experiência, estresse e distresse

Após uma situação de violência, uma pessoa pode permanecer em estado alterado por períodos variáveis. É classificado como estado deestresse agudo quando a pessoa apresenta sinais intensos de estresse após o evento traumático, mas volta ao seu padrão de funcionamento normal dentro do primeiro mês. Quando as reações persistem por meses e até anos, é classificado como estresse pós-traumático. (Associação Americana de Psiquiatria,1995)

Segundo a classificação proposta por Keleman (1989), quando a reação de estresse vivida numa situação não se desfaz, ela é denominada de distresse. O nome certo de um estado permanente seria, portanto, distresse pós-traumático, porém o uso consagrou o termo estresse pós-traumático.

O estresse (quando desfaz) e o distresse (quando permanece) são respostas a situações de agressão tanto externas – que vem do encontro com o mundo – quanto internas, que decorrem do sentir dentro de si coisas além do assimilável.

Os sentimentos vividos na situação de violência podem ser excessivos e agressivos, ultrapassando o limiar de tolerância e assimilação de uma pessoa. Para alguém, por exemplo, sentir muito medo ou ódio nascendo dentro de si, pode ser extremamente assustador, de modo que a pessoa reage com forte estresse frente aos próprios sentimentos, que a agridem de dentro. Isto além da própria agressão que vem de fora.

Quando sintomas permanecem por um período mais longo, indicam que a agressão foi vivida muito intensamente, com um estado de estresse excessivo que levou à cristalização em um padrão de distresse.

Os padrões de distresse são organizações psicofísicas que mantém a pessoa paralisada num modo de funcionamento, sem poder voltar ao seu modo de vida anterior. (Keleman, 1989)

Por exemplo, uma pessoa que sofreu uma situação de violência, não conseguia mais dormir à noite, ficando alerta e atenta aos barulhos da noite, sentindo medo de que a situação pudesse se repetir. Ela evitava sair de casa, temia os olhares dos outros, temia que o agressor pudesse voltar a qualquer momento, tinha pesadelos com cenas de violência e a desconfiança dominava a sua experiência no mundo. Sua vida ficou bruscamente limitada, num estado de muito sofrimento e exaustão que já durava alguns meses quando ela chegou para o tratamento.

Observando seu corpo pudemos ver que ela estava com o olhar oscilando entre expressões de desconfiança, vigilância e medo, a visão geralmente sem foco, com perda da convergência binocular, a respiração superficial e rápida, o diafragma contraído, a postura puxada para cima, aumentando a pressão na cabeça e no peito.

Há uma relação intrínseca entre o estados somáticos e os estados subjetivos, pois os padrões motores organizam e sustentam como uma pessoa sente e percebe o mundo. (Keleman, 1987).

Há uma organização psicofísica que sustenta a pessoa no estado de distresse, criando a percepção de que o mundo é de um certo modo – no caso, hostil – e produzindo repetições infinitas de pensamentos, fantasias, pesadelos e sentimentos em torno de uma mesma questão, criada e mantida por um padrão alterado de funcionamento. Tanto os sentimentos como a percepção, os pensamentos e a postura corporal são organizados pelo padrão de distresse. Criam a realidade do perigo iminente e deixam a pessoa como se estivesse em vias de reviver a situação a todo o momento. A reação não se desfez, o alerta está lá dizendo que o perigo pode voltar a qualquer momento. A percepção da pessoa tende a interpretar tudo pela ótica do medo, tudo que a pessoa percebe é visto pela perspectiva de seu padrão ansioso de distresse.

O padrão ansioso organizado produz e mantém estados de apreensão, alerta, desconfiança, medo, confusão e pânico. Estes estados podem se alternar e se intensificar em diferentes momentos e situações.
Padrões de distresse são organizações psicofísicas que compõe modos “fixos” e “determinados” de funcionar na vida e que surgem a partir de situações que interferem drasticamente no processo existencial de uma pessoa, nestes casos, as experiências de violência. A partir da situação traumática a pessoa fica fixada e paralisada num modo repetitivo de funcionamento emocional.

O padrão de distresse se organiza através de uma forma no corpo, é uma realidade postural, sustentada pela musculatura e que afeta a motilidade interna das vísceras, o estado emocional, a percepção, os pensamentos, enfim a pessoa inteira fica organizada segundo este padrão. (Keleman, 1985, 1989).

 

 

 

O Tratamento

Cada pessoa em situação de Estresse Pós Traumático necessita de uma atenção cuidadosa, pois suas reações têm relação com a sua história de vida, sua capacidade de lidar com sentimentos e emoções, o impacto que a experiência teve em sua vida e a qualidade de suas experiências de vida dali para frente.

A intervenção terapêutica é um recurso necessário para que a pessoa possa reorganizar seu padrão de funcionamento e continuar seu processo de vida de modo mais saudável.

É possível sentir e ver o mundo diferente, sair da situação de sofrimento constante, através realização de mudanças nos padrões de distresse organizados.

Mediante observação atenta do corpo, do olhar, da postura, da respiração e do modo de se mover, o profissional pode identificar o estado subjetivo interno que esta pessoa pode estar vivendo. Porém tão importante quanto o profissional identificar os sinais exteriores, é ajudar e capacitar a pessoa a perceber o próprio corpo, discriminando com clareza a sua própria experiência e as conexões que há entre a sua vivência subjetiva e o modo como o seu corpo está organizado naquele momento. A partir de um desenvolvimento maior da auto-percepção é possível ensinar a pessoa a interferir em seus padrões de sofrimento somaticamente organizados, através de exercícios específicos, agindo sobre os seus padrões de distresse.

Ajudando a pessoa a perceber suas próprias sensações corporais, sua organização postural e suas atitudes organizadas somaticamente, podemos ajudá-la a perceber como o corpo está totalmente interligado ao que ela sente, vê e pensa, organizado num padrão de distresse. A partir daí podemos ajudar a pessoa a dialogar com a própria experiência através de um método eficiente, conforme proposto por Stanley Keleman (1987).

Na terapia utilizamos técnicas que atuam exatamente nos pontos que estão mantendo a pessoa em estado de distresse. Ensinamos a ela a reconhecer a organização corporal deste padrão, podendo modular, aumentando e diminuindo sua intensidade e permitindo a sua desorganização e reorganização, permitindo à pessoa criar modos mais vitais de lidar com os afetos e as situações de sua vida. Um dos objetivos é ensinar um auto-gerenciamento do estresse que possa servir como habilidade ao longo de toda a vida da pessoa.

A terapia permite restaurar a capacidade de lidar com fortes emoções internas, o que pode ter ficado comprometido desde a primeira infância. Este processo precisa ocorrer num contexto vincular de cuidado e confiança, no qual a pessoa do terapeuta, tal qual uma mãe cuidadosa, primeiro ajuda seu cliente a se acalmar, com a ajuda de técnicas específicas, para então começar a ensiná-lo a manejar melhor seus estados internos e o mundo à sua volta, visando a sua recuperação e o seu desenvolvimento.

Através deste caminho a pessoa pode voltar a viver o seu presente, e não mais ficar paralisada por uma situação que já poderia ter/ser passado.

 

 

Bibliografia de Referência

    • Associação Americana de Psiquiatria (1995). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM IV, Porto Alegre, Artes Médicas
    • Keleman, Stanley (1987/1995) Corporificando a experiência, São Paulo, Summus
    • ___________ (1985/1992) Anatomia Emocional, São Paulo, Summus
    • ___________ (1989/1997) Padrões de Distresse, São Paulo, Summus
    • Selye, Hans (1974). Stress without Distress. Nova York, NAL
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Notas:

*Voltar ao início do texto Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação sugerido: 

Scarpato, Artur (2004). Estresse Pós-Traumático: a Situação Emocional de Pessoas Vítimas de Violência.Psicologia Brasil, ano 2 n. 6, p. 10-14.

**Voltar ao início do texto Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

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Última atualização: 06/09/2016

O Método dos Cinco Passos de Stanley Keleman

SEÇÃO ARTIGOS PARA PROFISSIONAIS

O Método dos Cinco Passos de Stanley Keleman *

Artigo Publicado na Revista Reichiana do
Instituto Sedes Sapientiae, n 15, 2006, p 47-55
Artur Thiago Scarpato

“A vida diária envolve a criação de diferentes configurações somáticas para lidar com a variedade de mudanças das circunstâncias externas” (KELEMAN, [1987]1995, p 27). Assim começa o segundo capítulo de um dos livros mais importantes de Keleman, “Corporificando a Experiência”. Nesta afirmação podemos ver como o comportamento é visto por Keleman a partir das organizações somáticas, que são inseparáveis das outras esferas da experiência humana. A clássica separação entre as esferas cognitiva, afetiva e motora perde espaço nesta visão integrada. Keleman elege o acesso à organização somática como via privilegiada para se trabalhar com a experiência humana, acreditando através deste trabalho estar articulando todas as camadas da existência.

            Keleman ([1979]1994, [1985]1992, [1989]1997, [1999]2001) propõe olhar a vida a partir do processo formativo, um processo de contínua criação de formas somáticas, uma anatomia do desenvolvimento que nunca pára e atravessa toda a vida. O processo formativo está afinado com o mesmo princípio que move o processo evolutivo das espécies, uma capacidade de criação de formas e estratégias para a ampliação da função vida.

           A perspectiva formativa aponta que a vida é movida pelos processos de diferenciação, crescimento e complexificação em direção ao futuro, criando novas formas somáticas e comportamentos para dar conta dos desafios que a vida apresenta. Este processo depende da interação constante entre forças biológicas, ambiente e subjetividade.

(pág 48**)As formas somáticas manifestam a passagem da motilidade à mobilidade, da pulsação ao movimento: “Sabe-se que o cérebro converte excitação em comportamento, direcionando-a ou evocando certos comportamentos passados” (KELEMAN, [1987]1995, p 86). Este processo que vai da excitação à ação contém etapas, e sob influência de Nina Bull (1962, 1968), Keleman vai elaborar a sua fórmula do comportamento em três tempos: “Em primeiro lugar, há um padrão organísmico geneticamente herdado, depois uma preparação para a ação e, finalmente, a ação propriamente dita” (KELEMAN, [1979]1994, p 38).

Os comportamentos se iniciam a partir de padrões inatos, um repertório evolutivo que manifesta os caminhos seguidos pela vida e que oferece direções de comportamentos futuros. Há padrões inatos de emoções como tristeza, raiva, alegria e medo, assim como há padrões inatos de ações como buscar, agarrar, trazer, empurrar, esperar, receber e dar (KELEMAN, [1985]1992, [1994]1996, [1996]1996). Estes padrões inatos oferecem as trilhas básicas a serem percorridas pelas marés pulsatórias na formação contínua do organismo.

A partir dos padrões inatos, organizam-se os padrões secundários, um momento intermediário de pré-organização do comportamento, que Keleman denomina como forma somática (KELEMAN, [1975]1996; [1979]1994). Este padrão secundário pode ser moldado e influenciado pelas ocorrências do desenvolvimento, como as experiências vinculares e a educação, assim como também pode ser influenciado volitivamente.

A raiva, por exemplo, pode ser expresso sob a forma explosiva de um grito, com uma voz moderadamente dura ou apenas com um olhar de desaprovação. São diferentes graus da forma somática modulando o padrão da emoção.

Há um intervalo entre a afetação de um encontro e a consequente ação no mundo. Neste intervalo se organizam as formas somáticas, preparando comportamentos e atitudes com suas diversas manifestações cognitivas e afetivas. Neste processo podemos ir além do pré-programado e entrar num campo potencial, mais indeterminado, que permite a modulação e a criação de“respostas do self antes inexistentes” (KELEMAN, [1989]1997, p 13), um processo que já havia sido apontado por Bergson ([1939]1990, [1941]2001).

Impulsionadas pelas marés pulsatórias e pelos padrões inatos, as formas somáticas vão se singularizando em cada organismo humano, se construindo na interação com as forças sociais, com os eventos da existência e vão se refinando com as regulações subjetivas que participam deste processo complexo de construção da vida. As formas (pág 49)  somáticas emergem das experiências do organismo no mundo, como modos de organizar a experiência interna e preparar respostas aos desafios que se apresentam.

O terceiro tempo do comportamento, a ação, emerge deste processo complexo de construção e autodiálogo do organismo em suas interações na vida.

 

 

Padrões de Distresse: Limitações ao Processo Formativo

 

Se por um lado a forma somática pode expressar a pulsação interna, por outro pode restringi-la e determiná-la. Quando as formas se estabilizam, podem moldar e limitar as possibilidades de pulsação e vida emocional. Por exemplo, uma forma somática com o peito cronicamente inflado e duro, cabeça erguida, pernas tensas e abdome contraído pode levar a estados constantes de orgulho e superioridade, ao mesmo tempo que impede a vivência de outros estados afetivos, como experiências suaves e ternas. Como diz Luce (1975, p 16): “Nossa experiência desenvolve estrutura e a nossa estrutura limita a nossa experiência”.

Ao longo da vida as formas somáticas vão se estabilizando por dois processos: por uma estabilização progressiva decorrente da repetição de experiências vinculares e por uma cristalização devido a experiências excessivas ou traumáticas

Toda situação vivida gera excitação e forma. Algumas vezes a excitação ultrapassa o limiar de tolerância, disparando alterações emergenciais das formas somáticas que visam limitar os efeitos devastadores do excessivo (KELEMAN,[1985]1992; SCARPATO, 2001a). Nestas situações, as principais respostas de alteração dos tecidos do corpo são: (1) enrijecer para controlar as próprias reações, (2) densificar para isolar a excitação, (3) inflar para diluir ou vazar a excitação no ambiente, ou (4) colapsar, diminuindo a pulsação.

Em situações normais, o organismo lança mão de alguma destas respostas de proteção frente a um desafio intenso, voltando ao seu estado habitual de pulsação e forma após um certo tempo. Porém, em situações extremas, pode haver uma paralisação do organismo num dos quatro padrões de distresse: rígido, denso, inflado e colapsado (KELEMAN, [1985]1992, [1989]1997).

Os padrões de distresse paralisam o processo formativo, impedindo a criação de novas respostas e comportamentos para lidar com as diferentes situações. Este é o momento de se intervir na clínica, pois “a patologia começa quando há uma incapacidade para desorganizar uma forma” (KELEMAN, [1996]1996, p 122).

(pág 50) 

 

 

 

 O Autogerenciamentoem Cinco Passos

 

O intervalo de tempo entre a pré-organização de um comportamento e o seu ato expressivo permite a percepção do que se sente, a sensação do “ser movido” internamente. Este intervalo permite ativar um processo de autogerenciamento, onde é possível identificar e modular as próprias formas somáticas, participando ativamente da construção da própria existência (KELEMAN, [1987]1995; SCARPATO, 2005).

O sentido de autogerenciamento em Keleman está longe de ser uma proposta de autocontrole, mas em saber dialogar com a experiência interna e com as forças que nos ultrapassam e nos movem, de modo a desenvolver uma capacidade de reconhecer e influenciar estes processos.

Para desenvolver um bom autodiálogo é necessário encontrar uma linguagem que se aproxime da experiência. A proposta kelemaniana é encontrar esta linguagem na qual a experiência se organiza, uma linguagem não analítica, atenta às modulações de pressão, tensão e excitação, próxima da organização somática da experiência subjetiva. Nas palavras de Keleman ([1987]1995, p 37):“o processo do COMO imita nosso modo natural de funcionar. Ao enfatizar padrões internos de apertar, pressionar, relaxar, adquirimos conhecimento sobre excitação, estímulo e sentimentos”.

Agir sobre o processo organizador da experiência implica em agir sobre os padrões de ação e movimento, pois em última instância “o self é uma organização progressiva de contínuas ações musculares chamados padrões motores”(KELEMAN, [1987]1995, p 42). Pela ação modulatória sobre as próprias formas somáticas nos tornamos capazes de reconhecer com mais clareza nossas respostas e influir sobre as nossas experiências subjetivas e nosso comportamento. Como diz Keleman ([1994]1996, p 57), “o cérebro volitivo tem uma influência sobre nossas posturas sociais e nossos padrões instintivos de re-produção. A prática do Como faz uso dessa função inata, que é uma parte essencial do nosso autogerenciamento”.

O pensamento kelemaniano volta-se para o “como” os comportamentos se organizam e não apenas para as suas causas ou finalidades. O processo doComo pode ser diferenciado em cinco etapas, o que leva Keleman a denominar este trabalho de Método dos Cinco Passos (KELEMAN, [1987]1995).

O Método dos Cinco Passos permite o reconhecimento, a desorganização e a reorganização das atitudes somático-emocionais. É um modo de influenciar e transformar a organização somática dos sentimentos, crenças, pensamentos e comportamentos; um método para se trabalhar com as (pág 51)  experiências subjetivas organizadas somaticamente (KELEMAN, [1987]1995, [1989]1997, [1994]1996, [1996]1996, 2005).

Nas palavras de Keleman ([1979]1994, p 40), os Cinco Passos são “um exercício, um auto-treinamento no processo de reconhecer que palavras e imagens estão conectadas a padrões musculares, confirmar que o corpo fala e perceber que a fantasia é uma preparação para a ação”.

 

No Método dos Cinco Passos temos:

Passo 1 – imagem ou situação a ser trabalhada

Passo 2 – discriminação e intensificação da organização somática, o que permite o reconhecimento dos esboços de ação organizados, dos afetos e estados cognitivos. Permite a identificação dos padrões de ação e vínculo.

Passo 3 – desorganização volitiva e gradual da forma somática

Passo 4 – receptividade aos efeitos da desorganização, deixando surgir outros lados da experiência que estavam impedidos pela forma somática, como sentimentos, lembranças, imagens, etc.

Passo 5 – momento das respostas a partir da experiência dos passos anteriores, podendo surgir diferenciações da forma ou a volta aos padrões conhecidos.

 

a) Do Passo Um ao Passo Dois

O Passo Um é o início, a escolha da questão que vai ser trabalhada, de se acessar a história, as lembranças e os afetos relacionados à situação.

Quando a pessoa se imagina numa situação, emergem respostas automáticas em seu corpo, há uma passagem da imagem à organização muscular. Esta transição demanda um direcionamento da atenção para o corpo, para observar a forma somática se organizando. É necessária uma atitude de atenção receptiva, que procura acolher a emergência da forma somática.

Na passagem para o Passo Dois há uma ampliação, da imagem mental à imagem orgânica, à forma somaticamente organizada. As perguntas a se fazer são: Como eu faço isto somaticamente? Como eu me uso para fazer isto?

Na passagem do Passo Um para o Passo Dois há a integração da forma somática com o contexto vivencial. A pessoa não apenas se percebe vivendo uma situação, mas identifica como se organiza somaticamente para lidar com a situação vivida. As formas somáticas são sempre contextualizadas com o ambiente, os vínculos e a história de vida (KELEMAN, [1989]1997, SCARPATO, 2001b).

A partir da discriminação da forma somática, inicia-se um processo mais ativo de intensificação volitiva da organização da forma, um fazer mais o que o corpo já está fazendo. Neste momento podem emergir imagens (pág 52)  mentais, pensamentos, verbalizações internas e sentimentos relacionados à forma somática organizada. Há uma ampliação, da experiência somática aos concomitantes afetivos e cognitivos.

No Passo Dois “começamos a ter uma experiência direta de como organizamos nossa expressão inconsciente” (KELEMAN, [1994]1996, p 57), começamos a perceber como projetamos o passado sobre o presente, em que lugar colocamos os outros e a nossa atitude frente ao mundo.

A percepção discriminada das formas somática permite o reconhecimento dos esboços motores de ação, a dimensão intencional ainda não realizada do comportamento. Como diz Keleman ([1987]1995, p 25), as “contrações musculares são o diálogo que constrói a imagem das intenções”.

 

b) Do Passo Dois ao Passo Três

A intensificação da forma somática no Passo Dois propicia uma discriminação mais apurada de como esta é organizada, um fator importante para se saber como desorganizar a forma no Passo Três.

A sanfona é um instrumento musical que produz sons a partir das diferentes modulações de tensão e pressão interna. A imagem da sanfona é a metáfora escolhida por Keleman ([1987]1995) para se referir ao processo organizador e às possibilidades de influenciá-lo.

Os Passos Dois e Três são a essência da sanfona, o momento de intensificar e desintensificar a forma somática, fazer mais e fazer menos. Estes dois passos “visam dramatizar a experiência do nosso corpo oculto, emocional”(KELEMAN, [1994]1996, p 57).

No terceiro passo, “desorganizamos a postura contraída pouco a pouco, passo a passo. Esse fazer menos não significa ‘soltar’ ou ‘relaxar’. A desorganização é um ato gerenciado, volitivo; é para ser experienciado”(KELEMAN, [1994]1996, p 57).

Desorganizar a forma gradativamente torna possível experimentar os diversos graus da forma, percebendo o continuum da organização do comportamento.

 

c) Do Passo Três ao Passo Quatro

As formas somáticas estabilizadas moldam as possibilidades da experiência, sustentam modos de presença no mundo, com padrões de sentir e perceber a si mesmo e ao mundo. Desorganizar a forma é abrir-se a novas experiências, abrir as portas para novas associações, lembranças, sensações e sentimentos que estavam limitados pelos padrões de organização anteriores.

O quarto passo é o momento de recepção, de acolher os efeitos da desorganização dos padrões de ação, uma situação em que tempo e espaço (pág 53) estão dilatados, em que a ação cede terreno à receptividade, em que “o inconsciente torna-se mais consciente” (KELEMAN, [1987]1995, p 62).

No Passo Quatro “você está entre o que acabou e o que ainda não chegou, num espaço fecundo” (KELEMAN, [1987]1995, p 29).

O Quarto Passo é também o momento de incubação, em que podem brotar imagens de caminhos futuros, sonhos e possibilidades.

 

d) Do Passo Quatro ao Passo Cinco

Do estado de abertura do quarto passo, chega a hora de retornar ao mundo, o momento do quinto passo.

Na passagem do Passo Quatro para o Passo Cinco, “sentimentos e sensações internas predominam, as cenas e os símbolos se reduzem, e insights e imagens confluem como padrões de ação motora. Esse hiato organiza novas respostas às situações” (KELEMAN, [1987]1995, p 29).

No Quinto Passo pode-se organizar uma nova forma com diferenciações em relação às formas e padrões anteriores, ou pode-se retornar ao padrão anterior conhecido.

A seqüência toda dos Cinco Passos precisa ser praticada e repetida, para se aprofundar a experiência e permitir a desconstrução e reconstrução somática dos modos de presença no mundo.

 

 

 Funções e Aplicações do Método dos Cinco Passos

 

 

O Método dos Cinco Passos permite “conectar padrões musculares a estados emocionais, a imagens e a pensamentos que os acompanham”(KELEMAN, [1989]1997, p 66). O Método permite realizar uma integração entre as experiências cognitivas, afetivas, cinestésicas e proprioceptivas, unindo as diferentes camadas do organismo.

Nos Cinco Passos “desenvolvemos a habilidade de afetar o que fizemos inconscientemente” ativando um “diálogo interno entre corpo inconsciente e corpo consciente” (KELEMAN, [1994]1996, p 57)

.

“Pensamos em memória como uma coleção de imagens, situações e emoções, uma espécie de holograma do evento. Para produzir esta experiência holográfica evocamos um padrão muscular antigo, juntamente com suas associações emocionais. Ao re-experimentar esses padrões e associações, produzimos imagens internas para representar o evento. Esta ação de evocar é memória motora” (KELEMAN, [1987]1995, p 42)

.

No manejo dos Cinco Passos trabalhamos com a história vivida somaticamente, com todos os acontecimentos, padrões de distresse, padrões de ação e vinculação. Trabalhar com as formas somáticas é (pág 54)  trabalhar com as memórias motoras do vivido. Ao reorganizarmos as formas somáticas, abrimos possibilidades de criação e diferenciação para a continuidade do processo formativo.

O Método dos Cinco Passos traz uma contribuição importante para a área da Psicologia ao propor um caminho de transformação que vai além da catarse e do insight. Nem sempre há uma reorganização para um estado melhor após uma catarse; do mesmo modo, o insight pode ser insuficiente para produzir mudanças, por não permitir um aprendizado sobre a própria organização do comportamento (KELEMAN, [1987]1995). O Método dos Cinco Passos permite reconhecer a organização somática dos padrões de comportamento, desorganizar seus limites, acessar aspectos profundos da experiência subjetiva, acompanhar as formas emergentes e repeti-las ativamente para a criação de novos padrões.

O Método dos Cinco Passos constitui, ao mesmo tempo, um método de investigação e um método de transformação. Suas aplicações podem ser múltiplas, podendo ser utilizado em psicoterapia, em supervisão, em pesquisa e como um instrumento de autogerenciamento ao longo da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

 

Bergson, Henri (1939/1990) Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes

____________ (1941/2001) A Evolução Criadora, Lisboa, Edições 70

Bull, Nina (1962). The Body and Its Mind. New York, Las Americas

_________ (1968). The Attitude Theory of Emotion. New York, Johnson Corp.

Keleman, Stanley ([1975] 1996). O corpo diz a sua mente, São Paulo, Summus

___________ ([1979]1994). Realidade Somática, São Paulo, Summus

___________ ([1985]1992). Anatomia Emocional, São Paulo, Summus

___________ ([1987]1995). Corporificando a experiência, São Paulo, Summus

___________ ([1989]1997). Padrões de Distresse, São Paulo, Summus

___________ ([1994]1996). Amor, in: Keleman, S. (1996) Amor e Vínculos, São Paulo, Summus.

__________ ([1996]1996). Vínculos, in: Keleman, S. (1996) Amor e Vínculos, São Paulo, Summus.

__________ ([1999]2001). Mito e Corpo, São Paulo, Summus

__________ (2005). The Formative Method: How We Voluntarily Influence Being Present in the World. Disponível em:http://www.centerpress.com/html/theformativemethod.html Acesso em 20/01/2005.

(pág 55)Luce, Gay (1975). Introduction. In: Keleman, S. (1975). The Human Ground. Center Press, Berkeley, revised edition, p 9-16

Scarpato, Artur (2001a). O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa Perspectiva Formativa, Revista Reichiana, São Paulo, n 10, p. 50-66.

_________ (2001b) Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico, Revista Hermes, São Paulo, n 6, p. 107-123.

__________ (2005). Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman, Revista Psicologia Brasil, ano 3, n 27, p 30-31.

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Última atualização: 06/09/2016

Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico

Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico

Artigo publicado pela Revista Hermes do
Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, número 6, 2001, p 107-123.

Artur Thiago Scarpato

Na terapia nos movemos entre sensações, emoções, posturas, palavras, imagens, etc. Neste campo compomos cartografias junto com o cliente, tentativas de dar voz aos afetos, dar novas formas ao mundo, falar dos temores secretos, dos desejos, das dores profundas, de explorar caminhos….

Criamos na terapia um espaço de intimidade, intimidade não no sentido de contato com o conhecido, familiar, mas um espaço singular de abertura protegida pelo vínculo, onde podemos deixar vir o desconhecido em nós, o estranho, o novo.

O vínculo propicia um ambiente favorável para enfrentar as muitas adversidades, para suportar níveis altos de angústia e falta de sentido. O vínculo é um dos elementos básicos do processo terapêutico.

O vínculo terapêutico é também um campo de experimentação de modos novos de vinculação, de diferenciações em relação aos padrões conhecidos e de confrontação com os modos habituais.

Cartografar o território clínico nos permite encontrar algumas coordenadas para navegar com mais segurança em direção a processos mais consistentes de vida. A função deste texto é explorar este território a partir da influência do pensamento formativo de Stanley Keleman. Problematizar alguns aspectos da dinâmica somática do vínculo terapêutico, notadamente a instrumentalização das formas somáticas do terapeuta como recurso clínico.

(início da pág 108)

IDENTIFICAÇÃO, COMPLEMENTARIDADE E ALTERIDADE

Podemos observar quatro modos de percepção dos afetos da relação terapêutica que indicam os diferentes lugares ocupados pelos membros neste espaço dinâmico. 

Vamos falar mais especificamente destes lugares a partir da perspectiva do terapeuta.

1 –  Eu sou o outro:

Os sentimentos do cliente  podem ser percebidos pelo terapeuta em si mesmo, num fenômeno de identificação. 

Uma forma de compreender o cliente é saber se colocar em seu lugar. Sair de nossa posição de outro e compartilhar o olhar, ir junto. Buscar sentir o que o cliente sente, pensar o que ele pensa, desejar e temer como ele. Assim, antes que ele fale algo, você já sentiu, numa identificação de formas somáticas e experiências. Sentir o que o cliente sente nos permitir compartilhar a sua dor e compreender o seu mundo. Muitas vezes já estamos nesta sintonia e só então nos percebemos nela a partir da dinâmica vincular. Em outros momentos podemos imitar o cliente, buscando nos aproximar de sua vivência, repetindo voluntariamente posturas e formas somáticas, num modo ativo e rico de colocar-se em seu lugar e compreender o seu mundo.

O cliente pode também fazer o terapeuta se sentir como ele. Assim, por exemplo, um cliente está falando de situações onde se sentiu sem espaço, invadido, e ao mesmo tempo fala ininterruptamente, não deixando muito espaço para o terapeuta intervir, limitando o espaço do terapeuta na sessão. O cliente faz, de algum modo, com que o terapeuta se sinta sem espaço na sessão, invadido, como ele se sente.

2 –  Eu para o outro:

O terapeuta pode ocupar um lugar de complementaridade aos afetos (pág 109) do cliente, ocupando um lugar em sua dinâmica (do cliente).

Podemos perceber o modo do cliente em relação a nós e observar a nossa tendência de resposta de complementar o seu funcionamento.

Esta é uma experiência de complementaridade, matriz de aspectos importantes da dinâmica transferencial e que será mais desenvolvido adiante no texto.

3 –  O outro para mim:

O terapeuta pode perceber o que a situação despertou em si de conteúdos pessoais (do terapeuta), com o cliente ocupando um lugar na dinâmica do terapeuta. 

O cliente pode ser o nosso outro. Podemos nos perceber paralisados, por exemplo, e explorando isto vemos o cliente ocupando um lugar em nosso teatro de dores pessoais. Explorando as nossas reações, nossos esboços de respostas  frente a ele, podemos aprender sobre nós mesmos. E podemos compreender o cliente a partir da nossa dor, o que pode nos permitir estar com ele de um outro modo. É a contraparte da complementaridade, agora a partir do processo formativo do terapeuta. 

4 –  Eu e o outro:

O cliente é vivido como o outro, dois mundos diferentes.

Percebendo o cliente “de fora” podemos apreender este “outro singular” por observações, descrições, um olhar mais diferenciado sobre a pessoa à nossa frente. Na experiência da alteridade nos aproximamos do limite de apreensão do que é um definitivamente outro. Neste momento podem surgir experiências de estranhamento, susto, distância, respeito e o início de um diálogo sujeito a sujeito, não mais sujeito – objeto.

Há assim um trânsito onde o terapeuta pode se sentir sendo o próprio cliente, sentir-se e ser o outro do cliente na relação, sentir que o cliente seja o outro de si ou ainda viver a experiência da alteridade.  

(pág 110) O vínculo terapêutico ocorre dentro de um continuum que vai da identificação à alteridade.

Transitamos entre estes diferentes lugares na terapia: sentir junto, ocupar lugares complementares, diferenciar-se destes lugares, viver a alteridade. Qualquer uma destas posições esclarece elementos importantes do vínculo terapêutico. A sua discriminação e operacionalização é um dos recursos preciosos da terapia. 

Em cada um destes modos de relação estamos envolvidos e organizados somaticamente de um modo diferente, o que implica em níveis diferentes de vínculo e diferentes qualidades de presença. 

O CORPO A CORPO DO VÍNCULO

A relação terapêutica é uma interação corpo a corpo. No sentido de que o cliente organiza um corpo frente ao terapeuta e este por sua vez responde com outro corpo.

As posturas, tensões e modulações das formas somáticas explicitam a distribuição da excitação emocional nos corpos que estão em relação naquele momento, naquele campo de afetos. Há um diálogo somático anterior ao diálogo verbal. 

Um corpo ativa algo em outro corpo, um corpo convoca o outro corpo a interagir de um determinado modo, e este por sua vez responde a partir da sua realidade somática, das suas camadas somáticas mais ativas, seu repertório de formas, suas experiências.

Os corpos dialogam numa linguagem que lhes é própria, uma linguagem de formas somáticas, camadas embriológicas, tônus de tecidos, toda uma fisicalidade básica e constitutiva da vida afetiva.

Numa determinada situação, por exemplo, o terapeuta pode sentir seu corpo se arredondando, seus braços se ampliando como se fossem pegar o cliente no colo, e observa neste momento que o cliente está organizado numa forma somática onde se faz pequeno, evocando no (pág 111) terapeuta esta forma cuidadora. Em outra situação, por exemplo, o terapeuta sente seu corpo contraído, diminuído, inseguro e percebe que esta sensação advém de uma atitude do cliente, que está com seu corpo inflado e com olhar e atitude de intimidação.

As formas somáticas e a excitação emocional do terapeuta explicitam o seu lugar no campo da relação, os modos de relação daquele cliente com o mundo e daquele terapeuta com aquele cliente.

Esta experiência se torna bastante acessível quando o terapeuta experimenta o recurso de posturar volitivamente os efeitos do encontro sobre si, dando mais nitidez às afetações e às atitudes organizadas no vínculo.

Com este recurso é possível acompanhar o diálogo infraverbal das formas somáticas, ajudando a explicitar os afetos, a dinâmica, a criar um mapa do território que permite voltar a ele, orientar-se e influenciar os processos. 

Assim, trazemos para o plano visível, consciente, o que se passa num plano de sensações, afetos, fluxos e nuances.
Neste campo, o terapeuta usa seu próprio corpo como referencial de orientação em relação ao que ocorre na terapia e na relação com o cliente. O corpo do terapeuta pode ser visto como um dos palcos onde se desenvolve a sessão.

Daí a importância fundamental de uma boa discriminação do próprio corpo – sensações, propriocepções, afetos – para o terapeuta navegar bem no universo da sessão.

O CORPO A CORPO DO VÍNCULO

A relação terapêutica é uma interação corpo a corpo. No sentido de que o cliente organiza um corpo frente ao terapeuta e este por sua vez responde com outro corpo.

As posturas, tensões e modulações das formas somáticas explicitam a distribuição da excitação emocional nos corpos que estão em relação naquele momento, naquele campo de afetos. Há um diálogo somático anterior ao diálogo verbal. 

Um corpo ativa algo em outro corpo, um corpo convoca o outro corpo a interagir de um determinado modo, e este por sua vez responde a partir da sua realidade somática, das suas camadas somáticas mais ativas, seu repertório de formas, suas experiências.

Os corpos dialogam numa linguagem que lhes é própria, uma linguagem de formas somáticas, camadas embriológicas, tônus de tecidos, toda uma fisicalidade básica e constitutiva da vida afetiva.

Numa determinada situação, por exemplo, o terapeuta pode sentir seu corpo se arredondando, seus braços se ampliando como se fossem pegar o cliente no colo, e observa neste momento que o cliente está organizado numa forma somática onde se faz pequeno, evocando no (pág 111) terapeuta esta forma cuidadora. Em outra situação, por exemplo, o terapeuta sente seu corpo contraído, diminuído, inseguro e percebe que esta sensação advém de uma atitude do cliente, que está com seu corpo inflado e com olhar e atitude de intimidação.

As formas somáticas e a excitação emocional do terapeuta explicitam o seu lugar no campo da relação, os modos de relação daquele cliente com o mundo e daquele terapeuta com aquele cliente.

Esta experiência se torna bastante acessível quando o terapeuta experimenta o recurso de posturar volitivamente os efeitos do encontro sobre si, dando mais nitidez às afetações e às atitudes organizadas no vínculo.

Com este recurso é possível acompanhar o diálogo infraverbal das formas somáticas, ajudando a explicitar os afetos, a dinâmica, a criar um mapa do território que permite voltar a ele, orientar-se e influenciar os processos. 

Assim, trazemos para o plano visível, consciente, o que se passa num plano de sensações, afetos, fluxos e nuances.
Neste campo, o terapeuta usa seu próprio corpo como referencial de orientação em relação ao que ocorre na terapia e na relação com o cliente. O corpo do terapeuta pode ser visto como um dos palcos onde se desenvolve a sessão.

Daí a importância fundamental de uma boa discriminação do próprio corpo – sensações, propriocepções, afetos – para o terapeuta navegar bem no universo da sessão.

O terapeuta é um intérprete de si mesmo, dos efeitos daquele encontro em sua subjetividade corporificada.

Quanto maior a capacidade do terapeuta em se permitir ser perpassado por fluxos afetivos na relação terapêutica, maiores as possibilidades de desdobramentos do universo existencial dos clientes na terapia.

(pág 112) Há uma certa dança, um diálogo de corpos durante a sessão terapêutica e podemos pensar como podemos acompanhar esta dança, aprender esta linguagem dançante, interativa e formativa e poder instrumentalizar esta dimensão do vínculo como um recurso para a clínica.

TRANSFERÊNCIA, PASSADO E FUTURO

Transferência e contratransferência são fenômenos do vínculo que fazem um grande sentido a partir do diálogo das formas somáticas. 

A transferência é uma experiência de complementaridade na relação terapêutica. É um fenômeno de vinculação onde o modo de ser de alguém chama o co-participante a ocupar um lugar complementar numa certa dinâmica.

Há um campo emocional criando os lugares a partir do encontro. 
 Assim, por exemplo, um cliente pode evocar um pai no terapeuta. Os comportamentos, modo de falar e se mover do cliente evocam no corpo do terapeuta um modo paternal. O terapeuta começa a se perceber com sentimentos e esboços motores de atitudes paternais.

Por um lado, isto poderia dizer do passado daquele cliente, da reativação de sua relação com o seu pai. A transferência, neste sentido, poderia ser pensada como uma transposição de processos relacionais passados, uma transferência de tempo e lugar dos personagens de um drama.

Porém, mais do que isto, a transferência contém a história presentificada, ela é a reativação recorrente de modos e formas somáticas que se construíram a partir da relação com um pai. 
Mais do que chamar o pai, o que se ativa é a memória somática de um modo de existência, ou seja, uma forma somática. 

Esta forma somática, este modo de existência, se criou a partir das experiências com um pai, determinando um modo de ser com uma certa configuração somática. No vínculo com o terapeuta aparece a história (pág 113) que se presentifica nas formas somáticas.

O que se repete é uma dinâmica vincular, um modo de existência, um repertório determinado de formas somáticas, muitas vezes fixados e  paralisados pelas experiência que a pessoa não pôde assimilar em sua vida. Estas formas somáticas cristalizadas interrompem o processo formativo e levam uma pessoa a responder às situações diversas com um repertório limitado de comportamentos, com modos reiterantes de sentir, pensar, perceber e agir.

A repetição destes modos somático-existenciais na terapia, por outro lado, abre a possibilidade de confronto, consciência e diferenciações dentro do processo de vida. Permite a desorganização de comportamentos limitantes e a emergência de novas formas somáticas a partir do vínculo terapêutico. Uma oportunidade de sair de um labirinto armado no passado, que paralisa o andamento do futuro.

AS VERTENTES DE FUTURO

O vínculo contém também uma função formativa, de gestação de novos territórios existenciais.

Um cliente, por exemplo, suscita no terapeuta coisas próximas do lugar de um irmão mais velho, mais formado, que possa ajudá-lo a entrar na vida adulta com mais recursos.

Cabe ao terapeuta poder ocupar este lugar neste campo de gestação de um modo de existência, permitindo a passagem de um momento ao outro do processo formativo do cliente, assim como cabe, ir desocupando este lugar em outro momento, quando este modo já não favorece mais o processo do cliente.

No vínculo terapêutico o terapeuta vai ocupar diferentes lugares para o cliente, de acordo com o que esteja em  evidência no processo formativo do cliente naquele momento.

A partir da percepção dos afetos, atitudes e lugares da relação, o (pág 114)terapeuta pode reconhecer os tipos de vínculo que o cliente estabelece, o que ele formativamente está precisando. 

O vínculo tem assim uma função formativa, de ajudar na desconstrução de formas desatualizadas e na construção de formas corporais contemporâneas.

No processo vincular há uma necessidade daquele lugar do outro, daquele funcionamento do outro para que o processo do cliente possa ser gestado e maturar. Acompanhar ao longo da terapia o processo vincular fornece uma referência importante das várias fases do processo terapêutico e do processo de vida do cliente.

O vínculo terapêutico é um laboratório onde novas formas podem emergir, diferenciações dos padrões habituais de comportamento, um lugar de experimentação e maturação vincular.

O vínculo, portanto, pode tanto apresentar uma reedição de uma dinâmica relacional cristalizada quanto criar uma dinâmica necessária naquele momento da vida da pessoa. O vínculo é assim tanto uma derivação do passado quanto uma vertente de futuro. Este processo é movido pelo impulso formativo, a força de criação de novas formas em direção à atualização do passado e à composição do futuro.

O CAMPO GESTATIVO VINCULAR

Trabalhando com o cliente, podemos ir aprendendo sobre o seu funcionamento, seu modo de ser habitual e o quanto isto restringe a sua vida. Observamos suas modalidades de relacionamento com o mundo, seu lugar na teia de relações pessoais, seus modos de dar e receber, mandar e obedecer, pedir e tomar, agir e esperar, etc. Podemos ajudar a esclarecer estes modos e estar juntos para ampliar os seus limites e criar novos caminhos de vida.

É necessário discriminar as sutilezas do vínculo, as variações que permitem identificar que um cliente está buscando aceitação, outro (pág 115) orientação, outro confronto e outro ainda, testando confiança. A cada momento do vínculo há questões diferentes sendo maturadas.

O terapeuta ocupa um lugar no mundo do cliente e este ocupa um lugar no mundo do terapeuta. Há um encontro do processo formativo do cliente com o processo formativo do terapeuta, criando um processo formativo daquele vínculo, numa inter-relação naquele espaço clínico.

Um elemento singular do espaço terapêutico é que o terapeuta está lá para favorecer o processo formativo do cliente, para instrumentalizar o vínculo como recurso de compreensão e intervenção na terapia.

A RESPOSTA TERAPÊUTICA

Muitas vezes um cliente não percebe os tipos de vínculo que estabelece e que contribuem, por exemplo, para que várias coisas em sua vida acabem dando errado.

Por exemplo, uma cliente veio para primeira entrevista contando histórias de rejeição, de não ser aceita pela família, de ser abandonada pelos amigos, etc. Ao longo da entrevista, ela foi provocando uma sensação muito ruim ao terapeuta, fazendo com que este sentisse vontade de mandá-la embora. Aquela pessoa estava repetindo com o terapeuta, já na primeira entrevista, uma dinâmica que ela repetiu muitas vezes em sua vida e da qual não conseguiu se diferenciar. Ela estava levando o terapeuta a querer rejeitá-la também. Caso o terapeuta fosse apenas re-agir ao seu sentimento, a teria mandado embora, dando qualquer desculpa de que não poderia atendê-la e repetindo o que acontecia no cotidiano daquela mulher. Ela sairia do consultório com as suas crenças confirmadas, seu sofrimento aumentado, seu comportamento reeditado. 

Porém o terapeuta não está na situação numa posição ingênua, apenas interagindo com o cliente, mas numa posição de observação e explicitação do que está acontecendo, atento aos fenômenos em si próprio e no cliente, neste campo que vai se formando. 

(pág 116) Percebendo em seu corpo as tendências à ação, porém retardando a re-ação automática, o terapeuta pode discriminar o que o move e o que sente e assim esclarecer o funcionamento daquele cliente: em que posição o coloca, se coloca, que afetos circulam, etc.

O que caracteriza a resposta terapêutica é a capacidade do terapeuta em  conter a sua reação, discriminar o que sente e eventualmente apontar para o cliente a sua atitude.

Devolver para o cliente a percepção sobre a dinâmica do vínculo, como no caso desta mulher, abriria uma porta para ela perceber seus modos frente ao mundo, iniciar diferenciações frente ao seu próprio funcionamento, trazendo de volta para si o que ela só via projetado nos outros, etc.

Quando um cliente pode discriminar como vê o terapeuta, que lugar este está ocupando naquele momento para o cliente, ele está abrindo um espaço para aprofundar a auto-percepção e dialogar com suas formas, percepções e afetos. 

O auto-diálogo é um dos elementos centrais do processo terapêutico formativo, onde a pessoa vai se tornando capaz de identificar as próprias formas somáticas e suas relações com a sua experiência subjetiva. A partir daí ela pode aprender modos de interagir consigo mesma e influenciar os seus processos internos, trabalhando com as próprias formas, dando início a um processo de participação ativa na construção de sua existência.

COMUNICAÇÃO DE CAMPO

Algumas vezes na terapia corre-se o risco do cliente ser atravessado por um excesso de excitação e insights que não são produtivos porque ultrapassam a capacidade elaborativa da pessoa naquele momento.

Por exemplo, em certa sessão em que caminhavam em terreno novo na terapia, o terapeuta sentiu uma certa pressão que forçava as suas costas contra a sua poltrona, na altura do diafragma. Acentuando voluntariamente (pág 117) esta pressão, percebeu organizando-se nele uma forma somática de contenção que enrijecia as suas costas e lhe dizia algo como: “pare aí, não vá mais, deixe ele elaborar o que já tem, vá devagar.” Enfim, estava sendo dito ao terapeuta o limite da capacidade de assimilação daquele cliente naquela sessão, o que pôde ser confirmado ao devolver ao cliente algumas observações sobre como estava vivendo aquele momento. 

Este é um exemplo de comunicação de campo, onde o terapeuta e o cliente trocam mensagens não verbais que atingem um ao outro em sua corporeidade e se afetam mutuamente.

Em muitos momentos na terapia não é possível falar em “minhas sensações”, mas apenas de “sensações em mim”. Os afetos, sensações e modulações da forma são elementos do campo, do entre, e só é possível entendê-los a partir daquele campo formativo e seus processos. 

O campo da relação terapêutica é extremamente rico de afetos e sentidos, de elementos visíveis e invisíveis. A relação terapêutica é atravessada por afetos de diversas ordens, o que faz do espaço terapêutico, o espaço do sentir por natureza. O acolhimento do sentir é uma das marcas maiores deste espaço, onde podemos receber em nós mesmos as sensações e sentimentos mais obscuros, sutis, indiretos e aceitar a vida em nós e em relação a nós. 

Espaço do sentir ilimitado mas do agir cuidadoso. Esta singularidade permite uma grande exploração de muitas vertentes do existir lideradas por um compromisso ético de ajuda.

Os afetos e sensações vividos pelo terapeuta na sessão podem ser grandes orientadores sobre a dinâmica do cliente. Assim, se um terapeuta está se sentindo desconfortável na sessão, ausente, com sono, etc., deve perceber o que aquela reação diz daquele cliente naquele momento da sessão e de sua terapia, ao invés de logo pensar que a questão é sua, pessoal do terapeuta, que não dormiu direito, comeu algo que não lhe fez bem, etc. Não que estes fatos não participem da sessão, determinando em parte a qualidade de presença do terapeuta, mas focar logo sobre (pág 118) estes eventos externos à sessão pode desviar o terapeuta de algo muito importante que está se desenrolando naquele momento. 

Numa determinada sessão, por exemplo, um cliente falava de sua inquietação pelo “momento agitado” que vivia em seu trabalho. Seu modo de falar, no entanto, não expressava muito de agitação, aliás, era de um tom mais contido do que agitado. Ao longo da sessão, o terapeuta foi sentindo um certo cansaço. Para o terapeuta, este cansaço começou a representar idéias como: “estou cansado de ter atendido muito ao longo deste dia, estou trabalhando muito, etc.”. O terapeuta estava vendo neste cansaço algo em si próprio e isto o deixava mais distante do cliente, um pouco ausente da sessão e tomado pelo “seu” cansaço. Até que o terapeuta ponderou se este cansaço também teria algo a ver com aquele cliente. Ao sugerir ao cliente algo relacionado a cansaço, este começou a falar de desânimo, e veio à tona uma situação de depressão que já tinha alguns anos e que não tinha surgido ainda naquele início de terapia. Essa depressão mascarada mostrou-se depois como uma das questões centrais da terapia daquele cliente. Assim, mesmo sensações do terapeuta que podem parecer simples, como uma cansaço, precisam ser observadas em suas possíveis relações com o estado do cliente e do vínculo deste com o terapeuta. 

AS FORMAS SOMÁTICAS SÃO TERRITÓRIOS EXISTENCIAIS

Podemos apreender a dinâmica da sessão estando atentos aos efeitos em nosso corpo daquilo que está ocorrendo.

Segundo Nina Bull, toda ação é precedida por uma pré-organização motora preparatória. Esta pré-organização, que Keleman denomina de forma somática, permite os arranjos somáticos necessários para a construção de todo comportamento.

As formas somáticas organizam a presença, a resposta às afetações e as ações subsequentes. Por exemplo, quando o terapeuta tem a forma de (pág 119) seu corpo se arredondando frente a presença do cliente, organizando em seu corpo uma atitude acolhedora, esta forma estaria preparando um comportamento de acolhimento, com suas respectivas falas, gestos, sentimentos, assim como determinando a sua percepção sobre aquele cliente. 

Porém, se o terapeuta retarda esta reação automática de acolhimento, observando em seu corpo os estados produzidos pela forma, pode discriminar as atitudes organizadas, os afetos presentes e compreender a dinâmica do vínculo, antes de agir e falar. Assim ele desautomatiza o processo para operacionalizá-lo terapeuticamente.

As formas somáticas ocorrem antes da percepção consciente, pois primeiro respondemos internamente e então nos damos conta destes efeitos se processando em nós. 

Quando uma forma somática não se realiza imediatamente em ação, possibilita a emergência da auto-percepção mais discriminada. Daí a importância de se inibir e retardar voluntariamente a ação para clarear os afetos e os sentidos da experiência.

As formas somáticas são organizações motoras que criam os “modos de lidar” com os acontecimentos, são territórios existenciais organizados somaticamente. As formas somáticas são a própria construção dos territórios existenciais.

Algumas formas somáticas vão se estabilizando com o passar do tempo, criando alguns padrões motores que expressam os “modos de ser” mais característicos de cada um. Estas “formas duradouras” também nascem, fenecem e se transformam para dar conta de experiências em diferentes fases de vida. 

Os territórios existenciais tem linhas de tempo próprias, no sentido de que há formas mais duradouras e formas mais efêmeras. As formas somáticas se complexificam e se diferenciam a partir dos desafios dos encontros.

(pág 120) Certas formas somáticas podem se paralisar e perpetuar pela experiência do excessivo.  As experiências excessivas ultrapassam a capacidade “de lidar” de um território existencial e levam à cristalização de formas somáticas, criando modos mais estereotipados de comportamento, produzindo estagnações no processo formativo de criação contínua de formas somáticas.

Estes estados de paralisia são os estados recorrentes na clínica em busca de recuperar o processo formativo de diferenciação, desterritorialização e reterritorialização contínuos e necessários.

O olhar para o processo formativo explicita quais formas somáticas estão se criando neste momento da vida do cliente, quais formas não dão mais conta dos acontecimentos, que conflitos de formas e estratégias de vida estão presentes e quais experiências excessivas paralisaram o processo de vida e estão impedindo a criação de novas formas e respostas frente às novas situações.

DESAFIOS FORMATIVOS AO TERAPEUTA

Cada terapeuta vive a situação de atendimento a partir de sua realidade formativa, do seu repertório de formas somáticas, dos seus modos de lidar com as situações e vínculos. Um terapeuta vai sempre encontrar alguns modos mais característicos do seu jeito de estar com seus clientes, sempre haverá aquelas atitudes mais “naturais” para aquele terapeuta, a partir de seu corpo, suas formas e sua história. 

Cartografar seus modos de clinicar, suas posturas corporais que se repetem nas sessões, pode ser um recurso valioso para um terapeuta acompanhar e poder influir em seus corpos de terapeuta.

Na relação com o cliente, o terapeuta também cresce. O terapeuta é solicitado a se deixar ser afetado pelo cliente, para poder levá-lo por caminhos novos, ajudá-lo a crescer, a aceitar novas afetações e buscar novas experiências. 

(pág 121) Lidar com estas experiências do cliente traz também desafios à forma do terapeuta. Ele precisa caminhar para que o cliente caminhe. Por isto alguns processos terapêuticos paralisam num ponto em que o terapeuta também paralisou.

O corpo do terapeuta se coloca na terapia com suas preferências, seus modos dominantes, seus limites de tolerância, seu momento formativo.

Assim um terapeuta de algum modo também escolhe seus clientes. Isto vai poder explicar por exemplo, porque um terapeuta em diferentes momentos de sua clínica se dá conta que tem um número X de clientes com uma mesma temática tal e alguns anos depois, por exemplo, tem um número Y de clientes com outra temática predominante. Estas são temáticas do processo pessoal do terapeuta, vividas e elaboradas no processo clínico com os seus clientes. O terapeuta também chama clientes com tal e tal perfil. São estes clientes que são mandados pelo “acaso”. Entre outras questões envolvidas, são estes clientes que ficam a partir das entrevistas iniciais. A terapia é um desafio também ao processo formativo do terapeuta.

CONCLUSÃO

Atender em psicoterapia é encontrar um modo de estar ao lado do cliente, buscar uma compreensão de seu universo, esclarecer o seu mundo, as suas dificuldades, reconhecer com ele os modos habituais, as estratégias conhecidas, cartografar o processo formativo, o que não dá mais conta dos acontecimentos, o que está em vias de surgir, as transições em andamento e ajudá-lo a buscar novos modos de viver, criando novas experiências, gerenciando formas, matrizes de novos comportamentos.

As formas somáticas são relacionais. A forma de cada um vai construindo o outro e neste processo vai surgindo um diálogo de formas somáticas. Trabalhamos discriminando e atuando sobre estes processos. 

Toda forma somática é vincular, toda forma somática pressupõe um outro complementar. Sendo assim, querendo ou não, percebendo ou (pág 122) não, o terapeuta é sempre chamado a uma presença somática em relação às formas do cliente. 

Atentar para os efeitos da presença somática do cliente em seu corpo, permite ao terapeuta, entre outras coisas:

– Reconhecer o sentido da experiência interna do cliente pelo efeito deste na organização somática do terapeuta.

– Reconhecer o tipo de vínculo que está se estabelecendo naquele momento do processo terapêutico e o sentido formativo deste vínculo.

O terapeuta aprende a conter os afetos da relação para devolver de forma mais organizada para o cliente. 

Este é um processo de instrumentalização da relação terapêutica. 

A relação terapêutica é uma interação de afetação contínua, onde cliente e terapeuta estão se afetando mutuamente. O terapeuta pode reconhecer os efeitos deste campo de afetação em seu corpo e assim cartografar os processos em andamento e operacionalizar o que percebe dentro do processo formativo e clínico no espaço privilegiado da terapia. 

A terapia é uma incubadora de processos formativos.

BIBLIOGRAFIA:

  • Bull, Nina, The Attitude Theory of Emotion, Johnson Corp., New York, 1968
  • Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992
  • Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995
  • Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996 (p. 123)
  • (pág 123)Keleman, S. Mito e Corpo, Summus, São Paulo, 2001
  • Rolnik, Suely, Cartografia Sentimental, Estação Liberdade, São Paulo, 1989

Notas:

 

* Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte. (p.___) Os parênteses marcam o início da página na publicação impressa, para fins de citação.

 

Modo de citação sugerido: 
Scarpato, Artur. Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico, Revista Hermes, São Paulo, número 6, 2001, p. 107-123.

 

 

* * Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: em Psicologia da Reabilitação pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. É autor de diversos artigos na área.

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Última atualização: 06/09/2016

O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa

O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa *

Artigo publicado na Revista Reichiana do
Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, número 10, 2001, p. 50-66.

Artur Thiago Scarpato**

Na década de 1960, várias pesquisas científicas começaram a diferenciar inesperados ataques de ansiedade de outras manifestações de ansiedade. A classificação diagnóstica oficial de Síndrome do Pânico ocorreu em 1980, com a publicação, pela Associação Americana de Psiquiatria, do DSM III (Diagnostic and Statistical of Mental Disorders, 3rd Edition). Em 1987, o DSM III – R, versão revisada do manual, delimitou os critérios válidos até hoje. 

Segundo a classificação do DSM, a Síndrome do Pânico pertence à classe dos Transtornos de Ansiedade, junto com as Fobias, o Estresse Pós-Traumático, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo e o Distúrbio de Ansiedade Generalizada. 

Apesar da classificação razoavelmente recente, encontramos na história descrições semelhantes à do Pânico, embora não existisse ainda a categoria diagnóstica Síndrome do Pânico. A reação de pânico pode não ser nova, mas é nova a sua classificação científica como Síndrome do Pânico ou Transtorno do Pânico, assim como há atualmente tentativas sistemáticas de compreensão do fenômeno.

DEFINIÇÃO E SINTOMAS

A Síndrome do Pânico caracteriza-se pela ocorrência de ataques de pânico inesperados e recorrentes.

Os ataques de pânico, ou crises, consistem em períodos de intensa ansiedade e são acompanhados de alguns sintomas específicos. Os mais comuns são taquicardia, sensação de falta de ar, dificuldade de respirar, formigamentos, vertigem, tontura, dor ou desconforto no peito, despersonalização, sensação de irrealidade, medo de perder o controle, medo de enlouquecer, sudorese, tremores, medo de desmaiar, sensação de iminência da morte, náusea ou desconforto abdominal, calafrios ou ondas de calor, boca seca e perda do foco visual.

Nem todos esses sintomas podem estar presentes nas crises, mas alguns sempre estarão. Há crises mais completas e outras menores, com poucas manifestações. Os sintomas começam de súbito e se acentuam rapidamente, muitas vezes acompanhados por uma sensação de catástrofe ou de morte iminente e por uma ânsia de escapar da situação. A freqüência dos ataques varia de pessoa para pessoa. 

Enquanto, nas Fobias, a pessoa teme uma situação ou um objeto específico, fora dela, no Pânico, ela teme o que ocorre no próprio corpo. Podemos considerar os casos de Pânico como fobias nas quais o que assusta são as reações do próprio corpo; é para essas reações que se volta a atenção, como deflagradoras das crises de Pânico.

O Pânico é um Transtorno de Ansiedade; isso significa que os sintomas têm como carro-chefe a ansiedade – um estado emocional de apreensão, uma expectativa de que algo ruim aconteça, um medo sem objeto definido. 

A crise de Pânico é uma experiência de pico máximo de ansiedade levada ao extremo. O pânico é o ultimo grau do continuum crescente atenção-ansiedade-pânico.

Ansiedade antecipatória

A expectativa constante de ter uma nova crise é uma das características da Síndrome do Pânico. Com essa ansiedade antecipatória, as pessoas passam a evitar certas situações e acabam restringindo suas vidas. 

Podem ocorrer reações fóbicas secundárias, que geralmente estão relacionadas às situações nas quais a pessoa teve as primeiras crises (no elevador, dirigindo, passando por um determinado lugar etc.). A partir daí, a pessoa passa a associaressas situações às crises. Com o tempo, os sintomas do Pânico tendem a ocorrer também em outras situações, mas é muito comum continuar a temer situações específicas, que funcionariam como catalisadores de novas crises. Há uma classificação diagnóstica de Síndrome do Pânico com e sem agorafobia. 

Muitas vezes, a pessoa com Síndrome do Pânico não se sente presente nas situações e não consegue responder a elas adequadamente. Em vez de se compor com o que está à volta, ela pode se sentir ansiosa na maior parte do tempo. A ansiedade pode dominar a cena num sentimento flutuante de ameaça interna, de perigo que vem de dentro e que deixa a pessoa se sentindo um tanto distante da situação presente, limitando sua capacidade, por exemplo, de sentir raiva pelo que a desagrada, tristeza pelo que não obtém, de se sentir desafiada pelo novo etc. Muitas pessoas com Pânico relatam que se sentem um pouco “de fora” das situações. 

Quando a pessoa consegue se compor com o que vive, estando mais presente nas situações, tende a ir saindo desse estado constante de ansiedade. Como veremos, aprender como estar mais presente e poder lidar com as afetações dos encontros é ativar o processo de manejar a ansiedade, ponto básico no processo de superação das crises de pânico.

PÂNICO E ESTRESSE

O conceito de estresse, criado pelo cientista canadense Hans Selye, modificou profundamente a visão de saúde e doença em vários setores da Medicina. Sua força esclarecedora ainda está para ser assimilada por novas teorias na saúde mental. Stanley Keleman, em sua abordagem formativa, recorre constantemente à noção de estresse para pensar os seus efeitos sobre o processo formativo como, por exemplo, a interferência das experiências excessivas na capacidade de criação contínua de formas somáticas no processo de vida.

O que é estresse?

Estresse é uma reação básica que todo ser vivo apresenta frente a diversos tipos de afetações, boas ou ruins. 

Quando encontramos alguém, recebemos uma notícia importante, brigamos, enfrentamos um trânsito lento, algo ocorre em nosso corpo, nosso estado interno muda, estamos afetados e temos uma resposta do organismo para dar conta desse estado de afetação. 

A resposta biológica e comportamental para lidar com esse desequilíbrio interno produzido sobre o nosso estado anterior é o que denominamos estresse

A reação do estresse permite ao organismo agrupar forças e recursos internos para lidar com a situação de estar sob efeito de um encontro desestabilizador.Frente a uma situação na qual uma determinada forma somática não dá conta, a reação de estresse participa na mobilização e na preparação de novas formas, novas respostas. O desconforto do estresse chama a mudança. 

O estresse é uma reação à afetação sobre uma ordem estabelecida, um chamado para se compor com aquilo ou, no limite, diminuir os efeitos da afetação.

Há um aumento de atividade no organismo para lidar com o fato de estar afetado.

O problema é quando o nível dessa resposta é excessivo e permanente, não se desfazendo após a situação, deixando a pessoa paralisada num certo ponto de sua resposta de estresse. 

Quando a carga de estresse é excessiva, além do que uma pessoa é capaz de suportar, pode se iniciar um processo que desencadeia várias reações emocionais e sintomas próprios; os estados de ansiedade e pânico fazem parte desse processo.

Territórios existenciais

A situação estressante pode ser, por exemplo, uma crise conjugal, um medo de estar doente ou até mesmo uma viagem ou uma promoção no emprego – algo aparentemente bom, mas que exige adaptações e mudanças internas. 

A situação torna-se excessiva, muito estressante, quando exige da pessoa mais do que ela está conseguindo agenciar dos seus recursos pessoais, quando internamente ela não está dando conta da situação. 

É sempre com as afetações dos encontros que temos que lidar: encontro com as coisas, com as pessoas, com os próprios sentimentos, encontros do “eu” – aquilo com que o “eu” se identifica – com o “não eu” – aquilo que está fora dos limites de um território existencial. 

O “não eu” pode estar dentro de meu corpo, como um sentimento que eu não entendo e não aceito ter, um pensamento que eu rejeito, uma fantasia “perigosa”, uma sensação que eu temo, enfim todas essas partículas de experiência subjetiva que não fazem parte do território no qual o “eu” se reconhece.

Os territórios existenciais são campos compostos por um conjunto de formas somáticas, por alguns modos característicos de vinculação, por visões de mundo, modos de sentir, perceber, pensar, agir, por valores, preferências etc. São configurações de mundos, tantos quantos se possa imaginar.

A questão é como algo nos afeta e como podemos dar conta de um certodesmanchamento de nossos territórios existenciais que os encontros e afetações provocam; como se compor com os acontecimentos a partir das mudanças necessárias no processo da vida ou como ativar modos de limitar os efeitos desorganizadores do excessivo. 

O continuum do susto

No plano comportamental, a resposta de estresse envolve a ativação de certas emoções e atitudes para dar conta desses encontros que nos desequilibram. 

Quando vivemos uma situação que mexe muito conosco e nos desestabiliza, é ativada uma reação automática chamada reação de luta ou fuga. Essa reação faz parte da resposta biológica do estresse e nos prepara para respondermos à situação nova. 

Há um continuum de formas somático-emocionais nessa resposta frente a qualquer situação desestabilizadora, que Keleman denomina continuum do susto

O continuum do susto é a reação automática ativada quando uma experiência ultrapassa o limite de uma forma somática, o limite de um território existencial, chamando novas respostas para lidar com a situação. 

Para desencadear o continuum do susto, é necessário um potencial de estranhamento, uma capacidade de tirar o organismo de sua estabilidade. O continuum do susto é a reação frente à falta de forma para lidar com uma situação.

Nós somos desestabilizados muitas vezes nos encontros, e nossa capacidade de nos compormos ou não nesses encontros determina a experiência do assimilável ou do traumático.

O ser suportável ou excessivo depende de quanto um organismo suporta de estranhamento em si, potencializando-se em movimentos de diferenciação e complexificação de formas e estratégias de vida ou paralisando-se em tentativas de reduzir os efeitos de desorganização, de perda de limites e referências.

O continuum do susto é uma seqüência de formas emergenciais no processo de lidar com o novo.

Num primeiro momento, há um aumento de atenção para o que está ocorrendo; há uma reação de alarme inicial, em que o organismo endurece um pouco, suspende a respiração, ativa os receptores (olhar, ouvir, cheirar e sentir) e dirige a atenção. 

Caso a intensidade dessa mobilização seja suficiente para dar conta do que ocorre, com um reconhecimento adequado da situação e de seus efeitos, a reação de alerta se desfaz, e se organiza um modo de se compor com a situação e os afetos. 

No entanto, caso a experiência do estranhamento seja mais intensa, isto é, aquela afetação ameace algo em mim, posso me perceber organizado para defender o meu território, limitar a entrada do outro, criar um certo isolamento.

Avançando ainda mais no continuum da ameaça do estranho, posso agredir e atacar, buscando destruir o outro como modo de proteger o meu mundo. Há um aumento de minha força contra a ameaça do outro, um aumento da potência de um território contra o estrangeiro.

São graus de estranhamento – inicialmente, com mais atenção; em seguida, com criação de barreira e isolamento; depois, até com tentativas de agressão. 

Com o avanço da presença do outro em mim – ameaça pelo aumento de potência do estrangeiro –, posso começar a entrar em estado de medo, no qual enfrentar a situação já não é uma solução eficaz; me sinto ameaçado demais e começo a querer fugir da situação. Não dá para me compor com o outro, com a afetação, com aquilo que não é assimilável; preciso evitar para me salvar. 

Nesse momento, podem surgir experiências de ansiedade, confusão, pânico etc. Os estados de ansiedade e confusão interna marcam o conflito entre ficar para enfrentar a situação e fugir; expressam a coexistência de duas respostas simultâneas e contraditórias no comportamento – enfrentamento e fuga.

A intensificação do efeito de estranhamento do outro sobre mim me agride, me desorganiza, ameaça minha identidade, preciso recuar, para trás e para dentro de mim mesmo. 

E, finalmente, não posso dar conta, não posso mudar a situação, nada me resta a não ser a entrega, a derrota, o colapso. Caio em apatia, tristeza e depressão. A afetação foi demais para mim, me agrediu demais e nada posso fazer para mudar. 

Esquematicamente, o continuum do susto ficaria assim:

(1) Inicialmente, respondemos com mais atenção, cuidado; 

(2) em seguida, se o grau de afetação for mais intenso e nos ameaçar, reagimos com isolamento, depois com enfrentamento e raiva. 

(3) Caso a situação nos ameace ainda mais intensamente, começamos a nos sentir incapazes de dar conta do que ocorre e passamos a sentir medo,ansiedade, e

(4) podemos então caminhar para o pânico, grau extremo de uma situação excessiva, insuportável. 

(5) Daí em diante, se a situação persistir, tendemos a recuar e começam a surgir as respostas de tristeza, abatimento, desânimo, 

(6) colapso e depressão.

Nesse processo, há duas direções básicas de respostas: uma para reações de enfrentamento e luta (avançar), com aumento da organização das formas somáticas, e outra, quando a experiência é muito excessiva, para trás, para dentro, com respostas de fuga (recuar), com perda de organização das formas somáticas. 

Quando não podemos avançar nem recuar, não conseguindo nos compor com a situação, ficamos no estado de ansiedade e pânico.

A ansiedade é a expressão de uma excitação interna com a qual o organismo não consegue encontrar um modo de se compor, uma forma para dar conta da excitação. Como dissemos antes, a experiência do pânico é o ápice do continuum crescente atenção-ansiedade-pânico

Sempre temos que lidar com os efeitos e as reverberações dos acontecimentos em nós mesmos. Os limites e os modos de lidar são sempre pessoais, singulares a cada pessoa. 

A experiência emocional de pânico

A experiência emocional de pânico é uma experiência normal, que muitos podem sentir numa situação muito intensa como, por exemplo, dentro de um edifício em chamas. 

Nessa situação, o perigo é evidente e a reação de pânico mostra que se passou do limite de dar conta do que se está vivendo. Quando a pessoa está em pânico, já se encontra muito inundada pelo que está acontecendo, podendo, por exemplo, ficar num forte estado de confusão e se atrapalhar muito ao tentar sair do edifício, ficar paralisada e não conseguir fazer nada ou não suportar a situação e pular pela janela.

A pessoa atingiu um ponto no seu continuum do susto no qual o que a afeta é excessivo, ela não consegue organizar seus recursos internos. 

A reação de pânico que ocorre nos estados de Síndrome do Pânico é basicamente a mesma, só que a pessoa está reagindo a um perigo que vem de dentro dela. 

Mas pânico frente a quê, a que perigo?

Essa é a questão mais importante a ser respondida para toda pessoa que apresenta Síndrome do Pânico, pois aponta para as causas que a levaram ao estado de Pânico. A resposta a essa pergunta é sempre singular, cada um tem os seus motivos, mas todos têm um motivo.

O estranho que me habita

O pânico é uma reação frente a uma experiência excessiva da qual a pessoa não está conseguindo dar conta. Na Síndrome do Pânico, o que produz o excessivo está dentro da pessoa; um estado interno indica haver coisas em sua personalidade que estão vivendo como estrangeiras dentro dela. Quando essas coisas começam a vir à tona, produzem as reações do continuum do susto no grau do Pânico. 

Enquanto no edifício em chamas o perigo é visível, no Pânico o perigo é invisível

Esse estranho não tem nome, é um desconhecido que habita e domina a vida da pessoa. São sentimentos, sensações, micropartículas de experiência que estão marginalizadas de um território existencial dominante.

A pessoa se descobre ativada em suas respostas-padrão de luta ou de fuga frente a algo desconhecido, ao estranho dentro de si. Por isso a reação parece tão sem sentido; o visível é apenas a taquicardia, a falta de ar etc. 

Há algo pedindo passagem que não encontra lugar ao sol, que fica rejeitado, cindido da percepção consciente e que, quando emerge, produz uma intensa reação de estranhamento e desencadeia o reflexo do susto. Há uma reação de susto frente a uma excitação interna que não encontra modo de expressão, uma excitação sem forma. 

DESCONEXÃO: A SINGULARIDADE DO PÂNICO

O pânico é uma resposta de alta excitação numa situação limite em que não há possibilidade de se compor com o que afeta e, ao mesmo tempo, em que não há recurso viável de fuga; não dá para lutar e não dá para fugir daquilo que está dentro da pessoa e que ela não reconhece. 

Só é possível cindir partes da experiência, dividir-se a si mesmo em compartimentos, perceber e se identificar apenas com algumas partes e deixar outras ignoradas.

No Pânico, a reação ativada é a de desconectar a experiência somática, ver o problema objetificado no corpo e pensar: “estou tendo um ataque cardíaco”, “vou morrer” etc. É interessante notar que, geralmente, as pessoas com Pânico vivem como se o seu corpo fosse uma ameaça constante. A percepção se volta para as manifestações orgânicas, que parecem caóticas, levando a uma experiência de intensa ansiedade, com medo de morrer, de ter um ataque cardíaco etc. Há uma falência de sentido para o que está acontecendo.

A pessoa percebe a sua reação de susto frente a algo, mas não percebe esse algo, que está desconectado, separado da percepção, produzindo a resposta emocional de pânico. 

Nas Fobias, eu fico ansioso frente a objetos e situações; no Transtorno Obsessivo-Compulsivo, eu reajo aos pensamentos e às compulsões; no Pânico, eu me desespero por aquilo que está agindo em meu corpo, produzindo aquelas reações. 

Assim, nos aproximamos da singularidade do processo que leva ao Pânico: a desconexão entre a experiência somática e a experiência cognitiva.

A percepção das emoções

Segundo Nina Bull, em toda emoção (tristeza, raiva, alegria etc.) há pelo menos três componentes: 

– um componente fisiológico, como as alterações respiratórias, cardíacas, vasculares, digestivas etc.;

– um componente postural, muscular, que organiza um esboço de ação; na raiva, por exemplo, uma preparação para brigar;

– um componente cognitivo, que pode reconhecer a reação interna e o estímulo/situação que desencadeou a emoção. 

A integração desses três componentes (visceral, postural e cognitivo) possibilita adiscriminação consciente do que uma pessoa está sentindo e uma atitude orientada frente ao mundo. A percepção combinada das reações orgânicas, das alterações posturais e da situação vivida constitui o que podemos chamar deemoção.

Assim, se uma pessoa se percebe com determinadas tensões musculares, o coração batendo forte, a respiração acelerada e encontra uma situação da sua vida relacionada a essa reação, pode discriminar que está sentindo raiva e até saber o motivo. 

Algumas vezes, a pessoa pode não saber o motivo, mas tem suficiente discriminação para perceber, pela sua organização somática, o tipo de emoção que está se organizando. Por exemplo, se uma atitude postural está organizando uma tendência motora de bater, xingar etc., pode-se identificar a emoção de raiva. Há uma percepção de direção e intenção nas reações do corpo, há um senso de orientação interno. 

Esse senso faz com que haja uma integração entre o sentido da experiência e as reações do corpo.

Quando não há essa integração, a atenção recai sobre as “reações estranhas” que estão ocorrendo no corpo. 

Esse é o processo que ocorre nas pessoas com Pânico: há uma certadesconexão entre as reações somáticas e o sentido mental da experiência.

As pessoas que têm pânico freqüentemente se “desligam”, “ausentam-se” da situação presente pouco antes de as crises começarem. Isso permite pensar que, frente ao estranho que se anuncia dentro de si, inicia-se um processo de desconexão, que faz com que a pessoa se afaste do corpo e, logo depois, perceba as sensações como estranhas e ameaçadoras, respondendo com ansiedade e pânico. A pessoa se desconecta de seu corpo e aí a crise se instaura, com um grande susto em relação ao que nele ocorre.

As manifestações orgânicas “separam-se” da dimensão cognitiva, tornando-se sem sentido, estranhas à consciência. A ansiedade decorre desse estado: é uma reação frente a algo interno desconhecido; a pessoa se assusta com o que sente em seu corpo. A partir daí, desencadeia-se um movimento crescente de ansiedade que caracteriza as crises de Pânico. 

Assim, a característica mais específica da Síndrome do Pânico é essa desconexão entre a dimensão somática e a dimensão cognitiva, que explica como uma pessoa pode chegar a viver um enorme “estranhamento” em relação ao próprio corpo, em relação às sensações vividas dentro da pele. 

As estratégias para lidar com o excessivo

As afetações dos encontros são desafios às formas dominantes; são oportunidades para o organismo ampliar suas estratégias de vida ao lidar com elementos novos e se compor com isso. No entanto, todo desafio tem potencial de ser vivido como agressão. A agressão significa que a experiência produziu abalos intensos na forma e no funcionamento de uma pessoa e entra no campo do não-assimilável, do traumático.

Tomado pelo excessivo da afetação, é possível, no entanto, minimizar os seus efeitos. Os recursos incluem transformações nos tecidos do corpo, como adensamento, enrijecimento, inchaço e colapso – alterações emergenciais das formas somáticas para limitar o efeito devastador da excitação excessiva, da ansiedade e do estresse.

A desconexão percepção-soma é um modo de proteção frente ao excessivo, um dos momentos do continuum do susto. Quando não há como enfrentar nem fugir, um dos recursos é distorcer a autopercepção, uma tentativa limite de evitar a avalanche do inassimilável.

Por exemplo, frente ao excessivo, certa pessoa infla e, assim, dilui a excitação, sentindo menos; outra adensa e contém a reação dos afetos; outra, ainda, desconecta a experiência somática da experiência cognitiva, tentando se desligar dos efeitos do encontro em seu corpo.

Todas essas respostas expressam modos distintos de responder ao estresse excessivo. São modos de lidar com os acontecimentos, modos que permitem regular as intensidades possíveis ou intoleráveis, o que é suportável e o que é insuportável.

Frente a uma experiência de estresse muito intensa, algumas respostas podem ficar cristalizadas e perdurar como padrões organizados somaticamente, denominados por Keleman padrões de distresse. Um padrão de distresse é um conjunto de respostas solidificadas e cristalizadas que passam a limitar a amplitude de comportamentos de um organismo frente aos encontros; são padrões de resposta somática frente ao estresse excessivo que não se desfazem sozinhos. As pessoas com Pânico, por exemplo, ativam facilmente o padrão de desconexão cognição-soma frente ao excessivo.

O que predispõe ao Pânico

Há diversos modos de resposta ao excessivo que levam aos chamados estados psicopatológicos: recuar e deprimir, inflar em mania, desconectar e entrar em pânico etc.

Essas respostas singulares dependem da história de agressões vividas pela pessoa, do seu modo de lidar com as experiências excessivas, do seu repertório de formas somáticas, das suas heranças constitucionais etc. 

Algumas pessoas têm maior facilidade de desconectar a experiência cognitiva da experiência somática, fenômeno que ocorre no processo que leva ao Pânico. O surgimento dessa desconexão está relacionado às experiências emocionais muito intensas, tanto presentes quanto passadas. 

Parece haver, no entanto, uma tendência à desconexão em pessoas que tiveram experiências traumáticas muito precoces, nos primeiros meses de vida, quando o mecanismo de desconexão era um dos poucos recursos de proteção disponíveis frente às experiências excessivas. Essas pessoas parecem ter mais chances de desenvolver Pânico em algum momento da vida, pois mantêm organizado um padrão de desconexão ao longo dos anos.

A falta de confiança no corpo

Na crise de Pânico, a pessoa vive um profundo estranhamento em relação às suas sensações corporais; seu corpo é vivido como uma fonte de ameaça. Essa é uma das características centrais do pânico: os perigos vêm de dentro, vêm do próprio corpo. Nessa experiência de perigo interno, a pessoa reage com ansiedade e pânico, o que leva aos vários sintomas físicos, emocionais e cognitivos característicos.

Há um modo singular pelo qual tais pessoas lidam com as sensações corporais. Cada sensação diferente ou mais intensa do corpo pode ser percebida como um sinal de início de uma nova crise, um sinal de que “aquilo está vindo de novo”. Isso leva a um patrulhamento constante de que algo possa sair do controle. As pessoas com pânico fazem constantemente interpretações equivocadas e catastróficas de suas sensações corporais. 

A pessoa geralmente tem o ataque de pânico desencadeado por uma sensação do corpo que a assusta: uma alteração no batimento cardíaco, uma sensação de perda de equilíbrio, tontura, falta de ar, alguma palpitação ou tremor, por exemplo.

Uma das marcas desse processo é a falta de confiança no corpo. A pessoa vive uma profunda desconfiança do funcionamento do organismo e das sensações que dele derivam.

Os estados de ansiedade são acompanhados por alterações respiratórias que costumam produzir hiperventilação. Esta cria um desequilíbrio entre os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue, levando a várias manifestações perceptíveis, como formigamentos, aceleração dos batimentos cardíacos, tontura, sensação de falta de ar etc., sinais típicos das crises de Pânico. 

A ansiedade desperta muitas sensações, decorrentes da hiperventilação, que tendem a ser interpretadas pelas pessoas com Pânico como indícios de uma crise iminente. A ansiedade dessa sensação de iminência leva a mais ansiedade e, conseqüentemente, a mais hiperventilação, com mais sensações, num labirinto crescente em direção ao pânico.

O controle da hiperventilação, por meio de exercícios respiratórios específicos, é um recurso importante no controle das crises de Pânico.

OS MOMENTOS DE TRANSIÇÃO

Todos os momentos de transição na vida podem ser pontos críticos que levam às experiências excessivas, que ultrapassam as possibilidades de assimilação de uma pessoa. São momentos favoráveis para a eclosão dos muitos tipos de sofrimento emocional, entre os quais a Síndrome do Pânico.

As transições difíceis podem ocorrer nas mudanças de fases da vida, como a passagem pela puberdade, a saída da adolescência, a passagem para a vida adulta, para o adulto maduro, para a terceira idade. 

Há inúmeros outros momentos e situações críticas de transição – o crescimento dos filhos, a perda de satisfação e de sentido no trabalho, o fim de um relacionamento afetivo, o nascimento de um filho, entre vários e vários outros.

Todas essas situações de transição podem produzir abalos intensos no modo de vida de cada um. Muitas pessoas não se dão conta dessas passagens, dessas “crises”; apenas sentem seus efeitos posteriores e sintomas.

Esses momentos críticos são favoráveis para iniciar o processo de desequilíbrio interno, de marginalização de partes de si, que poderá levar algumas pessoas a desenvolverem Síndrome do Pânico. Essa é uma forte possibilidade reativa em pessoas que já apresentam uma acentuada tendência à desconexão psique-soma. 

A origem da Síndrome do Pânico precisa ser buscada na história de vida da pessoa, geralmente na época em que começaram as crises, quando aspectos importantes de sua vivência foram deixados de lado e retornam como elementos estranhos à própria pessoa, levando à resposta de pânico.

O excessivo nas transições

Vamos falar de um caso, entre muitos outros, em que a transição foi notadamente o deflagrador de um processo que levou à Síndrome do Pânico.

Uma mulher chega à terapia com uma história de 12 anos de Pânico. Pudemos observar, ao longo de seu processo, sua dificuldade em lidar com as mudanças decorrentes do avançar para a terceira idade, as mudanças em seu corpo, nos ritmos internos, na imagem social, na situação econômica etc. 

Na época que se seguiu à menopausa, essa pessoa foi endurecendo seu corpo, numa tentativa ferrenha de manter uma situação interna que buscava negar as mudanças em andamento. Ela criou uma batalha interna silenciosa, para manter um modo de funcionamento e uma imagem de si – “ativa e alegre” como antes –, deixando uma parte de si marginalizada, escondida de si mesma.

Essa pessoa insistia em um modo de viver que não condizia com sua realidade interna nem externa, tentando negar as afetações das transformações que ocorriam em seu corpo e outras mudanças em sua vida, como seu padrão econômico, que caiu com o envelhecimento do marido, o provedor da casa.

Conforme os acontecimentos se faziam mais evidentes e a estratégia de negar partes de si não dava mais conta, essas partes negadas, excluídas, foram voltando, minando aos poucos a aparente segurança conquistada. Essas afetações expulsas retornavam como sensações e sentimentos não assimilados, que eram, então, vividos como estranhos dentro dela. 

Ela sentia coisas que não conseguia nomear, identificar, e, assim, surgia a ansiedade – que é uma reação frente ao desconhecido dentro de si. A pessoa estranhava o que tais sensações e sentimentos produziam e reagia com ansiedade e pânico frente àquelas experiências.

As sensações não tinham nome, não tinham sentido, e eram vividas como se fossem reações estranhas, loucas, que ameaçavam a integridade de sua vida, desencadeando respostas de intensa ansiedade. 

Tudo parecia sem sentido, mas, na realidade, tudo tinha um sentido, desconhecido para a pessoa. 

Reconhecendo as transições, elaborando os processos em andamento, reconectando-se com suas experiências somáticas, modulando suas formas somáticas para acolher as novas afetações, essa mulher pôde sair do estado de Pânico e encontrar modos mais formativos em sua existência. 

O estranhamento de coisas em si produz ansiedade como reação ao desconhecido. O estado de ansiedade produz ainda mais reações no corpo, como hiperventilação, reações nos batimentos cardíacos, no fluxo de sangue, no estado de consciência etc. A pessoa vai sendo tomada por uma avalanche de reações que parecem sem sentido, como se fossem levá-la à loucura, à morte. 

Podemos dizer que as causas do processo que leva ao pânico são experiências internas não assimiladas. A pessoa não consegue identificar o que está vindo junto com as crises, todas as experiências de vida que foram negadas, excluídas de seu mundo, e, assim, acaba tendo crises de pânico frente ao desconhecido que a invade por dentro.

A essas experiências não assimiladas, a pessoa reage com uma desconexão cognição-soma, o que leva às crises de pânico.

Conflito de formas

Um cliente de 46 anos chega para o tratamento com uma história de muitos anos de crises de Pânico e depressão. Fala de seu problema com uma certa distância e objetividade, como se se referisse a algo externo a ele, algo com que não está identificado. Conta histórias em que se mostra bastante orgulhoso de suas conquistas profissionais e financeiras, mas, ao mesmo tempo, diz que está sofrendo muito e que sua vida está um inferno. Em seu modo de falar, evidencia-se um elevado grau de autocontrole. 

Deitado, já podendo se perceber mais, diz que sente uma grande tristeza no peito, com um forte desânimo; sente insegurança e fantasia perder todo seu dinheiro, o que diz ser racionalmente infundado, pois tem um bom patrimônio. 

Observando suas expressões, gestos e formas, percebemos que seu rosto apresenta uma expressão em desacordo com o estado do seu peito.

Intensificando volitivamente essa expressão do rosto, vai se organizando em todo o seu corpo uma forma somática em que ele fica rígido e insensível em relação ao mundo e a si mesmo. Relata que essa é uma atitude muito conhecida sua, “para inibir o sofrimento” emocional; diz que tem muito “medo de sentir dor”, que luta para não sofrer com experiências como perdas afetivas e quebras de vínculos e que faz de tudo para “não sentir”. Ele já percebe que, por exemplo, quando vai cumprimentar alguém, muitas vezes acha que está sorrindo, mas de fato não está. Sente a alegria interna, mas a emoção não chega a ser expressa em seus gestos.

Conforme desorganiza vários graus de sua forma rígida, vão surgindo experiências mais profundas que lhe lembram a sua juventude, a época em que tocava um instrumento musical etc.

Assim, fomos cartografando suas organizações somáticas e encontramos duas formas e territórios conflitantes. Uma forma do “durão” e outra, mais suave e afetiva.

Seu repertório de formas somáticas falava de um garoto adolescente muito sensível, que endureceu para dar conta de sua fragilidade e poder “crescer na vida” a partir de um ambiente emocional familiar muito árido.

Essa forma do “durão” passou a inibir o seu modo suave, uma forma somática passou a impedir a emergência de experiências de outra ordem, o território do “durão” limitava muitas possibilidades de afetividade e sensibilidade em sua vida.

Essa pessoa havia criado uma estratégia de enrijecimento somático para escapar de uma situação de muita dor e fragilidade em sua vida e para alcançar um modelo de homem que ele havia idealizado. No entanto, havia instaurado dentro de si uma verdadeira ditadura de um modo rígido sobre um modo sensível. 

Podemos observar, nesse caso, um funcionamento duplo, duas organizações somáticas, dois modos de ser brigando entre si. No jogo de forças instalado, cada forma somática representava uma ameaça à outra. Pela ótica do seu modo “durão”, o seu maior medo era perder o dinheiro e o status, as maiores conquistas desse modo de funcionar. Assim, o seu medo aparentemente “infundado” era, na realidade, a ameaça de rachar uma estrutura dura, porém frágil, construída literalmente com sacrifício de outras partes de si a partir de uma política interna opressiva.

Quando seus sentimentos cresciam, aumentava seu endurecimento, cindia a experiência somática da percepção consciente, até o ponto em que vivia suas sensações com profundo estranhamento e ameaça, o que o levava ao Pânico.

Esse homem oprimia havia muitos anos sua forma mais afetiva, numa luta constante para paralisar e negar as afetações dos encontros com o mundo, uma tarefa fadada ao fracasso, mas sempre reempreendida à custa de crises episódicas de pânico e de muita medicação para tentar calar o desconforto.

Encontramos freqüentemente, nos casos de Pânico, um conflito de formas somáticas, com uma história que fala de momentos de transição em que a organização de um modo de existência implica na tentativa de paralisação das afetações, dos acontecimentos, das transformações.

O Pânico é uma reação a um estado interno do qual a pessoa não dá conta, algo que ela sente e que não cabe em seu modo habitual de funcionar, algo que ameaça as suas formas dominantes e passa a incomodar por baixo, como excitação não assimilada, que não pode se expressar em formas somáticas novas. Frente a essa excitação, a pessoa reage com estranhamento, susto, ansiedade e pânico.

O TRATAMENTO

Padrões de distresse: a pré-crise constante

Se uma pessoa está muito paralisada num determinado modo de funcionamento, num padrão de distresse, seu repertório de respostas torna-se limitado e sua abertura e flexibilidade para lidar com diferentes situações, reduzidas. Essa pessoa será mais freqüentemente ameaçada pelo excessivo, pois terá menos possibilidades de modular suas formas somáticas para receber novas excitações, menos possibilidades de criar respostas diferentes, de se adaptar a uma nova situação.

Uma pessoa cristalizada no padrão de desconexão poderá, freqüentemente, responder com desconexões frente às afetações e, assim, reagir com crises de Pânico. É importante reconhecer e trabalhar esses padrões, para desativar o gatilho armado do Pânico e diminuir a ocorrência de crises. 

Observamos que, geralmente, após as crises, a pessoa permanece em estado de prontidão para ter novas crises, pois ainda mantém organizados os padrões de distresse que a levaram ao Pânico. Aliás, foi a organização desses padrões ao longo da vida que preparou o terreno para o Pânico.

Por exemplo, a contração crônica do diafragma e a desorganização da autopercepção (desconexão) são traços psicofísicos que mantêm a pessoa em estado de prontidão para ter novas crises. 

Precisamos desarmar esses gatilhos, por meio da desorganização dos padrões somáticos que deixam a pessoa ansiosa, em estado de pré-crise, e sem outro recurso para lidar com a excitação além da desconexão psique-soma ou da depressão. 

A depressão é também um modo de lidar com a excitação interna, limitando e diminuindo a vitalidade e a pulsação emocional. Uma pessoa com Pânico que deprime pode estar lançando mão de um recurso de proteção pois, limitando sua mobilidade e motilidade, encontra um modo de diminuir a excitação e, assim, evitar o Pânico. A depressão pode ser também um modo de se proteger contra o Pânico, até que a pessoa tenha condições de lidar com um nível maior de excitação com forma e sentido.

Por trás da desconexão cognição-soma, há sempre uma excitação que não encontra modo de expressão. Esse processo atua como um deflagrador, levando uma pessoa a usar o recurso radical da desconexão para lidar com experiências internamente excessivas. Esse fato não é consciente, e o surgimento do Pânico parece sempre “sem motivo”. A identificação das transições em andamento, dos conflitos de formas, das afetações inaceitáveis, é fundamental para a superação da Síndrome do Pânico.

No trabalho terapêutico, atuamos sobre os padrões psicofísicos que constituem a resposta do Pânico em suas relações com a história de vida. Precisamos atentar para as interrupções do processo formativo, os padrões de distresse envolvidos, a dinâmica funcional dos sintomas, os fatores existenciais da história de vida, os processos vinculares e os fatores contextuais, como, por exemplo, ambientes com diferentes qualidades.

Um enfoque global permite tanto um alívio do sofrimento trazido pelas crises quanto a superação e a cura, por chegar às causas que precipitaram o Pânico.

Algumas pessoas chegam para tratamento muito paralisadas pelo excesso de crises de pânico. Nesses casos, podemos indicar a utilização de medicamentos específicos paralelamente ao tratamento psicoterapêutico. 

As técnicas utilizadas

A pessoa aprende técnicas para influenciar as suas crises. Primeiro, aprende técnicas para diminuir a intensidade das crises; depois, como limitá-las e evitá-las, até atingir um ponto, no decorrer da terapia, em que não as têm mais. 

Assim, a pessoa vai saindo da fase das crises, podendo assimilar os sentimentos e sensações que a haviam levado ao Pânico; vai reconhecendo as transições em sua vida que não estavam sendo elaboradas e encontrando modos mais vitais de lidar com as afetações e os encontros. 

As principais técnicas utilizadas são o manejo postural dos estados de ansiedade, exercícios respiratórios, trabalhos com centralização da atenção e trabalhos de convergência binocular focal, entre algumas outras. Trata-se de técnicas com ação específica para a situação de Pânico, que ajudam a manejar as intensidades da ansiedade e do pânico. 

Os exercícios somáticos são fundamentais por vários motivos:

– atuam sobre a questão central do pânico, a da integração cognição-soma; 

– levam a resultados muito significativos no manejo dos estados de ansiedade e pânico;

– realizam uma verdadeira educação somática, ensinando meios para a pessoa gerenciar seu processo formativo, modulando suas formas somáticas, as matrizes dos territórios existenciais, aprendendo modos de navegar nos devires, participando ativamente da construção de sua própria existência.

Ampliando: transições e história de vida

Na terapia, buscamos ampliar a compreensão dos processos afetivos, recontando a história de vida a partir da realidade somática formativa, revendo os acontecimentos e os modos de lidar, para esclarecer os “nós” que levaram ao Pânico. 

Mapeamos as transições, as crises e as pressões presentes nos momentos em que o Pânico começou, as formas e as estratégias de vida que não deram conta dos acontecimentos, as formas e os processos emergentes. Buscamos reconectar a pessoa ao seu processo formativo. 

A superação da Síndrome do Pânico é possível pela aquisição de maior capacidade de elaboração das emoções, pela reorganização dos padrões de distresse que levaram ao Pânico e mantiveram-no e pela formação de outros modos de sentir, perceber e agir, criando caminhos pessoais mais satisfatórios.

No tratamento de uma pessoa com Pânico, precisamos aproximá-la das afetações em sua vida, do reconhecimento das formas que surgem dessas afetações e dos novos sentidos que podem derivar em sua vida a partir daí. Precisamos abrir os territórios existenciais a novos sentidos e afetos, à criação contínua de novas formas no processo de construção da existência.

Superar a experiência do Pânico pode ser uma grande oportunidade de crescimento pessoal; de uma retomada vital e contemporânea do processo formativo. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • ANDERSON, Bert. How to Treat Your Panic Disorder. http://www.eadd.com/~berta/index.html, on line desde 1996.
  • Associação Americana de Psiquiatria. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos MentaisDSM IV. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
  • ARNOLD, M. Stress and Emotion. In: Appley, M., Trumbull, R. Psychologycal Stress – Issues in Research. Nova York: Appleton-Century Croft, 1967.
  • BARLOW, D., CERNY, J. Tratamento Psicológico do Pânico. Porto Alegre: Artmed, 1999.
  • BULL, Nina. The Body and Its Mind. Nova York: Las Americas, 1962.
  • __________. The Attitude Theory of Emotion. Nova York: Johnson Corp., 1968.
  • KELEMAN, Stanley. Anatomia Emocional. São Paulo: Summus, 1992.
  • __________. Realidade Somática. São Paulo: Summus, 1994.
  • __________. Padrões de Distresse. São Paulo: Summus, 1997.
  • __________. Viver o seu Morrer. São Paulo: Summus, 1997. 
  • __________. Depression and Panic – An interview with Stanley Keleman by Terrence MacClure. www.centerpress.com 
  • __________. The Shapes of Depression and Panic, Video, Center Press, Berkeley-CA 
    National Institutes of Mental Health. Treatment of Panic Disorder. NIH Consens Statement Online 1991, Sep 25-27;9(2):1-24.
  • ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.
  • ROSS, Jerilyn. Vencendo o Medo. São Paulo: Ágora, 1995. 
  • SCARPATO, Artur. “Síndrome do Pânico: uma Abordagem Psicofísica”.Revista Hermes, Sedes Sapientiae, São Paulo, número 3, 1998.
  • SELYE, Hans. Stress Without Distress. Nova York: NAL, 1974.
  • __________. The Stress of Life. Nova York: Mc Graw Hill, 1984. 
  • VAN DER HOUT, M. A., VAN DER MOLEN, G. M., GRIEZ, E., LOUSBERG, H. “Specifity of interoceptive fear to panic disorders”. Journal of Psychopatology and Behavioral Assesment, 1987, 9, pp. 99–106.

Nota: O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido:

Scarpato, Artur. O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa,Revista Reichiana,São Paulo, numero 10, 2001, p. 50-66.

 

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

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Última atualização: 06/09/2016

Experimentando as Idéias

Experimentando as Idéias

Uma experiência simples de observação, imitação e auto-observação.

Observando estas duas pessoas que têm a mesma idade você diria que:

                                                                

 

  • Elas têm os mesmos sentimentos predominantes ?
  • Percebem o mundo do mesmo modo ?
  • Agem do mesmo modo ?
  • Tiveram histórias de vida semelhantes ?

Para você ter mais certeza sobre as respostas à estas questões faça duas coisas:

Primeiro: observe bem a postura e a forma do corpo dessas duas pessoas, como aparecem na figura abaixo.

 

                                                       

 

Segundo: Agora imite cada uma delas, faça exatamente igual com seu corpo. 
Imitando, dê um tempo em cada uma destas posturas para tentar perceber a partir das suas sensações, como cada uma destas pessoas se sente, como vê o mundo, como tende a agir, etc.

Talvez você tenha precebido algumas coisas que o ajudem a elucidar um pouco o mundo interno destas pessoas. Talvez até você se identifique mais com alguma delas.

Agora, observando o seu próprio corpo, como você está agora, talvez você perceba que a sua forma somática cria uma outra configuração, com outros estados afetivos e cognitivos concomitantes. Cada configuração de forma somática está relacionada à experiências subjetivas diferentes.

O corpo tem uma configuração somática dinâmica que reflete:

  • a história evolutiva de nossa espécie
  • o momento da vida em que você está, assim como as transições que estão se processando em você (bebê, criança, jovem, adulto-jovem, adulto, adulto maduro, velho)
  • os modelos de corpo de sua cultura que mais o influenciaram
  • os papéis sociais que você desempenha
  • a história singular de sua vida, com todos os acontecimentos, relacionamentos, sonhos, sofrimentos e escolhas
  • os padrões somáticos de ação e vinculação que se cristalizaram e agora limitam as suas possibilidades de viver novas experiências de um modo criativo.
  • os desejos e sonhos profundos que começam a se corporificar, criando esboços de novos comportamentos, pequenas diferenciações das formas somáticas, brotos do que você pode vir a ser.

Enfim, seu corpo reflete a sua existência somática, um processo de construção e realização do self, do nascimento à morte. Neste processo você pode realizar seu potencial genético, pode realizar sua função social, mas pode ir ainda além e desenvolver um self pessoal, singular, capaz de se articular com todas as esferas da existência e contribuir para o enriquecimento da humanidade.

Uma Introdução à Psicoterapia

UMA INTRODUÇÃO À PSICOTERAPIA

 por Artur Thiago Scarpato

A Psicoterapia é um método de tratamento, uma aplicação dos conhecimentos da Psicologia e da Psicopatologia na clínica psicológica, sendo também chamada de Psicologia Clínica.

A psicoterapia é um valioso recurso para lidar com as dificuldades da existência em todas as formas que o sofrimento humano pode assumir como transtornos psicopatológicos, distúrbios psicossomáticos, crises existenciais , estados de sofrimento, conflitos interpessoais, etc.

A psicoterapia é também um espaço favorável ao crescimento e amadurecimento, um lugar/tempo/modo privilegiado de criar intimidade consigo mesmo, de estabelecer diálogos construtivos e transformar padrões estereotipados de funcionamento, restabelecendo o processo formativo e criativo de cada um.

A Psicoterapia oferece uma oportunidade de compreender e mudar os padrões relacionamento interpessoal. Os problemas vinculares são fonte de incontáveis sofrimentos, favorecendo a ocorrência de inúmeras doenças.

Em alguns casos, a Psicoterapia cumpre também uma função de educação para a vida, oferecendo um espaço de aprendizado, com instrumentos e conhecimentos que podem ajudar na orientação e condução da vida. Esta função torna-se fundamental em situações de desestruturação decorrente de crises ou casos de imaturidade psicológica, quando a pessoa se sente verdadeiramente inapta para lidar com os enfrentamentos e dificuldades em sua vida. 

ALGUMAS APLICAÇÕES DA PSICOTERAPIA

A psicoterapia é um processo que permite transformações profundas da pessoa, com resultados evidentes em diversas situações como:

  • tratamento de transtornos psicológicos como transtorno do pânico, fobias, transtorno dissociativo, depressão, anorexia, estresse pós traumático etc.
  • tratamento de transtornos de personalidade  como transtorno borderline, transtorno esquizóide, transtorno paranóide, etc 
  • trabalho sobre conflitos pessoais, conjugais, familiares, interpessoais e grupais que podem produzir ou contribuir para o sofrimento psicológico. 
  • elaboração de crises existenciais, de transições difíceis (luto, crises profissionais, etc) e dificuldades nas mudanças de fases de vida (puberdade, adolescência, vida adulta, menopausa, envelhecimento, etc.)

A Psicoterapia pode trazer enormes benefícios como:  

  • desenvolvimento da capacidade de autogerenciamento,  aprendendo a dialogar com os estados internos, a regular os estados emocionais e adquirir autonomia.
  • desenvolvimento da capacidade de auto-observação e auto-reflexão
  • sair dos padrões estereotipados e criar novas narrativas de si,novos modos de compreender e conduzir a própria vida
  • desenvolver habilidades interpessoais como capacidade empática – saber se colocar no lugar do outro -, capacidade de comunicação,  assertividade, resolução de conflitos, etc.  
  • fortalecimento psicológico – ampliação da resiliência –  para aumentar a tolerância e a capacidade de crescer com as dificuldades que a vida apresenta.
  • favorecer a saúde integral, física e psicológica
  • busca de sentido existencial 
  • amadurecimento psicológico

UMA ABORDAGEM INTEGRADA

A Psicologia Clínica ocupa um lugar fundamental na área da saúde, por oferecer uma visão integrada do ser humano,  incluindo as dimensõespsíquica, orgânica, social e espiritual agindo conjuntamente na produção da existência humana, assim como de seus equilíbrios e desequilíbrios.

Não é possível hoje se falar em “doenças orgânicas” sem uma consideração pela dimensão psicológica e emocional, sendo evidente anatureza psicossomática da existência humana.

Já há algum tempo as pesquisas científicas tem demonstrado que as experiências de vida influenciam diretamente o processo de ativação genética, assim como influenciam as mudanças estruturais que ocorrem no cérebro. Deste modo torna-se cada vez mais artificial a distinção entre doenças mentais e doenças orgânicas (1)

Cada ser humano – psicossomático por natureza – vive uma história de interações, encontros e acontecimentos em que as doenças, quer se manifestem mais no corpo ou na “mente”, sofrem forte influência dos desequilíbrios existenciais e de soluções inadequadas de vida. Os aspectos psicológicos participam não somente da formação de muitas doenças como tem um papel fundamental na sua recuperação.  A psicoterapia oferece recursos importantes para uma compreensão mais ampla do processo de adoecimento assim como estratégias para uma vida mais saudável e integrada.

AS ABORDAGENS TEÓRICAS

Há diversas escolas teóricas na Psicologia que podem ser agrupadas em cinco principais perspectivas, com seus ramos e derivações:

– Psicodinâmica (Psicanálise, Psicologia Analítica, etc)

– Humanista (Gestalt, Psicodrama, etc)

– Corporal (Reichiana, Bioenergética, etc)

– Cognitivo-comportamental

– Sistêmica 

A diversidade decorre tanto da complexidade do tema – a psique humana – como da origem e desenvolvimento da Psicologia a partir da influência de diferentes ramos do conhecimento, da Filosofia, da Medicina, das Religiões, etc.

No geral, as diferentes abordagens teóricas apresentam alguns elementos básicos, como: (1) uma teoria sobre o funcionamento menal, (2) uma teoria do desenvolvimento, (3) uma explicação sobre a origem do sofrimento (psicopatologia) e (4) uma visão sobre o processo terapêutico.

Ultimamente tem sido comum que terapeutas de uma abordagem teórica utilizem técnicas originadas em outras escolas. A busca de melhores resultados na clínica parece estar promovendo estes intercâmbios. Talvez isto indique um movimento na Psicologia de integração entre as diferentes abordagens teóricas. 

OS TIPOS DE PSICOTERAPIA

Há alguns tipos de psicoterapia, conforme as necessidades e a configuração dos problemas, sendo o s principais:

  • Psicoterapia Individual para crianças, adolescentes, adultos e idosos.
  • Psicoterapia de Grupo
  • Psicoterapia de Casal 
  • Psicoterapia de Família
  • Psicoterapia Institucional

OS PRAZOS VARIAM COM OS OBJETIVOS

Um século de pesquisas e desenvolvimento permitem que aPsicoterapia alcance resultados cada vez maiores e mais significativos.

No geral, os prazos de tratamento são relativos aos objetivos almejados e à gravidade do problema.

Há vários desenvolvimentos recentes em psicoterapias breves, que são focadas em objetivos específicos. Atualmente é possível atingir resultados significativos em períodos de 6 a 12 meses e há processos terapêuticos mais profundos que se encerram satisfatoriamente em prazos inferiores a 3 anos.

Há casos que demandam um trabalho terapêutico mais demorado, geralmente com problemática mais séria, envolvendo traumas precoces, desorganização psicológica, problemas vinculares, imaturidade psicológica etc.  Estes trabalhos podem exigir anos de trabalho contínuo, compensados por mudanças significativas que o trabalho psicoterapêutico pode propiciar.

Algumas pessoas encontram na terapia um ambente fundamental deacompanhamento de seu processo de vida, de auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, onde são trabalhadas transformações profundas ao longo de vários anos. São situações em que o processo terapêutico não tem um prazo definido, em comum acordo entre o profissional e o cliente.

Apesar de poder parecer, à primeira vista, um tratamento oneroso em termos de tempo e dinheiro, a psicoterapia tem se mostrado, na realidade, um modo econômico de tratamento. Pesquisas indicam, por exemplo, que a psicoterapia diminui os índices de consumo de medicamentos e de internações hospitalares(2). A psicoterapia tem se mostrado também um tratamento economicamente compensador por prevenir e tratar problemas psicológicos que, quando não tratados, trazem enormes prejuízos financeiros para as pessoas, as famílias e mesmo para a economia do país (3).

Os tratamentos psicológicos demonstram uma grande potência de transformação das vidas, compensando os investimentos realizados.

O VÍNCULO NA PSICOTERAPIA

O ser humano nasce, cresce e vive em ambientes vinculares . Destes ambientes depende seu bem estar e suas realizações na vida. Os problemas vinculares – da primeira infância à terceira idade – afetam profundamente a capacidade que as pessoas têm de amar, trabalhar e viver. A psicoterapia é um espaço para se esclarecer e transformar estas dificuldades vinculares. Este processo ocorre através de uma relação saudável com um profissional eticamente comprometido e tecnicamente qualificado.

A base de uma boa terapia está na relação terapêutica. A boa terapia se desenrola num enquadre clínico com um vínculo que favorece este processo. Aí está um dos segredos desta arte  e ciência: criar um ambiente que permita a revelação do mundo interno e favoreça o desenvolvimento do processo singular de cada um. Neste clima é possível que o ser mais oculto e amedrontado  se mostre, seja ouvido e transforme-se, que o processo formativo possa prosseguir formando vida.

POR QUE A PSICOTERAPIA FUNCIONA ?

As pesquisas demonstram uma grande eficácia da psicoterapia (4).Mesmo as recentes tecnologias de mapeamento cerebral têm permitido demonstrar como o tratamento psicológico age transformando o funcionamento cerebral. A eficácia do tratamento psicológico, que já era conhecida há várias décadas, tem sido corroborado recentemente pelos novos conhecimentos das neurociências (5).

Existem centenas de livros e pesquisas explorando e explicando porque a psicoterapia funciona. Porém, como simples exercício de compreensão, vamos listar alguns motivos para tentar entender um pouco sobre a efetividade da psicoterapia.

No início da lista, organizada num continuum que vai do mais simples ao mais complexo, temos aqueles motivos que são comuns a outras relações de ajuda, mesmo não profissionais, como uma conversa íntima com um amigo, uma conversa sobre um problema pessoal com um professor, um médico, etc. Avançando na lista vamos chegando aos motivos que são próprios da psicoterapia, até aqueles que lhe são exclusivos – possíveis pelo meticuloso treinamento teórico e técnico adquirido pelo psicólogo em sua trajetória de formação profissional.

Eis alguns motivos pelos quais a psicoterapia funciona:

1 Ao dividir um problema você passa a ter “meio” problema. Compartilhar ajuda a aliviar a carga emocional e o sofrimento

2 Os vínculos de ajuda têm um poder curativo. É mais fácil superar as dores através de uma relação autêntica de respeito mútuo do que sozinho. A relação terapêutica é uma relação de ajuda, de compreensão e apoio.

3 O psicólogo clínico (psicoterapeuta) é um outro , com o olhar e a perspectiva de um outro, o que lhe ajudará ver a sua vida de um modo diferente, lhe fazer perguntas diferentes, ajudá-lo a perceber as coisas de um ângulo que você não tinha visto antes e nem suspeitava ser possível. Assim, a psicoterapia faz você parar para refletir sobre a própria vida. Parar, observar e refletir permite muitas mudanças de orientação, sentido, rumo e aprofundamento da experiência de vida.

4 O psicoterapeuta conhece teorias psicológicas que ajudam na compreensão do que ocorre com você, auxiliam a identificar o que pode estar errado em sua vida, a direção que você está seguindo e as mudanças de rumo necessárias. A partir de seu conhecimento, o psicólogo pode apontar o que olhar, como olhar e o que fazer com o que se descobre, para que estas descobertas possam ser construtivas em sua vida.

5 O psicoterapeuta conhece métodos de investigação que tornam possível descobrir aspectos da sua personalidade que seriam inacessíveis a uma observação não treinada ou a uma conversa comum. Há um amplo espectro de técnicas de investigação psicológica que permitem esclarecer problemas de modo extremamente eficaz.

6 O psicoterapeuta domina técnicas terapêuticas que ajudam a realizar mudanças psicológicas profundas.

7 O psicoterapeuta está preparado para te  compreender a partir dovínculo que você estabelece com ele, das respostas emocionais que você suscita nele. Em seu treinamento ele afinou a si mesmo como instrumento de trabalho para reconhecer pequenas nuances do que você mostra na relação com ele (e consequentemente com “os outros”) e assim poder compreender seus modos de vinculação e suas dificuldades nos relacionamentos.

8 O psicoterapeuta é capaz de oferecer uma presença autêntica no vínculo com você. Esta relação funciona como catalisador de processos de mudança necessários em sua vida, incluindo a superação dos efeitos de traumas de relacionamentos anteriores.

9 O psicoterapeuta passou por todos estes passos anteriores, tendo estado em todos os papéis, como cliente, como profissional e como observador, o que o habilita a “sentir-se em casa” em situações difíceis , poder caminhar por terrenos inóspitos, cheios de sofrimento e problemas emocionais e saber ajudar seu cliente a encontrar um caminho de melhora.

10 O psicoterapeuta inicia seu cliente num caminho de transformação pessoal. Isto é possível porque o psicoterapeuta tem um know-how, um saber fazer que vai além do conhecimento formal, da teoria e da técnica. É um saber baseado na experiência, experiência de vida e experiêcnia da clínica.

Esta lista poderia ser estendida e aprofundada, mas pretendemos com ela dar uma idéia ao público leigo da natureza do trabalho da Psicologia Clínica numa linguagem diferente daquela do universo teórico, técnico e científico habitual na Psicologia.

UM CAMINHO DE MUDANÇA 

O processo terapêutico é como atravessar um túnel. Neste túnel você vai rever muitas cenas da historia da sua vida de um ângulo completamente novo, fazendo conexões inusitadas entre os eventos e percebendo a potência do passado para moldar quem você é hoje e a potência do presente para construir novas possibilidades de vida.

Na travessia deste túnel você vai aprender a reconhecer os seus padrões de comportamento que levam você a se comportar de modo parecido em situações diferentes, muitas vezes “repetindo os mesmos erros”. Você vai aprender a reconhecer o “como” do seu comportamento, como você age, como se relaciona, como pensa,como sente e vai aprender caminhos para poder influenciar e transformar estes padrões.

Esta é uma travessia acompanhada, acompanhada de alguém que pode ajudar você a se compreender. Alguém que pode te ajudar a transformar o seu jeito de ser, a mudar e a se conhecer profundamente. É uma travessia que pode mudar profundamente a sua vida.

por Artur Scarpato

Referências Feitas:

1 – Kandel, Eric (1998) A New Intellectual Framework for Psychiatry. Am J Psychiatry, vol 155 p457-469

2 – Gabbard, G O; Lazar, S G; Hornberger J; Spiegel D. (1997). Economic Impact of Psychotherapy: A Review. The American Journal of Psychiatry, vol 154:2 p147-155

3 – Hanns, L A (2004) Regulamentação em Debate. Psicologia: Ciência e Profissão – Diálogos, ano 1, vol 1, p 6-13

4 – Gabbard, A. (2001) Empirical Evidence and Psychotherapy: A Growing Scientific Base. The American Journal of Psychiatry, Volume 158(1), 1-3)

American Psychological Association (2009). How Psychotherapy Works. Six questions for Bruce E. Wampold. online.

Shedler, Jonathan (2010). The Efficacy of Psychodynamic Psychotherapy. American Psychologist, Vol. 65, No. 2, 98–109

5 – Siegel, Daniel (2001) The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are,New York, The Guilford Press

Cozolino, Louis (2002) The Neuroscience of Psychotherapy: Building and Rebuilding the Human Brain, New York, W W Norton

Cozolino, Louis (2006) The Neuroscience of Human Relationships: Attachment and the Developing Social Brain, New York, W W Norton

Este texto está em construção constante. A última modificação é de 06 de outubro de 2010.

Nota: O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido:

Scarpato, Artur (2010).Uma Introdução à Psicoterapia. Disponível em: <www.psicoterapia.psc.br/scarpato/psicoter.html> Acessado em: dia/mes/ano.

Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman

Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman

 Artur Thiago Scarpato

A relação entre anatomia e subjetividade é um tema básico da Psicologia Formativa de Stanley Keleman. Este autor estuda as formas somáticas, que são as constantes transformações morfológicas e anatômicas do corpo que se produzem ao longo da existência acompanhado pelas transformações psicológicas. Na concepção kelemaniana a vida é um processo constante de construção de formas somáticas, desde o processo embriológico na formação do ser humano até o final da vida. Essas transformações não são guiadas apenas por um programa já dado geneticamente, mas as formas somáticas refletem a própria produção da existência, com todos os seus acontecimentos, encontros e relacionamentos.

O estudo da forma humana revela sua história genética e emocional. A forma reflete a natureza dos desafios individuais e como eles afetam o organismo humano….a postura ereta é acompanhada de uma história emocional de vínculos parentais e separações, proximidade e distanciamento, aceitação e rejeição. Uma pessoa pode incorporar a densidade compacta que reflete desafio ou um peito murcho que expressa vergonha. A anatomia humana é, assim, mais do que uma configuração bioquímica; é uma morfologia emocional. Formas anatômicas produzem um conjunto correspondente de sentimentos humanos“. (Keleman, 1992 p.72)

Keleman deixa de lado os modelos clássicos do aparelho psíquico e parte em busca da experiência encarnada, o corpo sendo criado e criando existência, sendo produzido e se produzindo e o psiquismo como uma parte deste processo somático-existencial.

Na visão kelemaniana, o psiquismo é uma função do corpo, o corpo sente, o corpo pensa, o corpo imagina, o corpo sonha. Nesta concepção, a anatomia e o psiquismo estão absolutamente enredados. Keleman propõe uma anatomia emocional, cognitiva, existencial. O psiquismo está estruturado a partir da organização morfológica do corpo todo e não apenas restrito ao cérebro ou a algum espírito imaterial.

Os estados subjetivos – sentimentos, pensamentos, estados de consciência – são estados do corpo. Como diz Keleman: “todas as sensações, todas as emoções, todos os pensamentos são, de fato, padrões organizados de movimento“.(Keleman, 1995, p 17).

O corpo cria imagens e símbolos de si e do mundo e assim se torna capaz de dialogar consigo mesmo e com os outros. Estas imagens são geradas no córtex cerebral a partir de um diálogo das diferentes camadas somáticas.

O diálogo do corpo consigo mesmo permite ativar um processo de auto-gerenciamento, onde é possível identificar, compreender e modular as formas somáticas, dialogando com os efeitos somáticos das experiências vividas, num modo de participar ativamente da construção da própria existência.

Keleman propõe a Metodologia dos Cinco Passos, processo onde pretende-se influenciar as atitudes, comportamentos e estados internos através da ação modulatória sobre a organização das formas somáticas. Este trabalho está focado na identificação do “como” um determinado comportamento é organizado somaticamente.

Ajuda-se o cliente primeiro a identificar o que ele faz, qual a imagem da situação (passo 1), depois a identificar como ele faz isto através de suas organizações somáticas, intensificando volitivamente com a ajuda da musculatura estriada, discriminando os afetos, estados cognitivos e esboços motores de ação organizados (passo 2). Depois começa-se a desidentificar e desorganizar as formas previamente intensificadas (passo 3) e a observar e receber de volta os efeitos desta desorganização – imagens, sentimentos, lembranças, etc. (passo 4). A partir daí pode-se reconhecer as formas que emergem como diferenciações sobre as formas anteriores (passo 5) ou então retorna-se aos padrões anteriores.

Através deste método de trabalho, atuando diretamente sobre as formas somáticas – organizadoras da experiência subjetiva – procura-se reorganizar comportamentos, atitudes e modos de ser e ensinar uma participação volitiva do sujeito em seu processo de vida, pelo aprendizado das regras da produção somática de existência.

A clínica formativa realiza uma cartografia das formas somáticas de uma pessoa para compreender e atuar sobre:

  • Os efeitos dos acontecimentos no sujeito.
  • Os modos habituais de lidar com estes efeitos e a cristalização somática da história de vida em formas estereotipadas, em modos fixos de lidar com as situações, em atitudes padrões.
  • O estabelecimento de um autodiálogo construtivo, de uma participação volitiva para o restabelecimento do processo formativo.

A partir do reconhecimento de como a pessoa está organizando somaticamente a sua experiência, ela poderá aprender a desorganizar e reorganizar estes modos. Fazer mais e fazer menos constituem um caminho para desorganizar padrões de ação estereotipados, abrindo a possibilidade para a emergência de sensações, sentimentos e novos padrões de ação. A pessoa pode então investir volitivamente neste processo, reconhecendo padrões, desorganizando formas e investindo em formas somáticas emergentes, na intenção de criar e estabilizar novos padrões de ação.

No processo clínico formativo, assim como no trabalho diário de cada um consigo mesmo, opera-se um manejo constante com as formas somáticas utilizando-se a Metodologia dos Cinco Passos.

Cada configuração de forma somática está relacionada a diferentes experiências subjetivas. O pensamento formativo oferece uma importante ferramenta para podermos participar ativamente deste processo, dialogando com os efeitos das experiências em nossos corpos, influindo em nossos comportamentos, aprendendo a navegar no devir.

BIBLIOGRAFIA:

  • Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992
  • Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995
  • Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996

Notas:

* Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31, 2005.

**Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

Nota: O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido: 
Scarpato, A (2005). Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman, Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31. Disponível em: http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_intro.html

Observar e Aceitar para Perder o Medo de Sentir Medo

Os ataques de pânico são episódios de intensa ansiedade acompanhadas de reações corporais, pensamentos catastróficos e sentimentos de desamparo.

Geralmente, durante um ataque de pânico a pessoa imagina catastroficamente que suas reações sairão dos limites de uma simples reação emocional, transformando-se em algo muito pior como morte súbita, perda de controle irreversível, enlouquecimento etc. Apesar deste transbordamento nunca ocorrer, ele é sempre fantasiado e temido.

É como se alguém se sentisse a beira de uma abismo, podendo cair a qualquer momento, apesar de nunca cair pois este abismo é somente uma projeção do cinema 3D da mente.

Os ataques de pânico nunca ultrapassam o limite de uma forte reação emocional, não levam a loucura, não matam e sempre, sempre passam. Enquanto se teme estes cenários castróficos, se alimenta as reações de ansiedade, gerando mais ansiedade e aumentando a intolerância em sentir estas reações.

O desafio é aprender a olhar as reações no ataque de pânico como elas são, e não pelo cenário catastrófico que os pensamentos negativos imaginam que elas poderiam se tornar.

Através de práticas de atenção centrada e serena é possível encontrar a familiaridade dos ataques de pânico, nas reações que se repetem e nunca ultrapassam os limites de uma reação emocional, nem mais, nem menos.

Para isto é necessário praticar uma observação centrada e neutra da experiência interna, com uma atitude de aceitação e curiosidade. Em nossa prática começamos fortalecendo a atenção observando elementos neutros, como a respiração nas narinas, para depois de algumas semanas passar a observar os sintomas de ansiedade, mantendo a mesma atitude centrada de aceitação.

É importante que o centro da atenção – o “eu que observa” – possa se diferenciar dos pensamentos automáticos. Assim, no meio do caos de um ataque de pânico, o centro de atenção pode permanecer sereno, observando a turbulência interna, esperando ela passar, sem ser levado pelos pensamentos automáticos negativos e sem ativar o pavor de querer fugir daquele estado.

Neste processo, os ataques de pânico vão deixando de ser alimentados pelo medo de sentir medo. Com a prática desta atenção centrada e serena, os ataques de pânico vão se tornando suportáveis, diminuindo sua intensidade e deixando de ser vividos como uma ameaça de rompimento das fronteiras do eu.

por: Artur Scarpato

Flexibilizar a Atenção para Regular a Ansiedade

O processo de atenção tem relação direta com o estado emocional. Na ansiedade, a mente funciona em estado de alerta, buscando qualquer coisa que possa representar risco e ameaça, seja algo vindo do mundo externo ou de dentro do indivíduo. Neste estado, predomina uma atenção estreita e distanciadora, quando a mente tenta localizar e afastar possíveis ameaças.

Identificamos este modo de atenção nos estados de estresse crônico e nos Transtornos de Ansiedade como Síndrome do Pânico, Fobia Social e Transtorno de Ansiedade Generalizada.

O funcionamento de uma atenção estreita e distanciadora é evidente no modo com que uma pessoa com Síndrome do Pânico se relaciona com as reações em seu corpo. Ela monitora e fica aflita com o que sente, interpretando cada reação como prenúncio de um caos interno que pode eclodir a qualquer momento.

Há um estreitamento no foco de atenção – como se aquilo fosse a única coisa que importasse – e um distanciamento, no qual há uma tentativa de afastar e “se livrar” daquilo que acontece dentro de si.

Nos Transtornos de Ansiedade este modo de atenção estreita e distanciadora tende a se cronificar, contribuindo para a manutenção de um estado ansioso, alerta e tenso que não se relaxa nunca.

Assim como a ansiedade se acompanha de um modo particular de organização da atenção, a cronificação deste modo de atenção contribui para manutenção do estado ansioso.

Um caminho importante para sair do estado de ansiedade cronificado é trabalhar diretamente para flexibilizar o processo da atenção, ativando outros modos de funcionamento atencional.

Através da ativação de um modo de atenção aberto e imersivo, criamos um foco aberto de atenção que recebe e inclui as reações de ansiedade num campo atencional maior sem se fechar sobre a “ameaça”. Ao mesmo tempo, através de um modo imersivo busca-se aceitar – ao invés de afastar – o que é sentido.

Assim é possível interromper a luta contra as reações internas “perigosas” que geram tensão e mantém o aprisionamento na ansiedade. Quando se para de brigar contra os sinais da ansiedade – sejam reações físicas ou pensamentos negativos – a ansiedade diminui e retorna para os limites assimiláveis da janela de tolerância.

A mudança de um modo crônico de atenção estreita e distanciadora para um modo de atenção aberta e imersiva permite uma reorganização do padrão crônico de ansiedade. Assim se pode superar da sensação de caos iminente das crises de ansiedade e atenuar significativamente os níveis de sofrimento duradouro.

Em nosso trabalho de flexibilização dos modos de atenção utilizamos a metodologia de “Open Focus Attention Training” desenvolvidos pelo Dr Lester Fehmi, entre outros recursos.

por: Artur Scarpato

A emoção sem história e a história sem emoção: os traumas na raiz dos transtornos de ansiedade.

Numa situação traumática a mente busca se proteger através de mecanismos para limitar os efeitos caóticos da dor e do sofrimento psicológico. Um destes mecanismo é a dissociação entre emoção e cognição.

A dissociação pode permanecer por anos e a pessoa pode se lembrar do que ocorreu mas sem sentir nenhuma emoção com a lembrança. Ou ao contrário, pode ter intensas reações emocionais mas sem lembrar da situação traumática que originou estas reações.

Os traumas estão na raiz de muitos problemas psicológicos que vão se manifestar posteriormente de modos distintos e vão receber diagnósticos diferentes, apesar de sua raiz comum. Muitos casos de depressão e transtornos de ansiedade, por exemplo, derivam de experiências traumáticas. Estes traumas podem ficar aparentemente adormecidos dentro da pessoa até serem ativados por experiências posteriores que reverberam aquela mesma problemática e disparam uma nova expressão para o sofrimento.

Quando vamos investigar casos de fobia social, por exemplo, comumente vemos que a emoção atual de ansiedade é uma reativação de emoções de experiências traumáticas que estavam dissociadas, como experiências traumáticas de humilhação, vergonha, bullying, rejeição etc.

Em casos de Síndrome do Pânico e Agorafobia frequentemente encontramos experiências traumáticas de violência, perda, abandono, separação etc.

A experiência emocional dissociada permanece em segundo plano como combustível alimentando os sintomas atuais.

Nos casos mais difíceis, que respondem mais lentamente ao tratamento, traumas complexos do passados tem presença importante. O sofrimento atual não pode ser totalmente resolvido enquanto não se integra as experiências traumáticas cindidas. Conforme avançamos no processo psicoterapêutico, os elementos cindidos voltam a se integrar, a memória emocional se conecta com a memória narrativa do que foi vivido.

A integração entre a história de vida e a reação emocional – entre cognição e emoção – é que vai permitir a pessoa superar seu sofrimento atual, sua depressão, sua fobia, seu pânico, seu trauma.

Tratamento Psicológico como Primeira Opção

A Psicologia tem evoluído significativamente no desenvolvimentos de técnicas e abordagens com eficácia comprovada no tratamento de diferentes problemas mentais. Um fato importante que ilustra esta evolução ocorreu na Inglaterra no ano passado.

No início de 2014, o Instituto Nacional para a Saúde e Excelência em Cuidados (NICE, em inglês), órgão oficial do governo inglês, publicou as novas diretrizes para o tratamento de vários transtornos mentais. A partir de agora, para diversos transtornos mentais, o tratamento psicológico é a primeira opção de tratamento, tendo precedência sobre os tratamentos medicamentosos.

Segundo o NICE, entre os transtornos que devem ser tratados preferencialmente com tratamento psicológico estão todos os Transtornos de Ansiedade como Pânico, Fobia Social, Estresse Pós Traumático, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtorno Dismórfico Corporal.

Esta é uma mudança importante, reconhecendo o avanço das teorias e técnicas desenvolvidas nas últimas décadas. Os resultados positivos dos tratamentos psicológicos se mostram cada vez evidentes e consistentes, tornando-se agora o tratamento padrão para os transtornos de ansiedade.

É importante que cada vez mais pessoas na população possam se beneficiar destes avanços nas técnicas psicológicas e que um contingente maior de psicólogos possam ser treinados nestas abordagens eficazes.

Você pode ler o anúncio das novas diretrizes do NICE para os Transtornos de Ansiedade (em inglês) aqui.

Pânico, Excitação Fisiológica e Sentimentos Profundos

Toda pessoa com um Transtorno de Ansiedade como o Transtorno do Pânico costuma apresentar hipersensibilidade a ansiedade, que é um processo de intolerância na qual as reações físicas ou psicológicas que acompanham a ansiedade são vividas de modo aflitivo e interpretadas como perigosas.

É comum o sujeito ficar com medo e aflito com sua excitação fisiológica como batimentos cardíacos, sensações respiratórias, tremores, suor, tontura etc. Esta “hipersensibilidade” leva a tentativas de se livrar das reações ou a se tentar tudo evitar senti-las novamente, como se elas fossem terríveis, abomináveis. Há um aprisionamento num processo de aflição – evitação.

As reações corporais temidas despertam ansiedade e pensamentos negativos sobre o que se sente. Porém a ansiedade gera mais reações físicas e estas levam a mais pensamentos negativos, num redemoinho sem fim. A pessoa fica aprisionada, tentando evitar o inevitável, pois junto da emoção de ansiedade – assim como de qualquer emoção – sempre haverá excitação fisiológica.

Algumas abordagens de tratamento tentam calar esta voz do corpo, com medicações excessivas ou “técnicas de controle da ansiedade”. No entanto quanto mais se tenta abafar a voz do corpo, mais ele se revolta e grita, pois não se pode calar aquilo que a própria atitude de aversão e medo estão acentuando. Não se vence o medo com mais medo.

Há um caminho terapêutico. É necessário construir uma atitude de enfrentamento do que se sente. Esta nova atitude começa com o cultivo da atenção plena, do claro entendimento e da força interna para fazer a travessia necessária. Este enfrentamento é mais fácil quando feito através de uma estratégia terapêutica planejada e apoiada numa relação profissional de confiança.

Devemos frisar que o cerne do problema da insegurança e ansiedade não está naquelas reações do corpo. A raiz do problema está em sentimentos de desamparo e vulnerabilidade que tem raízes em traumas vividos em outros momentos da vida.

É neste ponto mais profundo que precisamos chegar para que a pessoa enfrente dores que no passado foram intoleráveis, angústias que não podiam ser nomeadas e seus grandes desafios existenciais. Estes elementos agora poderão ser reencontrados, elaborados, assimilados e integrados, permitindo que a pessoa possa se transformar para seguir mais plena em sua vida.

Enquanto não fizer a travessia do enfrentamento das reações superficiais de ansiedade, a pessoa pode ficar anos de sua vida vivendo de modo limitado, com medo das reações físicas, achando que controlar o corpo é suficiente para ficar bom, enquanto o problema está num lugar mais profundo.

É necessário mirar e atingir o alvo certo para evitar o desperdício de tempo, de anos de vida em lutas improdutivas.

O lado positivo da ansiedade

A ansiedade não é boa nem ruim. É uma emoção, um estado mental e corporal que se ativa sempre que nossa mente avalia uma situação como tendo riscos potenciais. O disparador pode ser o pressentimento de algo incerto ou a antecipação de uma situação futura temida.

Há um lado positivo na ansiedade. Podemos imaginar, por exemplo, a ansiedade que antecede uma apresentação numa reunião de trabalho ou a participação numa competição esportiva. A ansiedade tem um papel relevante na preparação para o enfrentamento destas situações, ativando a máxima utilização dos recursos internos para um bom desempenho.

Pouca ansiedade poderia levar a uma atitude de negligência e a uma preparação insuficiente para se obter bons resultados.

Um grau ótimo de ansiedade, por seu lado, ativa um estado de alerta e prontidão adequados, preparando a pessoa para lidar bem com desafios que podem se apresentar.

Quando a ansiedade é excessiva, por outro lado, pode haver paralisia, descontrole e comprometimento da performance.

Geralmente o excesso de ansiedade decorre de se exagerar na avaliação dos riscos envolvidos e de se subavaliar os recursos internos para se lidar com a situação. Outro fator importante para uma experiência de ansiedade excessiva é quando a pessoa está ansiosa mas acredita que “deveria” estar calma. Por não aceitar e não tolerar sentir ansiedade ela passa a entrar em conflito, a brigar com o que está sentindo e acaba ficando ainda mais ansiosa.

É fundamental aprender a tolerar certo nível de tensão e ansiedade que é natural em qualquer situação desafiadora.

Aprender a lidar com a ansiedade e saber agir sob seu efeito é um recurso importante para se obter bons resultados nas diversas situações da vida.

Remover a Espuma para Chegar a Raiz da Dor

Há um caminho terapêutico eficiente na terapia dos Transtornos de Ansiedade, como a Síndrome do Pânico (Transtorno do Pânico) e a Fobia Social.

Quando se sente ansiosa, a pessoa fica aflita e vive lutando contra com o que sente – os sintomas da ansiedade – como se estes fossem sinais de um perigo iminente.

Porém, quanto mais alguém luta contra a ansiedade, mais ansioso se sente, mais sintomas tem, e logo mais ameaçado vai se sentir por aquele estado que tenta evitar. Esta batalha contra a ansiedade é uma batalha fracassada.

O verdadeiro caminho de recuperação é oposto e até contra-intuitivo. A pessoa quer se afastar do que sente, mas o que realmente ajuda é aprender o modo certo de se aproximar da experiência ansiosa.

Primeiro, é necessário perder o medo das reações corporais. Reações que acompanham um ataque de ansiedade como taquicardia, falta de ar e tontura são desconfortáveis, mas não precisam ser vividos como perigosos.

Geralmente a pessoa vive estas reações como alarmantes e desesperadoras, acompanhadas de pensamentos automáticos negativos de que poderiam trazer consequências catastróficas. Esta aversão e medo precisam ser transformados. Há estratégias e técnicas para isto.

Por exemplo, através de técnicas de exposição gradual às reações corporais temidas é possível transformar a relação com estas sensações e aumentar a tolerância a ansiedade. Este processo pode começar com um treino onde se aprende a observar os sinais da ansiedade sem tentar controlá-los. Observar e aceitar.

Depois se parte para técnicas que produzem – gradualmente – aquelas reações temidas. Este processo gradual e controlado vai produzindo uma reaprendizado sobre a ansiedade e todas as reações corporais concomitantes.

Após esta etapa de exposição interoceptiva – exposição as sensações corporais – há um aumento significativo na tolerância aos sintomas da ansiedade, geralmente com uma diminuição significativa na ocorrência de ataques de ansiedade.

Porém, nesta etapa, os ataques continuam a ocorrer esparsamente e a pessoa ainda se sente um pouco vulnerável e insegura. Neste momento intermediário da terapia vamos partir para um mergulho mais profundo nas fontes reais das crises de ansiedade.

Quando não são mais as reações do corpo que ameaçam, chegamos mais próximos das raízes das crises de ansiedade: a ameaça trazida por estados psicológicos profundos de vulnerabilidade. Estes estados são compostos de sentimentos antigos e experiências intoleráveis que não foram bem assimiladas. Através de técnicas específicas, é possível ir se aproximando destas experiências, onde comumente encontrarmos sentimentos profundos de abandono, solidão, fragilidade, desamparo, fracasso etc.

O caminho terapêutico de superação está em ajudar a pessoa a entrar gradualmente em contato com aquelas experiências emocionais. Aquilo que era estranho, indizível e insuportável, vai podendo ser experienciado, nomeado e tolerado.

Assim como foi necessário aprender a tornar as reações corporais suportáveis, agora é a vez de tornar suportáveis os estados emocionais e dores psicológicas mais profundas, para que a aproximação destes deixem de disparar reações intensas de ansiedade.

Sempre que estas experiência profundas ameaçavam surgir, o sujeito se assustava com as primeiras reações em seu corpo, sendo enredado por uma espuma de sofrimento superficial que não lhe deixava entrar na raiz mais profunda do problema. Precisamos remover a espuma do medo das reações corporais para ajudar o sujeito a confrontar suas angústias profundas e assim se libertar das crises de ansiedade.

Para percorrer este caminho precisamos de um processo estruturado. Nisto reside a eficácia de um tratamento especializado.

por Artur Scarpato.

O Corpo como Lar

As crises de ansiedade produzem uma turbulência corporal: aceleração cardíaca, tremores, falta de ar, suor frio, boca seca, tontura…o corpo parece dominado pelo caos.

Sentindo-se ameaçada, a pessoa vive alerta, monitorando o que sente, torcendo para que seu corpo fique “quieto”. Este medo das sensações corporais acentua tendências de dissociação, onde as reações corporais perdem sua conexão com as emoções e sentimentos e são vividas como estranhas e ameaçadoras.

Assim dissociada, a pessoa vê o que acontece de modo catastrófico. Ao invés de expressão da emoção, aquelas reações corporais são interpretadas de modo distorcido, como indícios de uma catástrofe iminente. Esta visão negativa aumenta a ansiedade, intensificando ainda mais as reações corporais.

É comum um alerta e um constante monitoramento do corpo, com certo desejo de “sair do corpo”, de não sentir mais nada. Instala-se um conflito interno e um medo das sensações e experiências somáticas.

Apesar do desejo de não sentir, de se afastar do corpo, o caminho que precisa ser seguido é o oposto, de habitar o corpo e voltar-se para o que se sente com uma nova atitude.

A atitude necessária é de aceitação do desconforto da experiência ansiosa. Assim se cria maior tolerância para o sentir, com menos medo das reações internas.

Toda técnica que ajude a observar as reações corporais – agradáveis ou desagradáveis – ajuda no processo de reconectar-se a experiência do corpo como fonte das experiências internas.

A sintonia interna com a experiência somática é fundamental para que os sintomas de ansiedade deixem de representar uma ameaça.

Identificada com o corpo, portanto menos dissociada, a pessoa vai aumentando sua tolerância as reações de ansiedade e vai aumentado suas experiência positivas.

Enraizar-se na experiência somática é um norte que deveria orientar os tratamentos dos transtornos de ansiedade.