Destravar o Estado de “Fuga sem Saída”.

As sensações de uma crise de pânico são como a de se sentir ameaçado mas sem escapatória. Há ativação de repostas corporais de fuga mas ao mesmo tempo há paralisia, gerando uma sensação de aprisionamento, impotência e desespero.

Neste estado “travado”, de fuga sem saída, a mente se projeta para o futuro, imaginando consequências catastróficas: vou morrer, vou enlouquecer, vou perder o controle… A imaginação de um cenário trágico futuro ativa ainda mais respostas de ansiedade, num corpo que já está congelado numa mistura de urgência de fuga com desorientação e paralisia.

O primeiro passo é poder identificar o que acontece através de uma auto-observação que aceita o que ocorre dentro de si. Não há um perigo real, mas um sensação de medo travado, que não consegue escapar, que não consegue avançar nem fugir. É importante aprender como este estado interno não é perigoso, para que assim se pare de gerar mais ansiedade com os pensamentos catastróficos negativos.

Em seguida deixamos de lado os pensamentos negativos e nos voltamos para as respostas somáticas. Através da atenção ao que acontece no corpo, buscamos acolher as reações, regular os estados internos e destravar o medo paralisante. É importante identificar e completar, mesmo que na imaginação, respostas somáticas inacabadas de fuga como correr, empurrar, desviar, gritar, chorar etc. Assim as respostas somáticas incompletas vão encontrando solução e o estado emocional ativado de ameaça vai se dissolvendo.

A pessoa com pânico se sente aprisionada numa reação de medo “inescapável”, o que gera um forte sentimento de impotência e confusão. Para sair disto, precisamos reconhecer, aceitar, regular e liberar o estado congelado de fuga sem saída.

por Artur Scarpato

PÂNICO SEM PÂNICO: A PREPARAÇÃO PARA LIDAR COM AS CRISES DE PÂNICO

As crises de pânico – ou ataques de pânico – podem ser experiências traumáticas. A pessoa ficou traumatizada pelo modo como viveu a crise de pânico, com uma sensação de desorientação, descontrole e catástrofe iminente. A partir deste trauma ela passa a viver com uma expectativa ansiosa de ter uma nova crise de pânico, com medo de sentir o descontrole e o terror que sentiu daquela vez, acentuado por fantasias catastróficas de que a próxima crise pode ser ainda pior.

Neste estado traumatizado, qualquer reação interna parece indicar um possível retorno do monstro, daquela experiência tão temida.

A visão do futuro fica limitada pelo trauma passado, um tormento constante de monitoramento das reações do corpo e pensamentos catastróficos, deixando a pessoa sentindo-se sempre vulnerável. Qualquer sinal do corpo parece indicar o surgimento daquela ameaça terrível.

O desafio para quem tem pânico é se preparar para lidar com as crises. As primeiras crises se tornaram traumáticas por pegarem a pessoa desprevenida e despreparada, levando-a um estado de pavor e pânico. Para interromper a repetição das crises de pânico, é necessário uma preparação, com uma nova atitude para enfrentar as ondas de ansiedade.

É importante aprender a ficar mentalmente presente e observar as reações de ansiedade exatamente como elas realmente acontecem e não como a mente fantasia que elas possam se tornar. Esta diferença é essencial. Estar preparado para observar as reações de ansiedade no presente, e não, a olhar as reações esperando o pior – um futuro que seja repetição do passado traumático.

Quando sente os primeiros sintomas, o trauma das primeiras crises deixa a pessoa com medo do que possa vir. Ela não fica presente, observando o que sente, mas começa a imaginar o pior cenário e assim gera mais ansiedade, se apavorando com o que sente e perpetuando o ciclo das crises de pânico.

Quando se consegue realmente a aceitar as reações de ansiedade, torna-se possível viver as crises sem medo, sem pavor, aceitando o desconforto, sem se deixar levar pelos pensamentos catastróficos. Na verdade nunca houve uma catástrofe real, mas uma experiência emocional intensa de medo e desorientação nas primeiras crises, que deixaram a pessoa com pavor de que aquilo pudesse se repetir ou se transformar em algo ainda pior.

A partir do momento que se sabe o que é uma crise de pânico, que se consegue ficar presente no centro da consciência observando as reações, é possível atravessar qualquer “crise de pânico” sem entrar em pânico, sem se apavorar.

Este é o verdadeiro estado de Pânico sem Pânico. A partir daí as crises de pânico vão desaparecendo, interrompendo assim seus ciclos automáticos.

Através de uma psicoterapia especializada fazemos um treinamento formal com técnicas específicas, preparando a pessoa para lidar e superar suas crises de pânico.

Observar e Aceitar para Perder o Medo de Sentir Medo

Os ataques de pânico são episódios de intensa ansiedade acompanhadas de reações corporais, pensamentos catastróficos e sentimentos de desamparo.

Geralmente, durante um ataque de pânico a pessoa imagina catastroficamente que suas reações sairão dos limites de uma simples reação emocional, transformando-se em algo muito pior como morte súbita, perda de controle irreversível, enlouquecimento etc. Apesar deste transbordamento nunca ocorrer, ele é sempre fantasiado e temido.

É como se alguém se sentisse a beira de uma abismo, podendo cair a qualquer momento, apesar de nunca cair pois este abismo é somente uma projeção do cinema 3D da mente.

Os ataques de pânico nunca ultrapassam o limite de uma forte reação emocional, não levam a loucura, não matam e sempre, sempre passam. Enquanto se teme estes cenários castróficos, se alimenta as reações de ansiedade, gerando mais ansiedade e aumentando a intolerância em sentir estas reações.

O desafio é aprender a olhar as reações no ataque de pânico como elas são, e não pelo cenário catastrófico que os pensamentos negativos imaginam que elas poderiam se tornar.

Através de práticas de atenção centrada e serena é possível encontrar a familiaridade dos ataques de pânico, nas reações que se repetem e nunca ultrapassam os limites de uma reação emocional, nem mais, nem menos.

Para isto é necessário praticar uma observação centrada e neutra da experiência interna, com uma atitude de aceitação e curiosidade. Em nossa prática começamos fortalecendo a atenção observando elementos neutros, como a respiração nas narinas, para depois de algumas semanas passar a observar os sintomas de ansiedade, mantendo a mesma atitude centrada de aceitação.

É importante que o centro da atenção – o “eu que observa” – possa se diferenciar dos pensamentos automáticos. Assim, no meio do caos de um ataque de pânico, o centro de atenção pode permanecer sereno, observando a turbulência interna, esperando ela passar, sem ser levado pelos pensamentos automáticos negativos e sem ativar o pavor de querer fugir daquele estado.

Neste processo, os ataques de pânico vão deixando de ser alimentados pelo medo de sentir medo. Com a prática desta atenção centrada e serena, os ataques de pânico vão se tornando suportáveis, diminuindo sua intensidade e deixando de ser vividos como uma ameaça de rompimento das fronteiras do eu.

Pânico, Excitação Fisiológica e Sentimentos Profundos

Toda pessoa com um Transtorno de Ansiedade como o Transtorno do Pânico costuma apresentar hipersensibilidade a ansiedade, que é um processo de intolerância na qual as reações físicas ou psicológicas que acompanham a ansiedade são vividas de modo aflitivo e interpretadas como perigosas.

É comum o sujeito ficar com medo e aflito com sua excitação fisiológica como batimentos cardíacos, sensações respiratórias, tremores, suor, tontura etc. Esta “hipersensibilidade” leva a tentativas de se livrar das reações ou a se tentar tudo evitar senti-las novamente, como se elas fossem terríveis, abomináveis. Há um aprisionamento num processo de aflição – evitação.

As reações corporais temidas despertam ansiedade e pensamentos negativos sobre o que se sente. Porém a ansiedade gera mais reações físicas e estas levam a mais pensamentos negativos, num redemoinho sem fim. A pessoa fica aprisionada, tentando evitar o inevitável, pois junto da emoção de ansiedade – assim como de qualquer emoção – sempre haverá excitação fisiológica.

Algumas abordagens de tratamento tentam calar esta voz do corpo, com medicações excessivas ou “técnicas de controle da ansiedade”. No entanto quanto mais se tenta abafar a voz do corpo, mais ele se revolta e grita, pois não se pode calar aquilo que a própria atitude de aversão e medo estão acentuando. Não se vence o medo com mais medo.

Há um caminho terapêutico. É necessário construir uma atitude de enfrentamento do que se sente. Esta nova atitude começa com o cultivo da atenção plena, do claro entendimento e da força interna para fazer a travessia necessária. Este enfrentamento é mais fácil quando feito através de uma estratégia terapêutica planejada e apoiada numa relação profissional de confiança.

Devemos frisar que o cerne do problema da insegurança e ansiedade não está naquelas reações do corpo. A raiz do problema está em sentimentos de desamparo e vulnerabilidade que tem raízes em traumas vividos em outros momentos da vida.

É neste ponto mais profundo que precisamos chegar para que a pessoa enfrente dores que no passado foram intoleráveis, angústias que não podiam ser nomeadas e seus grandes desafios existenciais. Estes elementos agora poderão ser reencontrados, elaborados, assimilados e integrados, permitindo que a pessoa possa se transformar para seguir mais plena em sua vida.

Enquanto não fizer a travessia do enfrentamento das reações superficiais de ansiedade, a pessoa pode ficar anos de sua vida vivendo de modo limitado, com medo das reações físicas, achando que controlar o corpo é suficiente para ficar bom, enquanto o problema está num lugar mais profundo.

É necessário mirar e atingir o alvo certo para evitar o desperdício de tempo, de anos de vida em lutas improdutivas.

Do estado reativo de alerta ao estado receptivo de abertura

Uma pessoa cronicamente ansiosa vive em estado de alerta, em estado de ameaça, preparada para que algo possa dar errado.

A pessoa vive num estado reativo, um estado de prontidão para responder ansiosamente a partir de padrões cristalizados no passado. Por exemplo, para uma pessoa com Transtorno do Pânico qualquer estímulo interno pode reativar a ansiedade de uma possível crise de pânico. Para uma pessoa com Transtorno de Estresse Pós Traumático, uma situação pode reativar emoções intensas de traumas vividos. Para uma pessoa com Transtorno de Ansiedade Generalizada, a vida é sempre imaginada como carregada de riscos, ameaças e problemas.

Neste estado de alerta há pouca abertura para experiências novas. A pessoa vive em predisposição para o perigo, onde as experiências facilmente disparam ansiedade, pensamentos negativos e reações fisiológicas de estresse.

Estes padrões cristalizados de alerta e ansiedade tornam a vida da pessoa uma sucessão de experiências repetitivas e carregadas de sofrimento, acompanhadas de uma tendência a comportamentos de recuo e evitação.

É importante sair deste estado reativo e aprisionante e caminhar para um estado receptivo. Enquanto o estado reativo é de repetição automática de padrões (de alerta, de ameaça, de luta e de fuga), o estado receptivo é um estado de abertura ao novo, onde o encontro com o que se apresenta pode despertar respostas inéditas, diferentes do padrão habitual. No estado recetivo há disponibilidade para os encontros e maior clareza na percepção da realidade.

Mas como caminhar de um estado reativo para um estado receptivo?

Precisamos de práticas diárias, o método que realmente funciona para mudanças desta natureza, técnicas praticadas com constância. Precisamos criar presença, trabalhando a mudança do eu centrado no pensamento (eu que pensa) para o eu centrado na experiência (eu que observa).

Como a pessoa ansiosa é escrava dos cenários futuros negativos que sua mente cria, criar presença afeta duas questões centrais:

1 – ajuda a pessoa a parar de sofrer por antecipação

2 – a coloca em contato com aquilo que ela realmente precisa começar a tolerar, sejam suas reações corporais ou os sentimentos de abandono e desamparo.

Criar presença é um passo fundamental para desativar o estado de alerta e entrar no estado receptivo, estar presente na vida.

O ataque de pânico e o sofrimento dos bebês

As pessoas que têm ataques de pânico relatam um sentimento de desamparo e desespero profundos. Elas se sentem a deriva, sem controle, com a sensação de catástrofe iminente.

Esta experiência é tida como estranha pela maioria das pessoas adultas, que não tem lembrança consciente desta experiência.

O que a observação clínica sugere é que a experiência vivida numa crise de pânico possa ter um parentesco com experiências vividas em idade precoce, pelos bebês.

O bebê é totalmente dependente da mãe. Sem a mãe, ou alguém que a substitua, o bebê morreria. Morreria por falta de alimento, por exemplo.
Quando o bebê precisa da mãe e esta se ausenta o bebê chora. Este choro que “chama” a mãe, pode transformar-se num choro de desespero, caso a mãe demore a voltar para aliviar o sofrimento que consome o bebê.

Esta resposta emocional intensa pode estar impressa no cérebro emocional desde tempos remotos, quando habitávamos as savanas africanas. A ausência prolongada da mãe poderia representar o destino fatal de ser deixado para trás, ser devorado pelos predadores ou morrer de inanição.

Este sofrimento é intenso, desesperador e provavelmente incompreensível para o bebê (investigar o que passa na mente dos bebês é uma das áreas mais interessantes de pesquisa em Psicologia).

A sensação de desamparo e desespero vividas por alguém que tem uma crise de pânico parece ter algumas semelhanças com esta experiência do bebê.
O adulto logo busca um sentido para seu sofrimento e sua mente é povoada de interpretações catastróficas para o que vive: estou tendo um ataque cardíaco, vou morrer, vou desmaiar, etc. Quanto mais acredita nestes pensamentos negativos, mais fica ansioso e se desespera.

O que pessoa precisa é aprender a suportar este desamparo, esta angústia sem nome e sem sentido que a toma. Se para o bebê este estado poderia representar a morte, para o adulto em pânico poderia significar um grande sofrimento, porém passageiro e para o qual vai aprendendo a tornar-se cada vez mais tolerante.

O cineasta do terror em nossa mente

A pessoa ansiosa vive tomada de preocupações, expectativas sobre algum perigo que ronda, algo que possa dar errado, que ela possa passar mal… Sua mente é produtora de pensamentos e imagens em série que antecipam perigos e criam cenários catastróficos.

A pessoa vive voltada para o futuro, interpretando os dados atuais como indicadores potenciais de que algo possa dar errado, sair do controle, iniciar algum processo caótico…

Em sua mente começa a se projetar um filme com cenários catastróficos. Longe do momento presente e atenta a este filminho, a pessoa “sofre por antecipação”. Ela ainda não entrou no avião mas já sofre com a idéia de que pode passar mal lá dentro e não tenha como sair. Estando ainda em casa a pessoa sofre ao se imaginar passando mal na frente dos colegas na reunião do escritório. Temendo ter uma crise de pânico a pessoa evita sair e expor-se.

A projeção de cenários de perigo leva a um sofrimento antecipado e a comportamentos de evitação.

Muitas destas expectativas derivam do receio de repetir algum episódio de ansiedade vivido, um medo de repetir um trauma. Porém é comum que a pessoa exagere muito nesta expectativa imaginando que o resultado pode ser muito pior do que foi na última vez…

É importante se diferenciar deste cineasta do terror que cria tantos filmes mentais com enredos e cenários assustadores, deixando o sujeito em estado de sobressalto e ansiedade frequentes.

Enfrentar o medo, mas gradualmente

Uma das características típicas de uma pessoa com um transtorno ansioso é o comportamento de evitação. Por exemplo, uma pessoa com Transtorno do Pânico vai evitar situações onde imagina que possa passar mal ou vai evitar fazer algo que lhe traga alguma sensação corporal temida, uma pessoa com fobia vai evitar a proximidade com aquilo que é objeto de seu temor, uma vítima de estresse pós traumático vai evitar algum estímulo associado ao evento traumatizante, etc.

O comportamento de evitação tem uma função protetora, de buscar prevenir um sofrimento. Porém, ao longo do tempo este comportamento traz um forte revés por manter a pessoa com o medo, impedindo-a de transformar aquela memória emocional que associa uma sensação corporal, um objeto ou uma situação social a perigo.

A evitação acaba tendo um efeito deletério de potencializar e manter o medo, pois a cada evitação aquilo que é temido – seja algo fora ou a própria reação interna de ansiedade – é reforçado na mente como algo ameaçador e que deve ser evitado.

Portanto, para que a pessoa possa superar um transtorno de ansiedade é importante desenvolver comportamentos de enfrentamento, com exposição ao que é temido. Através deste processo ocorre possibilidade de aprendizado e transformação deste padrão ansioso e evitador.

Porém é muito importante frisar que o processo de exposição deve ser gradual, aumentando progressivamente a tolerância da pessoa aos graus crescentes de ansiedade.

Podemos imaginar uma pessoa traumatizada que não entra na água pois tem pavor de se afogar. Simplesmente jogá-la no meio de uma piscina funda não é um bom modo de ajudá-la a perder este medo. Ao contrário, esta experiência pode ter o efeito de retraumatização, aumentando ainda mais o medo e a resistência à mudança.

É comum uma pessoa com Pânico ter medo de sair sozinha e ter uma crise. Muitas vezes a família e os amigos insistem que ela saia sozinha e enfrente seus medos de frente, que seja forte e corajosa. O conselho é bem intencionado, porém desconsidera os riscos de retraumatização.

A exposição à situação temida deve ser gradual, em passos mais lentos, com avanços e recuos, com o tempo necessário para desenvolver:

– habituação às reações internas (emocionais e corporais),
– desenvolvimento da auto-regulação
– superação das associações traumáticas
– diferenciação das cognições negativas

Este processo de exposição gradual e controlado é que ajuda a superar as ansiedades que deixavam a pessoa paralisada, muitas vezes por anos.

A exposição gradual é uma das estratégias e etapas de um tratamento psicológico especializado para Transtornos de Ansiedade.

Do Controle à Confiança

A ansiedade deriva de um sentimento de vulnerabilidade. Estar ansioso indica que me sinto sob alguma ameaça. O perigo/ameaça pode vir de dentro ou de fora de mim, pode ser um estado interno que eu não dou conta ou uma situação que oferece alguma ameaça para mim.

No estado de ansiedade este perigo é indefinido, mas vai ganhando contornos visíveis na consciência e vai virando medo: medo de morrer, medo de ter uma doença grave, medo de passar mal, etc. A ansiedade – emoção indefinida – tende a virar medo – emoção definida.

Há uma antítese entre confiança e controle. Quanto menor a confiança maior a busca de controle. Quanto maior a tentativa de controle, menor o sentimento de segurança e confiança.

O problema é que a atitude controladora vai levando a uma insegurança cada vez maior, pois as coisas, tanto de fora como de dentro de nós, sempre teimam em escapar ao controle. Quando percebemos já estamos reagindo a algo, nosso corpo já se apresenta agitado, o medo já está agindo dentro de nós, a emoção já se instalou. E o mesmo acontece com as preocupações, os pensamentos ruminativos, as lembranças intrusivas… como temos pouco controle de nós mesmos.

O eu, o ego é só uma película que fica entre um mundo grande fora de nós e um mundo grande dentro de nós. Nesta película está nossa pequena consciência, da qual temos um controle só parcial e num território menor ainda está aquilo que podemos controlar. O caminho não está em aumentar o controle, mas em buscar diálogos e harmonia, harmonia com o mundo externo e harmonia com o mundo interno.

Assim frente a ansiedade, uma emoção que sinaliza que nos sentimos vulneráveis, precisamos (1) observar e aceitar a emoção e (2) buscar as razões e disparadores desta emoção-sinal.

O que está nos ameaçando? Uma ameaça real? Uma avaliação equivocada de nossa capacidade de lidar? Uma catastrofização que exagera a avaliação negativa das consequências de um evento? A repetição de um trauma que não nos abandona?

Aceitar a ansiedade e rever seus disparadores vai permitindo que ela vá se assentando em dimensões menos sofridas, vai nos harmonizando com os mundos de fora e de dentro, vai potencializando a confiança e diminuindo a atitude de controle.

Do "eu que pensa" ao "eu que observa"

A ansiedade é uma emoção voltada para o futuro. O corpo da pessoa está presente, mas sua mente está voltada para o futuro, esperando que algo de ruim aconteça.

A pessoa fica dividida: parte dela está presente e parte dela está se projetando para frente, num cenário construído mentalmente cheio de incertezas, perigos, etc.

Toda pessoa que apresenta algum transtorno ansioso (Transtorno do Pânico, Fobias, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno Obsessivo Compulsivo, etc) vive esta divisão interna, com forte projeção mental no futuro, mesmo que num futuro próximo, criando na mente cenários que fazem a pessoa sofrer intensa e constantemente por antecipação: “vou passar mal”, “vou ter aquilo de novo”, “vou morrer”, “vai dar errado”, etc.

Caso a pessoa conseguisse mergulhar em seu momento presente, a ansiedade tenderia a diminuir dramaticamente, ou mesmo se dissolver. Quando a mente retorna para as pre-ocupações com o futuro, a ansiedade reaparece.

Um primeiro modo de se fazer presente é se observar, se perceber, mesmo estando mentalmente preocupado com o futuro.

Então, feche os olhos e observe seus pensamentos. Dedique alguns minutos a isto.

Os pensamentos no estado ansioso geralmente seguem padrões repetitivos, manifestando preocupações – “estou passando mal”, “devo ter uma doença séria”, “aquilo vai acontecer de novo”, “e se der errado” etc – criando cenários catastróficos, levando você a se sentir cada vez mais ansioso. Estes pensamentos automáticos negativos mantém a ansiedade ali, te consumindo.

Desenvolver o “eu que observa”

Apenas observe e comece a aprender sobre você e seu funcionamento mental. Comece a perceber como há automatismos de pensamento que dominam sua mente e levam você a se sentir cada mais ansioso.

Durante o exercício não tenha pressa e não espere nenhum resultado imediato. A pressa é um sinal de quem está voltado mentalmente para o futuro e seu objetivo agora é enraizar sua presença no agora, numa atitude de espectador e de não identificação com os pensamentos. Não se preocupe de tentar parar ou mudar os pensamentos, mas reconhecer estes automatismos que eternizam sua ansiedade. A meta agora é de reconhecimento/aceitação e não de controle.

Você vai começar a perceber que o perigo não está no aqui e agora, mas é cultivado através destes pensamentos negativos e catastróficos. Você pode perceber que surgem em sua mente pensamentos de julgamento e controle: “eu não deveria estar sentindo isto”, “meu coração não está normal”, “isto não deveria estar acontecendo”, etc

Quando você sai da identificação com o “eu que pensa” e passa a centrar sua consciência no “eu que observa””, você começa a enfraquecer estes padrões automáticos de pensamnto, retira parte de sua energia e começa a criar uma nova experiência interna. Este é um primeiro passo.

Sensibilidade à Ansiedade: o medo do medo

Um fator comum nas pessoas que apresentam um Transtorno de Ansiedade (Pânico, Fobias, etc. ) é a Sensibilidade à Ansiedade (Anxiety Sensitivity, em inglês).

A Sensibilidade à Ansiedade é o medo dos sintomas decorrentes da ansiedade, assim como a crença de que esses sintomas possam produzir danos psicológicos, físicos ou sociais.

Geralmente estes medos agrupam-se em três dimensões:
1) medo dos sintomas físicos (taquicardia, tontura, mãos úmidas, etc)
2) medo de descontrole mental
3) medo que os sintomas possam ser vistos pelos outros

Pesquisas apontam que as pessoas que apresentam índices altos em testes de Sensibilidade à Ansiedade terão uma probabilidade maior de vir a desenvolver um Transtorno de Ansiedade. Ou seja, a Sensibilidade a Ansiedade pode preparar o terreno para algumas pessoas desenvolverem um Transtorno de Ansiedade.

Este traço de Sensibilidade à Ansiedade parece ser desenvolvido ao longo da vida, através de algumas experiências como:

(1) experiências pessoais difíceis como doença, acidente ou perdas
(2) contato com o sofrimento de outras pessoas, que adoeceram ou morreram, por exemplo.
(3) contato com pessoas próximas que tinham medo das sensações corporais, medo de ficar doente, etc.
(4) ter sido criado por pais que apresentavam excessivo cuidado, com ansiedade e superproteção relacionados ao bem estar físico.

É importante ajudar a pessoa a ir superando este medo das reações de ansiedade, aumentando a tolerância ao que sente e aumentando a confiança em si mesma.

Deixar vir, uma atitude a ser conquistada

A crise de pânico parece uma ameaça de ruptura interna, onde o “eu” é invadido por forças que o ultrapassam. O “eu” é aquilo com que me reconheço e me identifico, minha identidade, meu pensamento e meu corpo, como eu habitualmente os reconheço, dentro de certos padrões de estabilidade e funcionamento.

De repente as reações que brotam em mim parecem descontroladas, o coração começa a bater sem razão, as mãos gelam, a mente produz pensamentos catastróficos, e eu não tenho mais controle…

Eu fico como um barco à deriva numa tempestade de ondas gigantes, descontrolado, inundado, podendo virar e afundar a qualquer momento; não há nada que eu possa fazer, nem um lugar seguro onde eu possa ficar. É o estado de pânico puro.

Com a repetição destas experiências, a tolerância da pessoa às suas reações corporais vai diminuindo, ela passa a temer cada vez mais as reações em seu corpo, começa a monitorar cada sensação diferente como possível sinal de perigo e a evitar fazer coisas que possam causar reações temidas. Inicia-se assim um processo de restrição, limitação progressiva e perda de segurança.

O processo de superação deste estado de insegurança está em (1) compreender melhor as reações que estão ocorrendo para se deixar de tentar (impotentemente) lutar contra as ondas e (2) gradativamente, aumentar a tolerância a estas reações do corpo para que a pessoa possa aprender a conviver com certo grau de descontrole sem acreditar erroneamente que este estado vai levá-la ao colapso. Quanto mais a pessoa teme suas reações, quanto mais se desespera pela falta de controle, mais ansiosa fica e consequentemente maiores serão as reações em seu corpo. É a luta contra o descontrole e o entrar em desespero pelo que está ocorrendo que criam um estado mais caótico dentro de si.

Deixar vir, esta é uma atitude a ser conquistada.

Na verdade, a tempestade da crise de pânico não é capaz de “virar o barco”, apesar da pessoa acreditar piamente, durante uma crise, que seu barco está afundando.

Enraizar a presença no aqui e agora

O estado mental da pessoa ansiosa é caracterizado por flutuações no processo de atenção. A atenção passa a oscilar entre estados de dispersão e estados de preocupação excessiva. A mente passeia, sai de um devaneio perdido para se fixar em alguma preocupação ansiosa. Surgem preocupações sobre tragédias que poderiam acontecer, levando a pessoa sofrer por antecipação.

Neste processo a consciência se afasta do momento presente. A ansiedade crônica vai enfraquecendo a capacidade da atenção, vai deixando a mente à deriva, entre preocupações e devaneios, alimentando a ansiedade e o sentimento de impotência. Daí a queixa comum entre as pessoas muito ansiosas, de terem dificuldade de concentração.

A atenção é como um músculo que precisa ser treinado para se fortalecer. No caminho de diminuição da ansiedade precisamos fortalecer a capacidade de dirigir e sustentar a atenção.

A ansiedade é a emoção que ocorre quando há uma expectativa de perigo, que algo ruim possa acontecer no futuro. Quanto mais presente a pessoa estiver, menos ansiosa ficará. Assim precisamos trabalhar para criar presença. Há técnicas para isto, para aprender a observar, a se auto-observar e a sustentar a atenção. É um caminho importante de enraizar a presença no aqui e agora.

Os Quatro Padrões de Resposta Frente ao Perigo: lutar- fugir – congelar – desfalecer

A reação de ansiedade/medo faz parte de um sistema de comportamento defensivo construído pela evolução para enfrentar perigos. Este sistema detecta um perigo e produz respostas que visam aumentar a probabilidade de sobrevivência numa situação avaliada como perigosa.

Há algumas reações básicas que o organismo apresenta numa situação de perigo. A fórmula mais conhecida de resposta de “luta ou fuga”, na verdade se compõe de quatro direções básicas de respostas comportamentais: luta, fuga, congelamento ou desfalecimento.

Vamos imaginar que nos deparamos com um animal perigoso. Se nosso cérebro interpretar que podemos enfrentar o animal, nosso corpo se organiza para enfrentar ou intimidar o animal.

Porém se o animal parecer muito grande ou perigoso para nossos recursos, a resposta que se organiza é de fuga. Se não houver possibilidade de fuga, uma resposta possível é a de paralisia, de congelamento, como uma estratégia de tentar passar despercebido. Caso o ataque seja avaliado como iminente pode surgir uma resposta de desfalecimento para tentar pacificar o inimigo ou de desmaio para nos proteger de sentir a dor do ataque.

Assim estas quatro reações pré-organizam comportamentos que teriam diferentes funções numa situação de perigo:
(1) de agressão (mostrar-se perigoso, atacar ou revidar)
(2) bater em retirada (evitando o perigo, fugindo)
(3) de imobilização (paralisar-se, quando fugir é inviável)
(4) de desfalecimento (submissão/pacificação ou desmaio para não sentir a dor)

Estes padrões de resposta reaparecem mesmo quando a fonte de perigo é interna, seja uma sensação corporal como na Síndrome do Pânico, uma situação de avaliação social como na Fobia Social ou uma reativação de uma lembrança traumática como no Estresse Pós Traumático.

Em todas estas situações há uma hiperativação do circuito do medo que dispara padrões pré-organizados de comportamento na presença de um suposto perigo.

Numa crise de ansiedade o corpo vai esboçar alguma destas respostas frente ao perigo, notadamente uma das três últimas: fugir, paralisar ou desfalecer.

Esta variação de respostas explica porque, por exemplo, algumas pessoas reagem numa crise de ansiedade com agitação, outras com paralisia, enquanto outras reagem com uma sensação de amolecimento e sensação de quase desmaio.

Trabalhar a ansiedade através do corpo e das cognições

A experiência humana é integrada. A ansiedade, que é um fenômeno emocional, se manifesta também nos níveis corporal e cognitivo.

No plano cognitivo ela aparece como preocupações, catastrofizações, antecipação de perigos, etc.

No plano corporal se expressa em tensões musculares, taquicardia, respiração curta, pelos eriçados, etc.

No plano emocional a ansiedade é vivida como estados de apreensão, medo e aflição, por exemplo.

A experiência clínica mostra que um bom caminho para regular a ansiedade – uma emoção – está em mudar os outros dois níveis, o corpo e as cognições.

Para isto, há técnicas através das quais podemos modular os estados corporais e há técnicas pelas quais podemos transformar o funcionamento cognitivo.

Por exemplo, se regularmos a tensão do corpo, a ansiedade diminui e a mente fica mais serena.

Se mudamos as cognições e olhamos as coisas de uma perspectiva mais objetiva, a ansiedade diminui e o corpo desacelera.

Toda emoção, regulada ou des-regulada, ocorre também nos níveis corporal e mental. Mudando um, mudamos os outros dois.

Na psicoterapia dos transtornos ansiosos, geralmente vamos trabalhar por dois caminhos principais:

1 modular o corpo e assim regular a emoção (ansiedade) e a mente

2 reestruturar os pensamentos distorcidos e assim regular a emoção (ansiedade) e o corpo

Podemos caminhar tanto pela via corporal como pela via cognitiva. Para isto há técnicas específicas utilizadas em psicoterapia.

Para regular o corpo há técnicas importantes de psicoterapia corporal, como controle respiratório, auto-gerenciamento do tônus muscular, relaxamento, exposição interoceptiva, etc

Para regular as cognições há técnicas como desenvolver um eu observador, identificar os pensamentos automáticos, reestruturar as crenças, etc

Algumas pessoas podem preferir uma ou outra destas vias de entrada, mas numa situação ideal, trabalhamos pelas duas vias.

Alguns transtornos reagem melhor a um enfoque inicial mais cognitivo como no Transtorno de Ansiedade Generalizada e no Transtorno Obsessivo Compulsivo. Outros reagem melhor a um enfoque inicial mais corporal como no Transtorno do Pânico, nas Fobias e no Estresse Pós Traumático. No Transtorno do Pânico, por exemplo, as técnicas de controle respiratório, gerencimento do tônus muscular e exposição interoceptiva são clássicas.

Enfoque maior não significa exclusivo, pois a efetividade depende de um trabalho integrado.

Uma técnica clássica de respiração para diminuir a ansiedade

Há uma técnica clássica de respiração utilizada para o gerenciamento da ansiedade. É o que vamos chamar de respiração quadrada.
Quadrada porque é feita em 4 etapas e todas com a mesma duração.
É como um quadrado, uma forma com quatro lados iguais. Neste caso, é uma respiração feita em quatro etapas, com duração semelhante.
As quatro etapas são: inspiração, pausa cheio, expiração e pausa vazio.

Veja como fazer.
Preparação:
Sente-se confortavelmente. Observe a sua respiração, percebendo o ritmo da sua respiração. Coloque a sua atenção no seu corpo, deixando todo o resto de lado. Mantenha a boca fechada durante o exercício deixando a respiração acontecer suavemente pelas narinas.

Agora inicie:
1 Deixe o ar entrar em seu corpo, enquanto você conta lentamente até três: um….dois….três….
2 Segure o ar nos pulmões, contando lentamente até três.
3 Solte lentamente o ar, contando lentamente até três.
4 Após a expiração mantenha-se sem ar, contando lentamente até três.
1 Volte ao passo 1 e continue repetindo este ciclo, sem pressa…

Faça inicialmente estes ciclos por um minuto e veja como você se sente.
Se estiver bem, retome e aumente o tempo de exercício para 3 minutos.
Agora pare o exercício e se observe.
Se você tiver feito o exercício corretamente provavelmente vai estar se sentindo mais relaxado e menos ansioso.

Se estiver sentindo tontura é provável que você exagerou um pouco nas etapas de inspiração e expiração e não deu as pausas necessárias.
É muito importante um equilíbrio entre as quatro etapas. As pausas são tão importantes quanto inspirar ou expirar.
A tontura tende a passar sozinha, mas se você quiser ajudar a diminuir a tontura, retome o exercício com o cuidado de fazer a respiração DEGAVAR, SEM PRESSA, respeitando cada etapa: inspiração, pausa cheio, expiração e pausa vazio.
O exercício deve ser confortável. Se sentir desconforto, pare e deixe para fazer outro dia.

Você pode achar mais confortável contar até 4 em cada etapa, não importa; o importante é manter uma respiração lenta e regular, em quatro etapas. Faça uma contagem mental, você não precisa falar os números. Mantenha a boca fechada e respire pelo nariz.

Se o exercício te ajudar, pode praticá-lo todo dia.
Se quiser, você pode aumentar o tempo do exercício, fazer 5 ou 10 minutos de cada vez.

Sob estado de ansiedade a respiração tende a ficar rápida e superficial e a pessoa frequentemente tem a sensação de não ter ar suficiente. Este exercício corrige esta distorção, ajudando a diminuir o estado de hiperventilação, que causa várias sensações típicas do estado ansioso como tontura e formigamento.

Este exercício é um CALMANTE NATURAL, um típico trabalho de auto-gerenciamento.

Ao trabalhar com a ansiedade precisamos aumentar o sentimento de potência, aprender como podemos influir sobre nosso estado interno.

As estratégias de evitação e seu fracasso

A pessoa tomada de ansiedade busca modos de diminuir este estado que a assusta tanto. Há duas estratégias que merecem atenção, dois caminhos de evitação: a evitação comportamental e a evitação mental. As duas são estratégias mal sucedidas, apesar de amplamente utilizadas.

Na evitação comportamental, a pessoa evita fazer algo que possa levá-la a se sentir ansiosa. Se a pessoa teme ir num shopping, evitará ir para não passar mal. Se ela teme ficar sozinha, criará estratégias para não ser deixada sozinha e assim tentará evitar a ansiedade. O problema com a evitação comportamental é que a pessoa desvia da ansiedade, mas não a supera. Ao contrário, a cada desvio ela reforça em sua mente a crença na força “negativa” da ansiedade, com a idéia de que teria passado mal se tivesse ido, teria sido terrível… Neste processo a pessoa vai perdendo terreno para a ansiedade e vai limitando a sua vida.

Na evitação mental a pessoa se ausenta mentalmente, sua atenção se distancia e ela não percebe o que sente, sua presença fica dispersa. Ela tenta evitar a ansiedade ao tentar não percebê-la. Através de uma desconexão interna, a consciência se afasta do corpo, que é a fonte das sensações e emoções. O problema com esta estratégia é que a ansiedade é uma emoção natural que vai inevitavelmente fazer-se presente. Uma pessoa desconectada tende a estranhar e se assustar muito mais com tudo que sente em seu corpo, logo o tombo será muito maior. O afastamento mental faz com que as emoções e sentimentos percam a “naturalidade” para a pessoa, o que acaba por levá-la a se sentir ameaçada pelas próprias reações internas. A pessoa sente-se cada vez mais frágil e vulnerável, portanto mais sujeita a ansiedade.

Apesar de a evitação ser uma estratégia automática e parecer razoável, o melhor caminho é justamente o oposto. Para superar a ansiedade e o medo da própria ansiedade, é necessário seguir um caminho que parece menos natural, mas que é muito mais eficaz: aproximação gradual, aumento de tolerância à excitação interna, resignificação da experiência e enfrentamento.

A idéia de aproximação gradual e enfrentamento pode assustar, pois há sempre um “risco de inundação”, quando a pessoa sente uma ansiedade tão forte que se sente derrotada, como se tivesse voltado à estaca zero.

Para ser eficiente, este processo é feito numa psicoterapia especializada, com orientação de um psicólogo, para se poder fazer um enfrentamento controlado e gradual das situações temidas ou das sensações temidas. Este processo é importante em todas os casos onde há fortes crises de ansiedade como Pânico, Fobia, Fobia Social e Estresse Pós Traumático.

Intensidades e Cognições: as duas dimensões da ansiedade

O ser humano apresenta uma dimensão intensiva, de excitações emocionais e físicas e uma dimensão cognitiva, de processamento de informação e atribuição de sentido.
Na psicoterapia atuamos sobre estas duas dimensões, tanto regulando as intensidades através de técnicas de auto-gerenciamento e da regulação pelo vínculo, como trabalhamos para reestruturar o processo cognitivo.
Nos transtornos ansiosos encontramos um desequilíbrio nestas duas dimensões: um desequilíbrio de intensidades e uma distorção no processamento de informações.

No estado ansioso há uma superativação das dimensões intensivas, das respostas fisiológicas e emocionais. A pessoa fica num estado fisiológico alterado, apresentando geralmente, respiração acelerada e superficial, coração acelerado e irregular, suor, tensão muscular, etc, assim como num estado emocional alterado, sentindo ansiedade, medo, insegurança, inquietação, apreensão, etc.

O estado ansioso crônico acompanha-se também de uma distorção na dimensão cognitiva, que leva a pessoa a ter pensamentos catastrofizantes, preocupações e ruminações, vendo as situações como ameaçadoras, interpretando suas reações físicas como perigosas, sofrendo com seus pensamentos invasivos, etc.

No tratamento precisamos atuar sobre estas duas dimensões, quantitativa – intensiva e qualitativa – cognitiva.

Para trabalhar com a dimensão intensiva, podemos utilizar várias técnicas, como recursos de controle respiratório, regulação das tensões musculares, modulações da postura, técnicas de relaxamento etc. Através destes trabalhos conseguimos que a pessoa desenvolva uma boa capacidade de regulação fisiológica e emocional, diminuindo significativamente sua ansiedade. Outro foco importante no trabalho com as intensidades é utilizar técnicas para aumentar a tolerância à excitação interna. Para isto, utilizam-se técnicas de exposição gradual, desensibilização, etc.

No trabalho cognitivo, por sua vez, ensinamos a pessoa a se auto-obervar, a identificar e analisar criticamente os pensamentos automáticas negativos e potencializar sua capacidade de dirigir voluntariamente o foco de atenção.

O trabalho sobre a dimensão intensiva tem um efeito atenuador sobre a dimensão cognitiva, com enfraquecimento do circuito mental da ansiedade, dos pensamentos negativos e preocupações. O trabalho sobre a dimensão cognitiva tem um efeito de tranquilização e diminuição da excitação emocional e fisiológica, numa interação recíproca.

Dentro deste princípio várias técnicas podem ser articuladas para ajudar as pessoas a saírem de seu estado ansioso crônico e suas crises agudas.

Emoção muito intensa ou baixa tolerância? O dilema da ansiedade nos casos de Pânico

Podemos ver dois lados numa pessoa ansiosa e “assustada” com seus acessos de ansiedade.
Por um lado a vemos como alguém com excesso de emoção, alguém que reage com intensa ansiedade a cada mudança na paisagem interna, de emoções e reações corporais.
Este seria um desequilibrio quantitativo. Para lidar com ele utilizamos várias estratégias para diminuir a ansiedade, como técnicas psicológicas de auto-gerenciamento ou medicação.

Mas há também um desequilíbrio qualitativo. Geralmente a pessoa com algum Transtorno Ansioso tem uma tolerância muito baixa à excitação interna . Ela pode sentir qualquer coisa, numa intensidade baixa e já se assustar, ficar ansiosa. Uma pequena estimulação interna já deixa a pessoa alerta, antecipando algum risco… Para ela, pouco já é muito. Ela é como um estômago sensível demais.

Para lidar com esta intolerância à excitação interna é importante ampliar a capacidade de acolher as reações internas, tolerar suas intensidades e começar a discriminar as diferentes sensações e sentimentos.

Integrando os dois aspectos, podemos observar que, para uma pessoa com baixa tolerância à excitação interna, qualquer estimulação pode levar facilmente à sensação de inundação e ansiedade .

Assim, é necessário não só regular a ansiedade – com técnicas psicológicas e/ou medicação – para diminuir o “risco de inundação”, mas é fundamental aumentar a tolerância interna às reações internas, físicas e emocionais.

O adulto e a criança dentro de si

A pessoa com algum transtorno de ansiedade vive uma situação paradoxal. Por um lado, vive com intensos sentimentos de insegurança e vulnerabilidade, e ao mesmo tempo, tem que dar conta de diversas responsabilidades e tarefas da vida adulta. É como se a pessoa estivesse dividida: tem um lado adulto e responsável convivendo – e às vezes se alternando – com um lado infantil e inseguro. Este contraste pode fazer com que a pessoa se sinta confusa e desorientada. Muitas vezes a pessoa começa a se cobrar, se criticar, não aceitando seu lado inseguro: “mas eu não deveria me sentir assim, eu tenho que ser forte…”. A não aceitação do medo torna a pessoa ainda mais insegura, pois ela passa a ficar com medo de ser dominada pelo medo.
O caminho está em aprender a usar seu lado adulto para cuidar e ajudar seu lado infantil e inseguro.
Imagine uma criança com medo de trovão. Um adulto que a critica e grita com ela, exigindo que ela vença seus medos dificilmente vai ajudá-la a superar usa insegurança. Do mesmo modo, o adulto que se tranca no quarto junto com a criança, fechando as janelas para que os trovões fiquem longe, tampouco ajudaria. A melhor atitude, no caso, seria reconhecer o medo que a criança está sentindo, segurar na sua mão para acalmá-la, conversar e ajudá-la a entender o que acontece e só depois convidá-la a se aproximar da janela, olhar a chuva, os raios e assim começar a enfrentar a situação temida…
O enfrentamento dos medos irracionais é a melhor estratégia para domesticá-los, porém este caminho só funciona se a atitude for primeiro, de aceitação do próprio medo.
Depois, é importante uma atitude de apoio incondicional para ajudar a criança a ir perdendo o medo de sua reação emocional, perder o medo de sentir medo para, então ir perdendo o medo dos raios e trovões.
Esta atitude do adulto que ajuda uma criança a superar seus medos é a mesma que uma pessoa ansiosa precisa ter consigo mesma, esteja ela com Transtorno do Pânico, Fobia Social, Estresse Pós Traumático, etc. Seu lado adulto precisa pegar na mão de seu lado infantil e assustado e ajudá-lo a aceitar o sentimento, gradativamente ir olhando seus temores para perder o medo do que sente e aprender a olhar com mais lucidez para as conseqüências catastróficas temidas, para ver como o monstro não é tão perigoso quanto parecia.

Tornar a solidão uma experiência suportável

Numa das variedades do Transtorno de Pânico, além do medo das reações do corpo, há um fator adicional, onde estar acompanhada de alguém de confiança pode fazer muita diferença. As pessoas deste grupo geralmente se sentem mais vulneráveis a ter crises de pânico quando estão sozinhas e são muito sensíveis a separações e ameaças de separação.
Vamos encontrar muitos traços desta ansiedade de separação que vem da infância, podendo ter diminuído ou sumido por anos, mas que reaparecem com o Pânico. É comum que durante a terapia a pessoa vá lembrando de medos da infância, como medo de perder um dos pais, de ficar sozinha, de dormir sozinha, etc.
Para uma criança muito pequena o abandono poderia representar a morte, o que justifica o intenso estado de angústia e desespero que poderia se ativar nesta situação. No entanto, a mente da pessoa adulta com Transtorno do Pânico parece reagir do mesmo modo, com ansiedade e forte sentimento de vulnerabilidade quando se vê sozinha.
No trabalho com adultos com Pânico precisamos ajudar a pessoa a lidar com esta ansiedade de separação e com este medo de ficar sozinho. Em parte isto implica em retomar e elaborar traumas relacionados a abandono, perda de confiança e isolamento, sendo que alguns destes traumas têm origem bem precoce, na infância.
Porém, uma meta importante é ajudar a pessoa a experienciar a solidão e viver a solidão como uma experiência suportável, uma experiência que pode ser desagradável, emocionalmente dolorida e produzir ansiedade, mas possível de ser vivida sem levar ao desespero e ao pânico. Esta é uma das metas de uma psicoterapia para pessoas com Pânico.

Domesticar o monstro: tornando a ansiedade suportável

A ansiedade expressa um estado de vulnerabilidade, um estado em que nos sentimos sob risco. Nesta hora podem surgir na mente muitos medos: medo de morrer, medo de perder o controle, medo de fracassar, medo da crítica, medo de perder o amor dos outros, etc.
Mas o medo que mais nos consome é o medo do desconhecido agindo dentro de nós, a sensação de não saber o que ocorrerá conosco, de descontrole, podendo surgir o pavor de acreditar que o que ocorre conosco pode nos engolir, nos destruir. A experiência do pânico é uma experiência assim, de um estado que parece nos ultrapassar e ir além dos nossos limites.
Compreendendo as reações de pânico é possível aprender a observá-las e ir perdendo o medo das reações corporais (coração acelerado, tremores, respiração curta, formigamento etc). Poder viver as reações do corpo como fonte de desconforto e não como fonte de perigo. O caminho de superação do pânico passa por aprender a tolerar estas experiências corporais e emocionais intensas.
Aumentar a tolerância é uma experiência difícil quando a gente se assusta tanto com cada pequena coisa que acontece conosco, mas é fundamental neste caminho de ir domesticando o monstro para torná-lo um bicho familiar.
O desafio é aprender a poder se sentir frágil, vulnerável, assustado, pequeno… a sentir medo, insegurança… e neste processo ir tornando a experiência suportável.

Fobia Social: a ansiedade na frente dos outros

Na fobia social a pessoa fica ansiosa em situações sociais, quando teme pelo seu desempenho e se constrange ao se imaginar sendo observada pelos outros.
Isto pode ocorrer em situações diversas, como ao escrever na frente dos outros, falar em público, participar de reuniões, ao estar num restaurante, numa festa etc.
Algumas pessoas temem situações sociais variadas enquanto outras apresentam os sintomas somente em situações bem específicas.
Quando na situação temida a pessoa costuma apresentar alguns sintomas de ansiedade como suor, tremor, rubor na face, desarranjo gastrointestinal, etc. A preocupação de que os outros possam perceber o seu desconforto e seus sintomas torna-se uma fonte adicional de preocupação que deixa a pessoa ainda mais embaraçada e ansiosa.
Este quadro leva muitas pessoas a evitarem as situações temidas ou, se for inevitável, a viverem a experiência com muito sofrimento.
A fobia social é diferente da timidez pelo grau elevado da ansiedade, pela grande limitação que traz à vida da pessoa e pelo fato de que algumas pessoas tem um desempenho social normal fora daquelas situações temidas.
No tratamento da fobia social há dois focos importantes:
(1) ensinar a pessoa a se autogerenciar, para que aprenda a diminuir a ansiedade e consiga se regular na situação, diminuindo assim os sintomas
(2) investigar a raiz do sentimento de inadequação e “auto-crítica” que aparece projetada no ambiente, como se o ambiente fosse crítico.
É importante identificar os eventos da história de vida que possam ter contribuído para que a pessoa se sentisse inadequada e fragilizada numa situação social. Muitas vezes um evento recente reativa um sentimento antigo de inadequação, como o de ser alvo de crítica ou desprezo dos pais na infância.
A partir do aumento da capacidade de autogerenciamente e do esclarecimento dos sentimentos envolvidos na situação social temida, a pessoa consegue superar o sofrimento e a limitação trazida pela fobia social.

As duas direções da ansiedade: agitação e desfalecimento

Sempre que estamos sob estado de ansiedade e medo, nosso corpo tende a apresentar uma entre quatro tipos de reações básicas: (1) lutar, (2) fugir, (3) paralisar ou (4) desfalecer. Cada uma destas respostas foi moldada em nossa história evolutiva e funciona como uma estratégia diferente para lidar com uma situação perigosa. Cada resposta produz reações fisiológicas próprias, nos batimentos cardíacos, na respiração, no tônus muscular, etc. De modo simplificado, podemos identificar duas direções básicas nestas reações do corpo e da mente: (1) uma direção de agitação, com tendência ativa, geralmente de fuga da situação e (2) uma direção de amolecimento, numa tendência passiva, de afastamento do mundo e na direção do desfalecimento. Numa crise de pânico, enquanto algumas pessoas sentem uma agitação incontrolada, outras sentem que podem perder os sentidos e desmaiar.
Cabe notar que é muito raro uma pessoa realmente desmaiar durante uma crise de pânico. O que costuma ocorrer é a pessoa se assustar com o estado de amolecimento, ficando então agitada e querendo escapar da situação.
Uma situação comum é a pessoa estar corporalmente tensa, mas se afastando mentalmente da situação. A pessoa interpreta equivocadamente este afastamento mental como sinal de desmaio, quando no fundo seu corpo vai em outra direção.