Trauma e Janela de Tolerância: o campo produtivo entre o caos e a paralisia.

Uma experiência traumática pode afetar a capacidade posterior de uma pessoa lidar com sua excitação interna – sejam suas reações corporais, emoções ou sentimentos.

Frequentemente as pessoas traumatizadas ficam com uma pequena Janela de Tolerância.

A Janela de Tolerância é o quanto de excitação física e emocional uma pessoa consegue lidar de modo integrado, sem se desregular, sem congelar e nem dissociar.

Podemos pensar na janela de tolerância como uma faixa produtiva entre duas margens problemáticas. Quando a janela de tolerância se estreita, a pessoa entra num dos extremos, de caos ou paralisia.

Na margem de cima, quando a excitação vai além da capacidade de integração, pode surgir descontrole, impulsividade e inundação emocional, com acessos de ansiedade, raiva e/ou choro.

No outro extremo, há mecanismos que buscam uma restrição radical da excitação, surgindo anestesia, depressão, perda de vitalidade e lentificação.

É somente entre as duas margens da janela de tolerância que a experiência interna pode ser assimilada e integrada. Neste estado de integração há possibilidade de uma articulação coerente entre sensações, sentimentos, pensamentos e ações.

A psicoterapia deve trabalhar ampliando esta faixa produtiva da Janela de Tolerância, ajudando tanto na assimilação do excessivo como no descongelamento da rigidez. Assim é possível sair tanto da desorganização caótica da alta exitação como do congelamento defensivo da imobilidade, duas consequências comuns do trauma.

por Artur Scarpato

Síndrome do Pânico: Uma abordagem Psicofísica

SEÇÃO ARTIGOS PARA PROFISSIONAIS

Síndrome do Pânico: Uma Abordagem Psicofísica *

Artigo publicado pela Revista Hermes do
Instituto Sedes Sapientiae SP, numero 3 1998.
Artur Thiago Scarpato**

Resumo:

O presente trabalho desenvolve uma concepção psicofísica do fenômeno da Síndrome do Pânico. Faz um paralelo entre a crise de pânico e o que Freud denominava Neurose de Angústia em 1895, comparando a reação de Pânico à reação de angústia. Explica a fase visual do desenvolvimento infantil e o papel da contração do anel visual como agente atuante nas futuras respostas de pânico. Explicita as relações entre as vivências precoces da criança e os processos de organização da consciência e de identificação com o corpo. Procura demonstrar a ordem implícita nas reações corporais das crises de pânico e seu significado emocional. Caracteriza alguns traços psicofísicos comuns às pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico, como a desorganização do anel visual, a contração crônica do diafragma e o pouco contato com a parte inferior do corpo. Explicita alguns modos de funcionamento destas pessoas nos períodos entre as crises. Propõe uma abordagem psicofísica de tratamento que leve em consideração todos estes fatores.

Abstract:

This works develops a psychophysical conception of the phenomenon of Panic Disorder. It draws a parallel betwen panic attacks and what Freud in 1895 named anxiety neurosis, comparing the response to panic with the response to anxiety. It explains the visual stage of infant development and the role of the contraction of the visual segment as an active agent in future responses to Panic. It makes clear the links between a child’s early experiences and the processes of organisation of the conscience and identification with the body. It aims to show the order implicit in the bodily reactions to panic attacks and its emotional significance. It characterizes certain psychophysical features common to people who develop Panic Disorder, such as disruption of the visual segment, the chronic contraction of the diaphragm and the reduced contact with the lower part of the body. It describes various forms of behaviour of these people in the periods between panic attacks. It proposes a psychophysical approach to treatment wich takes into consideration all of these factors.

“…pode irromper de repente na consciência sem ser despertado pelo curso da imaginação e provoca assim um ataque de angústia. Tal ataque pode constituir somente em sensação de angústia, não associada a nenhuma representação, ou ligada à idéia de morte ou loucura, ou também acompanhada de uma parestesia qualquer…ou unida à perturbação de uma ou mais funções físicas, tais como da respiração, da circulação, da inervação vasomotora ou da atividade glandular.

(…) Eis aqui uma relação das formas de ataque de angústia que até agora me são conhecidas:

a) Com perturbação da atividade cardíaca: palpitações, arritmias breves, taquicardia duradoura…

b) Com perturbação da respiração: formas diversas de dispnéia nervosa, ataques análogos ao do asma, etc….

c) Ataque de suor, às vezes noturno.

d) Ataques de tremores e convulsões…

e) Ataques de bulimia, acompanhados às vezes de vertigem.

f) Diarréias emergentes em forma de ataques

g) Ataques de vertigem locomotora.

h) Ataques das chamadas congestões…denominado neurastenia vasomotora.

i) Ataques de parestesia… “(1)

Estas palavras poderiam ter sido escritas este ano sobre a Síndrome do Pânico, porém foram escritas em torno de 1895 por Freud, ao falar do quadro que ele denominava “neurose de angústia”, em sua obra “A Neurastenia e a Neurose de Angústia”.

Analisaremos o conceito de angústia em Freud nesta época e sua relação com as crises de Pânico. Falaremos então, do conceito de fase visual de desenvolvimento na teoria reichiana e da contração energética do anel visual como fator importante para o desencadeamento da Síndrome do Pânico. Passaremos a uma caracterização dos traços psicofísicos principais que contribuem na resposta de Pânico. Por fim faremos uma proposta de intervenção terapêutica psicofísica voltada tanto para a superação das crises como para uma reorganização mais profunda da personalidade.

Segundo a visão de Freud neste período de sua obra, a angústia provinha de um excesso de energia sexual que não atingia o plano psíquico como representação erótica. Ao invés disto, manifestava-se ainda no plano somático sob a forma de angústia.

Pessoas que tinham uma vida sexual insatisfatória, sofriam de um acúmulo de energia que deixava de estar disponível ao ego. Esta energia ultrapassava a capacidade de integração egóica, tendo assim restrita sua passagem ao plano psíquico, transformando-se em angústia. Angústia era concebida como energia sexual não representável. Havia uma impossibilidade de representação psíquica da excitação sexual e emocional, tendo como conseqüência seu desdobramento em angústia.

Podemos apreender várias coisas da teorização freudiana. A mais importante neste contexto é a de que existe um nível de tolerabilidade a estímulos internos para o ego. Há um limite de excitabilidade emocional e energética suportável e integrável à dinâmica consciente; a partir deste patamar, há um risco de desorganização.

Há uma articulação afeto-representação no funcionamento emocional humano; a todo afeto se liga uma representação. Quando falamos de angústia estamos falando de emoção num estado mais puro, sem representação, no limite entre o biológico e o psíquico. Ultrapassada a capacidade de integração do ego, surge a angústia, como manifestação do limite, da ameaça de morte, do contato com o desconhecido. A angústia é a emoção que acompanha a aproximação do inconsciente, a invasão de conteúdos e emoções que ameaçam rupturas na identidade egóica. É a emoção do nada.

A experiência do Pânico é a experiência da angústia. Angústia pela inundação do ego por fluxos emocionais e energéticos que vêm produzir um abalo sísmico na fina superfície da consciência.

O Pânico reflete uma disparidade entre os planos consciente e inconsciente. Houve um estancamento na comunicação interna, a rigidez do ego anula a tão saudável permeabilidade intra-psíquica. A conseqüência é a ruptura do elo mais fraco; há uma rachadura no represamento do inconsciente por falta de vazão necessária; há uma inundação de águas sobre a consciência.

A brutalidade da Síndrome do Pânico parece ser proporcional à disparidade entre consciente e inconsciente.

A história de vida de cada um vai compondo uma paisagem singular, onde acontecimentos e vivências interiores deixam marcas significativas. Podemos delinear algumas destas marcas e relacioná-las a determinadas problemáticas. É o que faremos em relação à Síndrome do Pânico, identificando elementos comuns que reverberam nas pessoas que têm o Pânico como resposta às questões da vida.

 

A FASE VISUAL

 

O desenvolvimento emocional da criança passa por algumas fases; Reich chamou a primeira delas de fase visual. Esta fase está relacionada às vivências precoces da criança desde as primeiras horas de vida, tendo um limite difuso com a fase oral, apresentando fortes interpenetrações.

Esta fase está relacionada aos primeiros contatos que a criança estabelece com o mundo à sua volta através de seus tele-receptores: olhos, nariz e ouvidos. Os “tele-contatos” ocupam um lugar importante na dinâmica psíquica relacional, sendo que a visão vai fornecer as experiências mais estruturantes deste período.

A criança nasce em estado de fusão energética com a mãe e gradativamente vai se diferenciando para constituir-se como uma unidade energética independente. Algumas aquisições sensoriais e motoras da criança acompanham este processo de separação; entre elas, o desenvolvimento da visão binocular focal, isto é, a capacidade de convergir os dois olhos para formar uma imagem tridimensional dos objetos e discernir a figura do fundo.

O desenvolvimento do olhar está relacionado às primeiras experiências da criança no ambiente que a cerca, em suas buscas de satisfação, contato e orientação. O controle do movimento dos olhos talvez seja uma das primeiras manifestações motoras do ego nascente.

Podemos dizer que há uma gravitação das primeiras experiências da criança em torno da erogenicidade dos contatos visuais. Não pelo simples fato do olho ser uma zona erógena, afinal elas são muitas, mas da experiência visual ocupar um lugar central na dinâmica emocional neste período, de forma que as experiências físicas, cognitivas, afetivas e energéticas, estejam de alguma forma inter-relacionadas à ela, compondo uma certa organização. Isto nos permite falar da visualidade como um organizador psíquico; no mesmo sentido da oralidade, da analidade, etc. Assim também podemos falar de uma fase visual do desenvolvimento emocional.

Nos primeiros momentos de vida, a criança tem ainda poucos recursos internos para se proteger das agressões e das frustrações; suas reações são globais e envolvem a sua totalidade psicofísica.

Uma das formas de proteção possível nesta época é a contração energética de todo o organismo, o que no futuro, poderá contribuir no desenvolvimento das biopatias orgânicas, doenças com acentuada alteração somática. Outro recurso possível à criança, e pelo que parece, um pouco posterior ao primeiro, é a contração do anel visual, levando a uma clivagem entre as vivências corporais e psíquicas, entre sensação e percepção. O anel visual tem a função de integração destes níveis de vivência. Além desta função, está relacionado também à organização da consciência, orientação espaço-temporal, atenção, auto-percepção, contato e expressão emocional e discriminação de limites; todas estas funções sofrem algum tipo de alteração quando há encouraçamento do anel visual.

A contração energética do anel visual traz conseqüências importantes, presentes em diversos problemas emocionais, como as psicoses, os estados de desorganização psíquica, confusão, pânico, etc.

Nos períodos iniciais a criança é extremamente sensível aos estímulos que recebe. Um parto problemático ou um contato materno precário, com olhares frios e agressivos, podem repercutir profundamente naquele ser em suas primeiras experiências.

Uma passagem satisfatória pela fase visual conduz ao que o Dr. Dimas Calegari denomina de centramento da identidade energética. O centramento da identidade energética fornece à criança a sensação de ser ela mesma, identificada com seu próprio corpo e em processo de separação da mãe. Esta é a base sobre a qual a criança vai desenvolver suas singularidades existenciais, avançando em seu processo de diferenciação do mundo e do outro. Neste momento a criança estará estabelecendo sua base de confiança na vida, na qual poderá se entregar ao recolhimento e ao sono, com a garantia de que depois será recebida e acolhida em suas necessidades; de outro modo, poderá ficar alerta, ansiosamente paralisada a meio caminho entre a relação com a mãe e o recolhimento que se segue à satisfação, impossibilitada desta pulsação.

Algumas pessoas passam por esta fase sem um bom centramento de sua identidade energética, trazendo ao longo da vida marcadas tendências simbióticas de retorno à indiferenciação energética mãe-bebê. As vivências de rejeição materna precoce estão entre os principais desencadeadores destes problemas. Estas marcas iniciais poderão ser encobertas por mecanismos egóicos de defesa de fases posteriores do desenvolvimento. A pessoa pode levar a vida lançando mão de recursos egóicos mais maduros até que uma determinada conjunção de fatores venha a desequilibrar a camada superficial da personalidade, trazendo à tona estas problemáticas anteriores.

Parece ser este o caso das pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico. Apresentam uma falha estrutural na direção da simbiose. Quando há uma desestabilização na vida, o sistema entra em pane por falta de base. Falta o centramento da identidade energética, que possibilita a identificação com o corpo, elemento fundamental na estruturação egóica.

Quando falamos das primeiras vivências do bebê, abordamos um terreno obscuro, de registros mnêmicos anteriores à aquisição da palavra. As carências deste período não são acessíveis à interpretação verbal. Os melhores recursos são corporais, imagéticos, etc.

 

 

CARACTERIZAÇÃO PSICOFÍSICA

 

Podemos observar uma série de traços corporais próprios à Síndrome do Pânico. Isto não representa uma simples relação causal, como se determinado aspecto corporal fosse o agente causador de uma situação psíquica. As relações psique-corpo compõe-se de matizes muito mais ricas e complexas. Podemos falar de manifestações em níveis diferentes de um mesmo princípio original, sem que uma manifestação seja causa da outra, mas sim co-presentes, corpo-psique.

Existem alguns fatores que parecem contribuir para que algumas pessoas venham a apresentar Síndrome do Pânico: fatores psíquicos, energéticos e somáticos.

Pessoas com deslocamento superior de energia em conjunto com traços visuais parecem ser mais propensos a desenvolverem Pânico. O deslocamento superior caracteriza-se pelo pouco contato com a base (pés, pernas e quadril) e predomínio do movimento energético acima do diafragma.

O Pânico encontra possibilidades de deflagração num ego que traz marcas de dificuldades na integração da vivência corporal, tendências simbióticas e precariedade ao lidar com emoções e conteúdos internos.

Vamos observar a fenomenologia corporal da crise de Pânico.

Há um fluxo intenso de energia (emoção) em direção à cabeça, desorganizando a auto-percepção da pessoa. Na crise, o movimento energético é ascendente; a energia sobe, sai das pernas (tremor, medo de cair, insegurança) e vai em direção à cabeça. O diafragma se contrai (falta de ar, dificuldade de expirar, náuseas) acentuando o movimento ascendente. O coração dispara, há estreitamento da garganta (sufocamento) e inundação da cabeça (confusão, rubor na face, despersonalização, desorganização da percepção – contração profunda do anel visual). Há também uma contração energética no cerne do organismo e uma expansão desordenada do campo energético.

O fenômeno do Pânico assemelha-se a uma inundação da cabeça por emoções e estímulos além da capacidade de integração da consciência. Há um afluxo de tensão visceral que se irradia para a cabeça e para o campo energético sem conteúdo emocional passível de integração pelo ego.

As pessoas com Síndrome do Pânico apresentam algumas características muito freqüentes em seu funcionamento psicofísico:

  • Desorganização do anel visual, com prejuízos da visão binocular focal.
  • Contração crônica do diafragma, com o peito em posição inspiratória.
  • Pouco contato emocional com a parte inferior do corpo (abdome, quadril, pernas e pés).

Estes traços apresentam profundas intersecções com a dinâmica emocional; espelhando no plano somático, realidades psíquicas de significado profundo.

A pessoa com Síndrome do Pânico parece não estar bem enraizada em seu corpo. Apresenta um aspecto de reação de fuga, de afastamento do corpo. Afastamento dos sentimentos e das sensações. O verdadeiro perigo é interno, de invasão do inconsciente. Há dificuldade em centrar a energia no corpo. Há fragmentação da atenção, como se a pessoa estivesse “meio aqui e meio distante ao mesmo tempo”. A sensação de presença no mundo parece ficar um tanto indiferenciada, perdida.

A pessoa pode passar boa parte do tempo ansiosa, na expectativa de ter uma nova crise. O corpo representa uma ameaça para a pessoa. A tendência defensiva seria de proteção nos meandros do mundo mental e afastamento do corpo – fonte do desconforto e do caos. No entanto, a maior capacidade de suportar a “ansiedade antecipatória” acontece quanto mais identificado com o corpo a pessoa está. Haveria aí uma base para suportar a ansiedade.

A imagem mítica do Deus Pã pode nos iluminar na compreensão do Pânico. A origem da palavra pânico se baseia no terrível medo que sentiam os viajantes ao ouvirem gritos estranhos na floresta; supunham serem esses gritos sinais da aproximação de Pã. Em algumas representações este Deus tem um corpo híbrido, metade animal, metade homem. É inevitável a associação desta imagem ao estado de uma pessoa em crise de pânico. O grande perigo ameaçador está na parte inconsciente e animal não integrada à consciência. Pã simbolizando a natureza, o corpo, a sexualidade, a agressividade…aspectos mais distantes da identidade racional consciente.

Reich percebeu a fragmentação emocional do homem moderno e forjou uma imagem onde o ser humano está divido em três partes: o Homem, Deus e Diabo, que podemos associar respectivamente, à Cabeça, ao Peito e ao Quadril. O quadril como fonte da energia sexual, o abdome como reservatório da maldade, enfim, entre múltiplos sentidos, as partes mais distantes do ego, a sede do Diabo, a morada de Pã.

 

A TERAPIA NA SÍNDROME DO PÂNICO

 

Existem três pilares do trabalho corporal no tratamento da Síndrome do Pânico: o desenvolvimento do contato com a base (pés, pernas, quadril), a soltura do diafragma e a mobilização do anel visual.

A passagem do estado de contração crônica do cerne do anel visual para o de pulsação é dinamizado pela utilização de técnicas específicas de ativação deste anel. Uma das técnicas utiliza-se de uma luz que o cliente deve seguir com os olhos, que se afasta e se aproxima da ponta de seu nariz, ativando simultaneamente a convergência binocular, a visão macular, a concentração da atenção e o centramento de sua energia. Neste processo pode ocorrer também a liberação de afetos trazidos pela mobilização do olhar. Esse é um dos caminhos para restaurar a pulsação desse anel e suas funções, onde estaremos catalisando a integração psique-soma e buscando atingir registros psíquicos precoces relacionados a vivências simbióticas.

A liberação do diafragma é alcançada através de exercícios de respiração abdominal, ampliação da capacidade expiratória e toques profundos.

O trabalho com o diafragma possibilita maior fluxo energético para a parte inferior do corpo. Isto contribuirá na expansão do organismo abrindo outros caminhos de descarga energética, ativando, entre outras coisas, o peristaltismo, melhorando o contato com a base e trazendo possibilidade de tranqüilização e alívio da sobrecarga energética-emocional ascendente.

O contato com a base é desenvolvido em exercícios de contato com as pernas, pés e quadril que permitam maior mobilidade energética e sensibilidade. Exercícios de “grounding”, alongamentos, atenção dirigida, etc.

O trabalho com a base mobiliza o “estar na realidade”, o sentimento de segurança e, juntamente com as outras duas técnicas, facilita a integração de sensações e emoções sexuais e agressivas.

Ao propormos os exercícios precisamos estar o tempo todo atentos às vivências do cliente. Não se trata de exercícios físicos, mas psicofísicos, onde contamos com um setting adequado, uma relação terapêutica, uma disposição psíquica e uma mobilização do corpo.

A pessoa com Pânico tem dificuldade em fazer a integração entre as suas sensações corporais e o significado que estas possam ter, parecendo tudo “sem sentido”, como reações de “enlouquecimento do corpo”. Cria-se um estado de desorientação interna e confusão sobre o que está acontecendo. Um dos objetivos do tratamento é ajudar a pessoa a retomar sua identificação com o corpo, reintegrando as suas sensações e emoções. Estamos trabalhando neste momento com a retomada da auto-percepção, integrando as vivências corporais e psíquicas, mobilizando o anel visual.

O estado de angústia é acompanhado por uma dilatação das pupilas, divergência binocular e predominância da visão do campo. Neste estado, a atenção está difusa e a pessoa tem dificuldade em concentrar-se. Podemos observar que a pessoa em pânico tem muita dificuldade em convergir os dois olhos num mesmo ponto, assim como em discriminar a visão macular da visão do campo da retina, isto é, realçar a figura do fundo.

O desenvolvimento da visão binocular convergente focal unida à capacidade de estar em contato com a sensação do olhar traz várias alterações significativas: acentua a sensação corporal, torna os limites do corpo mais nítidos, equilibra o tônus muscular, aumenta a coesão do campo energético, ajuda a expandir o cerne energético, contribui para a identificação com o corpo, traz a pessoa para o aqui e agora e diminui a ansiedade.

A terapia com estes pacientes caminha na direção da reorganização da personalidade. O paciente com Pânico, inundado por emoções além da capacidade de integração do ego, precisa de recursos para lidar com esta situação. Trabalhamos para acentuar a identificação com o corpo, focalizar e centrar a atenção, afinar as discriminações eu-mundo, adquirir uma compreensão coerente sobre as reações do próprio corpo, ampliando os recursos internos.

Posteriormente, e acentuando-se com o decréscimo das crises, passamos a trabalhar com conteúdos mais profundos, buscando trazer as emoções que antes causaram desorganização para agora poderem ser elaboradas. Este momento é semelhante à abordagem psicoterápica desenvolvida com outros pacientes sem queixa específica. Norteia-se pela estrutura de caráter do paciente e constitui um ponto muito significativo do processo. É o momento de contato com as angústias, com as dores, de mudanças profundas da personalidade; de abandonar as estruturas cristalizadas e arriscar novas possibilidades de vida.

Na experiência clínica com esta metodologia de trabalho, podemos observar que a pessoa deixa de ter as crises em pouco tempo de terapia. A questão crítica passa a ser não mais o Pânico – objetivo superado através da técnica – mas a sensibilização, conscientização e mobilização das questões psicodinâmicas envolvidas, visando mudanças mais profundas da personalidade e assim poder abandonar o fantasma das recaídas.

Um dos critérios importantes ao avaliar-se um tratamento para a Síndrome do Pânico é a sua eficácia na prevenção de futuras recaídas. Pesquisas(2)demonstram que a possibilidade de recaídas é menor quando há intervenção psicológica do que quando o tratamento utilizado é apenas medicamentoso. Pesquisas futuras poderão avaliar a contribuição de uma abordagem psicofísica, como é a perspectiva reichiana, comparada a outras formas de tratamento.

Este trabalho está baseado no trabalho clínico com alguns pacientes em consultório particular. Utiliza-se de uma amostra qualitativamente significativa, pela profundidade do contato, observação e acompanhamento do processo do cliente, e por outro lado numa amostra quantitativamente pequena. Outras pesquisas poderão contribuir neste processo de ampliação do campo terapêutico da Síndrome do Pânico segundo a ótica reichiana.

 

CONCLUSÃO:

 

Consideramos este trabalho como uma proposta terapêutica onde a abordagem sintomática não seja incongruente com uma perspectiva psicodinâmica, mas ao contrário, procure integrá-las dentro de uma compreensão mais ampla, visando superar as problemáticas cisões psique – soma, sintoma – conflito, etc. Um trabalho que objetiva equilibrar a dinâmica energética da pessoa atingindo-a em sua dimensão psíquica, vivencial e inconsciente.

A perspectiva desenvolvida é eminentemente psicossomática concebendo psique e soma como elementos intrínsecos de uma unidade funcional. As técnicas psicofísicas contribuem na mobilização da imagem corporal, na ativação energética e no processo de integração emocional. Por todos estes motivos pode constituir-se num recurso valioso na terapêutica da Síndrome do Pânico.

Notas:

*Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação sugerido: 

Scarpato, Artur. Síndrome do Pânico:uma Abordagem Psicofísica, Revista Hermes, São Paulo, numero 3, 1998.

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Referências:

1 –Freud, S., La Neurastenia y la Neurosis de Angustia (Sobre la Justificación de Separar de la Neurastenia Cierto Complejo de Síntomas a Título de “Neurosis de Angustia”) in: Obras Completas, Editorial Biblioteca Nueva, 1981, Madrid, vol I, p 184-185.

2 cf. National Institutes of Mental Health, Treatment of Panic Disorder, NIH Consens Statement Online 1991, Sep 25-27;9(2):1-24.

 

* Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

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Estresse Pós Traumático: A Situação Emocional de Pessoas Vítimas de Violência

SEÇÃO ARTIGOS

Estresse Pós Traumático: A Situação Emocional de Pessoas Vítimas de Violência

 

Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, São Paulo, número 6, 2004, p. 10-14.

 

Artur Thiago Scarpato

As pessoas que vivem em cidades em que a onda de violência está aumentando, têm que lidar com um problema cada vez mais freqüente, o estado das vítimas após uma situação de agressão. As situações vividas podem ser várias: assaltos, acidentes de trânsito, seqüestros, violência sexual, presenciar uma situação violenta que ocorre com outra pessoa, entre várias outras

Todas estas situações podem ultrapassar o limiar de tolerância de uma pessoa em relação ao que ela experienciou. Assim, para algumas pessoas, a experiência de violência pode ser vivida como traumática, o que significa que a pessoa vive uma intensa reação de estresse na situação, sendo que a reação não se desfaz e a pessoa não retorna ao seu estado psicológico habitual.

Em situações ideais, uma pessoa que se depara com uma situação de agressão, vivencia uma alta intensidade de estresse no momento e logo depois do evento, mas tende a ir voltando ao seu padrão de funcionamento com o passar do tempo. (Selye, 1974, 1976).

Para entender este fenômeno é importante que nós possamos compreender os mecanismos da experiência de violência e os modos como uma pessoa pode viver a agressão durante e depois do evento. Há vários fatores que podem contribuir para que uma pessoa não volte ao seu estado habitual após uma situação de agressão: a idade e o momento em que o evento ocorreu, a intensidade e a duração da experiência, o nível de impotência que a pessoa sentiu, o sentido da experiência na história de vida da pessoa, os sentimentos que a situação despertou, como medo, pavor, raiva, etc.

 

 

 

Os Diferentes Modos de Reagir

Diferentes pessoas não reagem do mesmo modo a uma situação violenta. Quando duas pessoas vivem uma mesma situação de agressão, uma pode ficar traumatizada, enquanto a outra retoma a sua rotina em pouco tempo. Cada pessoa tem uma história singular de agressões e estresses em sua vida, cada uma associa o evento agressivo atual a experiências específicas de seu passado. Uma série de fatores como estes tornam alguém mais vulnerável a determinadas agressões, determinando os limites entre o assimilável e o excessivo.

Por exemplo, durante uma situação de violência, uma pessoa pode se manter fria e sob controle, outra pode entrar em desespero e pânico, enquanto uma terceira pode desmaiar. Três modos diferentes, pessoais, de lidar com a mesma situação de estresse intenso, o que expressa três temperamentos e três histórias de vida diferentes.

Após a situação, cada um poderá viver também de um modo singular os efeitos posteriores. Um pode ficar com medo apenas por alguns dias e depois voltar à vida normal, outro poderá ficar com uma ansiedade muito grande e duradoura e não conseguir voltar à sua rotina, enquanto um terceiro poderá afundar numa profunda depressão decorrente do grande abalo causado pela experiência. Cada um reage de um modo singular às várias situações de agressão que sofre na vida, assim como às eventuais situações de violência intensa.

 

 

 

Os Predisponentes

Apesar de muitas pessoas viverem situações violentas, uma parcela bem menor desenvolve Estresse Pós-traumático. Pesquisas têm apontado que as experiências de relacionamento nos primeiros dois anos de vida exercem um efeito significativo sobre a capacidade posterior de uma pessoa em lidar com o estresse e manejar os seus estados emocionais (Schore, 2001, 2002).

Ao cuidar do seu bebê, uma mãe ajuda a regular os estados internos de seu filho. Por exemplo, a mãe busca acalmar o bebê ao vê-lo muito agitado. A capacidade de auto-regulação emocional ainda não está desenvolvida, e a mãe exerce esta importante função de hetero-regulação até que o bebê possa aprender a se regular por si próprio.

Os traumas relacionados principalmente a experiências de abuso e negligência nesta idade precoce têm um enorme impacto sobre o desenvolvimento da criança e do futuro adulto. Nesta época as áreas cerebrais relacionados à regulação emocional ainda estão se desenvolvendo e os traumas interpessoais precoces podem afetar o desenvolvimento cerebral, tornando uma criança mais vulnerável a uma situação de Estresse Pós-Traumático na vida adulta. Esta área de pesquisas é importante por mostrar como o cérebro se constitui junto com as experiências de vida e não apenas pelo que é dado geneticamente (Schore, 2001). Assim a psicoterapia tem um trabalho valioso ao recuperar a dimensão da experiência vivida como caminho para a transformação da personalidade e do cérebro. A psicoterapia exerce um efeito indireto e remodelador sobre o cérebro no processo de recuperação emocional de um paciente.

 

 

 

Os Sinais e os Sintomas

Podem ocorrer várias manifestações em pessoas que desenvolvem estresse pós-traumático em decorrência de situações violentas.

Durante o evento, por exemplo, a situação pode parecer irreal, tudo parecendo como um sonho ou pesadelo e a pessoa se sentindo anestesiada na situação. Para outras pessoas a vivência pode ser de intenso desespero e dor. A vivência do tempo também pode ficar bastante alterada e o que durou apenas alguns segundos, por exemplo, pode parecer um longo tempo, as coisas podem parecer ocorrer em câmera lenta, tudo ficando muito vívido na percepção.

Logo após o evento, muitas pessoas se mantêm num estado de “anestesia emocional”, sentindo-se distantes da situação, diminuindo sua responsividade ao mundo. Com o passar do tempo a pessoa pode ir “descongelando” e viver experiências intensas de impotência e fracasso. Algumas pessoas desenvolvem um estado mais depressivo, com perda de interesses, desânimo, embotamento emocional, estreitamento de horizontes na vida, etc.

Outras pessoas passam a ficar ansiosas, temendo que a situação se repita, desenvolvendo um padrão ansioso de distresse. A pessoa pode se lembrar repetidamente do evento, com as lembranças invadindo a sua consciência, muitas vezes lembranças dos mínimos detalhes. Há também pessoas que não conseguem lembrar nenhuma imagem da situação, ficando apenas com o efeito emocional do que ocorreu, como se tivesse sido algo dolorido demais que faz a pessoa esquecer.

Podem surgir associações entre o evento e situações específicas, levando a comportamentos de evitação, como não sair à noite, não sair de casa sozinho, não freqüentar determinados locais, etc. Intensas reações emocionais podem surgir frente a estímulos que simplesmente lembram a situação vivida, como certos sons, certo clima, certos olhares, etc.

Há possibilidade de se desenvolverem estados mais constantes de ansiedade, de alerta e vigilância, respostas exageradas de sobressalto e apreensão, dificuldade em se concentrar, atitude de desconfiança, etc.

Podem surgir sensações de irrealidade e distanciamento do mundo, fazendo tudo parecer como um sonho, com sensações de estar separado do corpo, etc. Pode haver pesadelos repetidos.

Algumas pessoas ficam mais irritadas, apresentando ataques de raiva e instabilidade emocional.

No geral as reações vão para duas direções básicas: depressão e ansiedade. Há pessoas que vão para estados mais depressivos, pessoas que vão para estados ansiosos e agitados e pessoas que se alternam entre estes dois estados.

 

 

 

Experiência, estresse e distresse

Após uma situação de violência, uma pessoa pode permanecer em estado alterado por períodos variáveis. É classificado como estado deestresse agudo quando a pessoa apresenta sinais intensos de estresse após o evento traumático, mas volta ao seu padrão de funcionamento normal dentro do primeiro mês. Quando as reações persistem por meses e até anos, é classificado como estresse pós-traumático. (Associação Americana de Psiquiatria,1995)

Segundo a classificação proposta por Keleman (1989), quando a reação de estresse vivida numa situação não se desfaz, ela é denominada de distresse. O nome certo de um estado permanente seria, portanto, distresse pós-traumático, porém o uso consagrou o termo estresse pós-traumático.

O estresse (quando desfaz) e o distresse (quando permanece) são respostas a situações de agressão tanto externas – que vem do encontro com o mundo – quanto internas, que decorrem do sentir dentro de si coisas além do assimilável.

Os sentimentos vividos na situação de violência podem ser excessivos e agressivos, ultrapassando o limiar de tolerância e assimilação de uma pessoa. Para alguém, por exemplo, sentir muito medo ou ódio nascendo dentro de si, pode ser extremamente assustador, de modo que a pessoa reage com forte estresse frente aos próprios sentimentos, que a agridem de dentro. Isto além da própria agressão que vem de fora.

Quando sintomas permanecem por um período mais longo, indicam que a agressão foi vivida muito intensamente, com um estado de estresse excessivo que levou à cristalização em um padrão de distresse.

Os padrões de distresse são organizações psicofísicas que mantém a pessoa paralisada num modo de funcionamento, sem poder voltar ao seu modo de vida anterior. (Keleman, 1989)

Por exemplo, uma pessoa que sofreu uma situação de violência, não conseguia mais dormir à noite, ficando alerta e atenta aos barulhos da noite, sentindo medo de que a situação pudesse se repetir. Ela evitava sair de casa, temia os olhares dos outros, temia que o agressor pudesse voltar a qualquer momento, tinha pesadelos com cenas de violência e a desconfiança dominava a sua experiência no mundo. Sua vida ficou bruscamente limitada, num estado de muito sofrimento e exaustão que já durava alguns meses quando ela chegou para o tratamento.

Observando seu corpo pudemos ver que ela estava com o olhar oscilando entre expressões de desconfiança, vigilância e medo, a visão geralmente sem foco, com perda da convergência binocular, a respiração superficial e rápida, o diafragma contraído, a postura puxada para cima, aumentando a pressão na cabeça e no peito.

Há uma relação intrínseca entre o estados somáticos e os estados subjetivos, pois os padrões motores organizam e sustentam como uma pessoa sente e percebe o mundo. (Keleman, 1987).

Há uma organização psicofísica que sustenta a pessoa no estado de distresse, criando a percepção de que o mundo é de um certo modo – no caso, hostil – e produzindo repetições infinitas de pensamentos, fantasias, pesadelos e sentimentos em torno de uma mesma questão, criada e mantida por um padrão alterado de funcionamento. Tanto os sentimentos como a percepção, os pensamentos e a postura corporal são organizados pelo padrão de distresse. Criam a realidade do perigo iminente e deixam a pessoa como se estivesse em vias de reviver a situação a todo o momento. A reação não se desfez, o alerta está lá dizendo que o perigo pode voltar a qualquer momento. A percepção da pessoa tende a interpretar tudo pela ótica do medo, tudo que a pessoa percebe é visto pela perspectiva de seu padrão ansioso de distresse.

O padrão ansioso organizado produz e mantém estados de apreensão, alerta, desconfiança, medo, confusão e pânico. Estes estados podem se alternar e se intensificar em diferentes momentos e situações.
Padrões de distresse são organizações psicofísicas que compõe modos “fixos” e “determinados” de funcionar na vida e que surgem a partir de situações que interferem drasticamente no processo existencial de uma pessoa, nestes casos, as experiências de violência. A partir da situação traumática a pessoa fica fixada e paralisada num modo repetitivo de funcionamento emocional.

O padrão de distresse se organiza através de uma forma no corpo, é uma realidade postural, sustentada pela musculatura e que afeta a motilidade interna das vísceras, o estado emocional, a percepção, os pensamentos, enfim a pessoa inteira fica organizada segundo este padrão. (Keleman, 1985, 1989).

 

 

 

O Tratamento

Cada pessoa em situação de Estresse Pós Traumático necessita de uma atenção cuidadosa, pois suas reações têm relação com a sua história de vida, sua capacidade de lidar com sentimentos e emoções, o impacto que a experiência teve em sua vida e a qualidade de suas experiências de vida dali para frente.

A intervenção terapêutica é um recurso necessário para que a pessoa possa reorganizar seu padrão de funcionamento e continuar seu processo de vida de modo mais saudável.

É possível sentir e ver o mundo diferente, sair da situação de sofrimento constante, através realização de mudanças nos padrões de distresse organizados.

Mediante observação atenta do corpo, do olhar, da postura, da respiração e do modo de se mover, o profissional pode identificar o estado subjetivo interno que esta pessoa pode estar vivendo. Porém tão importante quanto o profissional identificar os sinais exteriores, é ajudar e capacitar a pessoa a perceber o próprio corpo, discriminando com clareza a sua própria experiência e as conexões que há entre a sua vivência subjetiva e o modo como o seu corpo está organizado naquele momento. A partir de um desenvolvimento maior da auto-percepção é possível ensinar a pessoa a interferir em seus padrões de sofrimento somaticamente organizados, através de exercícios específicos, agindo sobre os seus padrões de distresse.

Ajudando a pessoa a perceber suas próprias sensações corporais, sua organização postural e suas atitudes organizadas somaticamente, podemos ajudá-la a perceber como o corpo está totalmente interligado ao que ela sente, vê e pensa, organizado num padrão de distresse. A partir daí podemos ajudar a pessoa a dialogar com a própria experiência através de um método eficiente, conforme proposto por Stanley Keleman (1987).

Na terapia utilizamos técnicas que atuam exatamente nos pontos que estão mantendo a pessoa em estado de distresse. Ensinamos a ela a reconhecer a organização corporal deste padrão, podendo modular, aumentando e diminuindo sua intensidade e permitindo a sua desorganização e reorganização, permitindo à pessoa criar modos mais vitais de lidar com os afetos e as situações de sua vida. Um dos objetivos é ensinar um auto-gerenciamento do estresse que possa servir como habilidade ao longo de toda a vida da pessoa.

A terapia permite restaurar a capacidade de lidar com fortes emoções internas, o que pode ter ficado comprometido desde a primeira infância. Este processo precisa ocorrer num contexto vincular de cuidado e confiança, no qual a pessoa do terapeuta, tal qual uma mãe cuidadosa, primeiro ajuda seu cliente a se acalmar, com a ajuda de técnicas específicas, para então começar a ensiná-lo a manejar melhor seus estados internos e o mundo à sua volta, visando a sua recuperação e o seu desenvolvimento.

Através deste caminho a pessoa pode voltar a viver o seu presente, e não mais ficar paralisada por uma situação que já poderia ter/ser passado.

 

 

Bibliografia de Referência

    • Associação Americana de Psiquiatria (1995). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM IV, Porto Alegre, Artes Médicas
    • Keleman, Stanley (1987/1995) Corporificando a experiência, São Paulo, Summus
    • ___________ (1985/1992) Anatomia Emocional, São Paulo, Summus
    • ___________ (1989/1997) Padrões de Distresse, São Paulo, Summus
    • Selye, Hans (1974). Stress without Distress. Nova York, NAL
    • __________ (1976/1978) The Stress of Life, New York, Mc Graw Hill, revised edition.
    • Schore, Allan N. (2001). The Effects of a Secure Attachment Relationship on Right Brain Development, Affect Regulation, and Infant Mental Health. Infant Mental Health Journal. 22, p 7-66.
    • __________ (2002). Dysregulation of the Right Brain:
      A Fundamental Mechanism of Traumatic Attachment and the
      Psychopathogenesis of Posttraumatic Stress Disorder. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry, 36, p 9-30.

 

Notas:

*Voltar ao início do texto Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação sugerido: 

Scarpato, Artur (2004). Estresse Pós-Traumático: a Situação Emocional de Pessoas Vítimas de Violência.Psicologia Brasil, ano 2 n. 6, p. 10-14.

**Voltar ao início do texto Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

Artur T. Scarpato – Psicologia Clínica – CRP 06/42113
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Última atualização: 06/09/2016

O Método dos Cinco Passos de Stanley Keleman

SEÇÃO ARTIGOS PARA PROFISSIONAIS

O Método dos Cinco Passos de Stanley Keleman *

Artigo Publicado na Revista Reichiana do
Instituto Sedes Sapientiae, n 15, 2006, p 47-55
Artur Thiago Scarpato

“A vida diária envolve a criação de diferentes configurações somáticas para lidar com a variedade de mudanças das circunstâncias externas” (KELEMAN, [1987]1995, p 27). Assim começa o segundo capítulo de um dos livros mais importantes de Keleman, “Corporificando a Experiência”. Nesta afirmação podemos ver como o comportamento é visto por Keleman a partir das organizações somáticas, que são inseparáveis das outras esferas da experiência humana. A clássica separação entre as esferas cognitiva, afetiva e motora perde espaço nesta visão integrada. Keleman elege o acesso à organização somática como via privilegiada para se trabalhar com a experiência humana, acreditando através deste trabalho estar articulando todas as camadas da existência.

            Keleman ([1979]1994, [1985]1992, [1989]1997, [1999]2001) propõe olhar a vida a partir do processo formativo, um processo de contínua criação de formas somáticas, uma anatomia do desenvolvimento que nunca pára e atravessa toda a vida. O processo formativo está afinado com o mesmo princípio que move o processo evolutivo das espécies, uma capacidade de criação de formas e estratégias para a ampliação da função vida.

           A perspectiva formativa aponta que a vida é movida pelos processos de diferenciação, crescimento e complexificação em direção ao futuro, criando novas formas somáticas e comportamentos para dar conta dos desafios que a vida apresenta. Este processo depende da interação constante entre forças biológicas, ambiente e subjetividade.

(pág 48**)As formas somáticas manifestam a passagem da motilidade à mobilidade, da pulsação ao movimento: “Sabe-se que o cérebro converte excitação em comportamento, direcionando-a ou evocando certos comportamentos passados” (KELEMAN, [1987]1995, p 86). Este processo que vai da excitação à ação contém etapas, e sob influência de Nina Bull (1962, 1968), Keleman vai elaborar a sua fórmula do comportamento em três tempos: “Em primeiro lugar, há um padrão organísmico geneticamente herdado, depois uma preparação para a ação e, finalmente, a ação propriamente dita” (KELEMAN, [1979]1994, p 38).

Os comportamentos se iniciam a partir de padrões inatos, um repertório evolutivo que manifesta os caminhos seguidos pela vida e que oferece direções de comportamentos futuros. Há padrões inatos de emoções como tristeza, raiva, alegria e medo, assim como há padrões inatos de ações como buscar, agarrar, trazer, empurrar, esperar, receber e dar (KELEMAN, [1985]1992, [1994]1996, [1996]1996). Estes padrões inatos oferecem as trilhas básicas a serem percorridas pelas marés pulsatórias na formação contínua do organismo.

A partir dos padrões inatos, organizam-se os padrões secundários, um momento intermediário de pré-organização do comportamento, que Keleman denomina como forma somática (KELEMAN, [1975]1996; [1979]1994). Este padrão secundário pode ser moldado e influenciado pelas ocorrências do desenvolvimento, como as experiências vinculares e a educação, assim como também pode ser influenciado volitivamente.

A raiva, por exemplo, pode ser expresso sob a forma explosiva de um grito, com uma voz moderadamente dura ou apenas com um olhar de desaprovação. São diferentes graus da forma somática modulando o padrão da emoção.

Há um intervalo entre a afetação de um encontro e a consequente ação no mundo. Neste intervalo se organizam as formas somáticas, preparando comportamentos e atitudes com suas diversas manifestações cognitivas e afetivas. Neste processo podemos ir além do pré-programado e entrar num campo potencial, mais indeterminado, que permite a modulação e a criação de“respostas do self antes inexistentes” (KELEMAN, [1989]1997, p 13), um processo que já havia sido apontado por Bergson ([1939]1990, [1941]2001).

Impulsionadas pelas marés pulsatórias e pelos padrões inatos, as formas somáticas vão se singularizando em cada organismo humano, se construindo na interação com as forças sociais, com os eventos da existência e vão se refinando com as regulações subjetivas que participam deste processo complexo de construção da vida. As formas (pág 49)  somáticas emergem das experiências do organismo no mundo, como modos de organizar a experiência interna e preparar respostas aos desafios que se apresentam.

O terceiro tempo do comportamento, a ação, emerge deste processo complexo de construção e autodiálogo do organismo em suas interações na vida.

 

 

Padrões de Distresse: Limitações ao Processo Formativo

 

Se por um lado a forma somática pode expressar a pulsação interna, por outro pode restringi-la e determiná-la. Quando as formas se estabilizam, podem moldar e limitar as possibilidades de pulsação e vida emocional. Por exemplo, uma forma somática com o peito cronicamente inflado e duro, cabeça erguida, pernas tensas e abdome contraído pode levar a estados constantes de orgulho e superioridade, ao mesmo tempo que impede a vivência de outros estados afetivos, como experiências suaves e ternas. Como diz Luce (1975, p 16): “Nossa experiência desenvolve estrutura e a nossa estrutura limita a nossa experiência”.

Ao longo da vida as formas somáticas vão se estabilizando por dois processos: por uma estabilização progressiva decorrente da repetição de experiências vinculares e por uma cristalização devido a experiências excessivas ou traumáticas

Toda situação vivida gera excitação e forma. Algumas vezes a excitação ultrapassa o limiar de tolerância, disparando alterações emergenciais das formas somáticas que visam limitar os efeitos devastadores do excessivo (KELEMAN,[1985]1992; SCARPATO, 2001a). Nestas situações, as principais respostas de alteração dos tecidos do corpo são: (1) enrijecer para controlar as próprias reações, (2) densificar para isolar a excitação, (3) inflar para diluir ou vazar a excitação no ambiente, ou (4) colapsar, diminuindo a pulsação.

Em situações normais, o organismo lança mão de alguma destas respostas de proteção frente a um desafio intenso, voltando ao seu estado habitual de pulsação e forma após um certo tempo. Porém, em situações extremas, pode haver uma paralisação do organismo num dos quatro padrões de distresse: rígido, denso, inflado e colapsado (KELEMAN, [1985]1992, [1989]1997).

Os padrões de distresse paralisam o processo formativo, impedindo a criação de novas respostas e comportamentos para lidar com as diferentes situações. Este é o momento de se intervir na clínica, pois “a patologia começa quando há uma incapacidade para desorganizar uma forma” (KELEMAN, [1996]1996, p 122).

(pág 50) 

 

 

 

 O Autogerenciamentoem Cinco Passos

 

O intervalo de tempo entre a pré-organização de um comportamento e o seu ato expressivo permite a percepção do que se sente, a sensação do “ser movido” internamente. Este intervalo permite ativar um processo de autogerenciamento, onde é possível identificar e modular as próprias formas somáticas, participando ativamente da construção da própria existência (KELEMAN, [1987]1995; SCARPATO, 2005).

O sentido de autogerenciamento em Keleman está longe de ser uma proposta de autocontrole, mas em saber dialogar com a experiência interna e com as forças que nos ultrapassam e nos movem, de modo a desenvolver uma capacidade de reconhecer e influenciar estes processos.

Para desenvolver um bom autodiálogo é necessário encontrar uma linguagem que se aproxime da experiência. A proposta kelemaniana é encontrar esta linguagem na qual a experiência se organiza, uma linguagem não analítica, atenta às modulações de pressão, tensão e excitação, próxima da organização somática da experiência subjetiva. Nas palavras de Keleman ([1987]1995, p 37):“o processo do COMO imita nosso modo natural de funcionar. Ao enfatizar padrões internos de apertar, pressionar, relaxar, adquirimos conhecimento sobre excitação, estímulo e sentimentos”.

Agir sobre o processo organizador da experiência implica em agir sobre os padrões de ação e movimento, pois em última instância “o self é uma organização progressiva de contínuas ações musculares chamados padrões motores”(KELEMAN, [1987]1995, p 42). Pela ação modulatória sobre as próprias formas somáticas nos tornamos capazes de reconhecer com mais clareza nossas respostas e influir sobre as nossas experiências subjetivas e nosso comportamento. Como diz Keleman ([1994]1996, p 57), “o cérebro volitivo tem uma influência sobre nossas posturas sociais e nossos padrões instintivos de re-produção. A prática do Como faz uso dessa função inata, que é uma parte essencial do nosso autogerenciamento”.

O pensamento kelemaniano volta-se para o “como” os comportamentos se organizam e não apenas para as suas causas ou finalidades. O processo doComo pode ser diferenciado em cinco etapas, o que leva Keleman a denominar este trabalho de Método dos Cinco Passos (KELEMAN, [1987]1995).

O Método dos Cinco Passos permite o reconhecimento, a desorganização e a reorganização das atitudes somático-emocionais. É um modo de influenciar e transformar a organização somática dos sentimentos, crenças, pensamentos e comportamentos; um método para se trabalhar com as (pág 51)  experiências subjetivas organizadas somaticamente (KELEMAN, [1987]1995, [1989]1997, [1994]1996, [1996]1996, 2005).

Nas palavras de Keleman ([1979]1994, p 40), os Cinco Passos são “um exercício, um auto-treinamento no processo de reconhecer que palavras e imagens estão conectadas a padrões musculares, confirmar que o corpo fala e perceber que a fantasia é uma preparação para a ação”.

 

No Método dos Cinco Passos temos:

Passo 1 – imagem ou situação a ser trabalhada

Passo 2 – discriminação e intensificação da organização somática, o que permite o reconhecimento dos esboços de ação organizados, dos afetos e estados cognitivos. Permite a identificação dos padrões de ação e vínculo.

Passo 3 – desorganização volitiva e gradual da forma somática

Passo 4 – receptividade aos efeitos da desorganização, deixando surgir outros lados da experiência que estavam impedidos pela forma somática, como sentimentos, lembranças, imagens, etc.

Passo 5 – momento das respostas a partir da experiência dos passos anteriores, podendo surgir diferenciações da forma ou a volta aos padrões conhecidos.

 

a) Do Passo Um ao Passo Dois

O Passo Um é o início, a escolha da questão que vai ser trabalhada, de se acessar a história, as lembranças e os afetos relacionados à situação.

Quando a pessoa se imagina numa situação, emergem respostas automáticas em seu corpo, há uma passagem da imagem à organização muscular. Esta transição demanda um direcionamento da atenção para o corpo, para observar a forma somática se organizando. É necessária uma atitude de atenção receptiva, que procura acolher a emergência da forma somática.

Na passagem para o Passo Dois há uma ampliação, da imagem mental à imagem orgânica, à forma somaticamente organizada. As perguntas a se fazer são: Como eu faço isto somaticamente? Como eu me uso para fazer isto?

Na passagem do Passo Um para o Passo Dois há a integração da forma somática com o contexto vivencial. A pessoa não apenas se percebe vivendo uma situação, mas identifica como se organiza somaticamente para lidar com a situação vivida. As formas somáticas são sempre contextualizadas com o ambiente, os vínculos e a história de vida (KELEMAN, [1989]1997, SCARPATO, 2001b).

A partir da discriminação da forma somática, inicia-se um processo mais ativo de intensificação volitiva da organização da forma, um fazer mais o que o corpo já está fazendo. Neste momento podem emergir imagens (pág 52)  mentais, pensamentos, verbalizações internas e sentimentos relacionados à forma somática organizada. Há uma ampliação, da experiência somática aos concomitantes afetivos e cognitivos.

No Passo Dois “começamos a ter uma experiência direta de como organizamos nossa expressão inconsciente” (KELEMAN, [1994]1996, p 57), começamos a perceber como projetamos o passado sobre o presente, em que lugar colocamos os outros e a nossa atitude frente ao mundo.

A percepção discriminada das formas somática permite o reconhecimento dos esboços motores de ação, a dimensão intencional ainda não realizada do comportamento. Como diz Keleman ([1987]1995, p 25), as “contrações musculares são o diálogo que constrói a imagem das intenções”.

 

b) Do Passo Dois ao Passo Três

A intensificação da forma somática no Passo Dois propicia uma discriminação mais apurada de como esta é organizada, um fator importante para se saber como desorganizar a forma no Passo Três.

A sanfona é um instrumento musical que produz sons a partir das diferentes modulações de tensão e pressão interna. A imagem da sanfona é a metáfora escolhida por Keleman ([1987]1995) para se referir ao processo organizador e às possibilidades de influenciá-lo.

Os Passos Dois e Três são a essência da sanfona, o momento de intensificar e desintensificar a forma somática, fazer mais e fazer menos. Estes dois passos “visam dramatizar a experiência do nosso corpo oculto, emocional”(KELEMAN, [1994]1996, p 57).

No terceiro passo, “desorganizamos a postura contraída pouco a pouco, passo a passo. Esse fazer menos não significa ‘soltar’ ou ‘relaxar’. A desorganização é um ato gerenciado, volitivo; é para ser experienciado”(KELEMAN, [1994]1996, p 57).

Desorganizar a forma gradativamente torna possível experimentar os diversos graus da forma, percebendo o continuum da organização do comportamento.

 

c) Do Passo Três ao Passo Quatro

As formas somáticas estabilizadas moldam as possibilidades da experiência, sustentam modos de presença no mundo, com padrões de sentir e perceber a si mesmo e ao mundo. Desorganizar a forma é abrir-se a novas experiências, abrir as portas para novas associações, lembranças, sensações e sentimentos que estavam limitados pelos padrões de organização anteriores.

O quarto passo é o momento de recepção, de acolher os efeitos da desorganização dos padrões de ação, uma situação em que tempo e espaço (pág 53) estão dilatados, em que a ação cede terreno à receptividade, em que “o inconsciente torna-se mais consciente” (KELEMAN, [1987]1995, p 62).

No Passo Quatro “você está entre o que acabou e o que ainda não chegou, num espaço fecundo” (KELEMAN, [1987]1995, p 29).

O Quarto Passo é também o momento de incubação, em que podem brotar imagens de caminhos futuros, sonhos e possibilidades.

 

d) Do Passo Quatro ao Passo Cinco

Do estado de abertura do quarto passo, chega a hora de retornar ao mundo, o momento do quinto passo.

Na passagem do Passo Quatro para o Passo Cinco, “sentimentos e sensações internas predominam, as cenas e os símbolos se reduzem, e insights e imagens confluem como padrões de ação motora. Esse hiato organiza novas respostas às situações” (KELEMAN, [1987]1995, p 29).

No Quinto Passo pode-se organizar uma nova forma com diferenciações em relação às formas e padrões anteriores, ou pode-se retornar ao padrão anterior conhecido.

A seqüência toda dos Cinco Passos precisa ser praticada e repetida, para se aprofundar a experiência e permitir a desconstrução e reconstrução somática dos modos de presença no mundo.

 

 

 Funções e Aplicações do Método dos Cinco Passos

 

 

O Método dos Cinco Passos permite “conectar padrões musculares a estados emocionais, a imagens e a pensamentos que os acompanham”(KELEMAN, [1989]1997, p 66). O Método permite realizar uma integração entre as experiências cognitivas, afetivas, cinestésicas e proprioceptivas, unindo as diferentes camadas do organismo.

Nos Cinco Passos “desenvolvemos a habilidade de afetar o que fizemos inconscientemente” ativando um “diálogo interno entre corpo inconsciente e corpo consciente” (KELEMAN, [1994]1996, p 57)

.

“Pensamos em memória como uma coleção de imagens, situações e emoções, uma espécie de holograma do evento. Para produzir esta experiência holográfica evocamos um padrão muscular antigo, juntamente com suas associações emocionais. Ao re-experimentar esses padrões e associações, produzimos imagens internas para representar o evento. Esta ação de evocar é memória motora” (KELEMAN, [1987]1995, p 42)

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No manejo dos Cinco Passos trabalhamos com a história vivida somaticamente, com todos os acontecimentos, padrões de distresse, padrões de ação e vinculação. Trabalhar com as formas somáticas é (pág 54)  trabalhar com as memórias motoras do vivido. Ao reorganizarmos as formas somáticas, abrimos possibilidades de criação e diferenciação para a continuidade do processo formativo.

O Método dos Cinco Passos traz uma contribuição importante para a área da Psicologia ao propor um caminho de transformação que vai além da catarse e do insight. Nem sempre há uma reorganização para um estado melhor após uma catarse; do mesmo modo, o insight pode ser insuficiente para produzir mudanças, por não permitir um aprendizado sobre a própria organização do comportamento (KELEMAN, [1987]1995). O Método dos Cinco Passos permite reconhecer a organização somática dos padrões de comportamento, desorganizar seus limites, acessar aspectos profundos da experiência subjetiva, acompanhar as formas emergentes e repeti-las ativamente para a criação de novos padrões.

O Método dos Cinco Passos constitui, ao mesmo tempo, um método de investigação e um método de transformação. Suas aplicações podem ser múltiplas, podendo ser utilizado em psicoterapia, em supervisão, em pesquisa e como um instrumento de autogerenciamento ao longo da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

 

Bergson, Henri (1939/1990) Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes

____________ (1941/2001) A Evolução Criadora, Lisboa, Edições 70

Bull, Nina (1962). The Body and Its Mind. New York, Las Americas

_________ (1968). The Attitude Theory of Emotion. New York, Johnson Corp.

Keleman, Stanley ([1975] 1996). O corpo diz a sua mente, São Paulo, Summus

___________ ([1979]1994). Realidade Somática, São Paulo, Summus

___________ ([1985]1992). Anatomia Emocional, São Paulo, Summus

___________ ([1987]1995). Corporificando a experiência, São Paulo, Summus

___________ ([1989]1997). Padrões de Distresse, São Paulo, Summus

___________ ([1994]1996). Amor, in: Keleman, S. (1996) Amor e Vínculos, São Paulo, Summus.

__________ ([1996]1996). Vínculos, in: Keleman, S. (1996) Amor e Vínculos, São Paulo, Summus.

__________ ([1999]2001). Mito e Corpo, São Paulo, Summus

__________ (2005). The Formative Method: How We Voluntarily Influence Being Present in the World. Disponível em:http://www.centerpress.com/html/theformativemethod.html Acesso em 20/01/2005.

(pág 55)Luce, Gay (1975). Introduction. In: Keleman, S. (1975). The Human Ground. Center Press, Berkeley, revised edition, p 9-16

Scarpato, Artur (2001a). O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa Perspectiva Formativa, Revista Reichiana, São Paulo, n 10, p. 50-66.

_________ (2001b) Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico, Revista Hermes, São Paulo, n 6, p. 107-123.

__________ (2005). Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman, Revista Psicologia Brasil, ano 3, n 27, p 30-31.

Artur T. Scarpato – Psicologia Clínica – CRP 06/42113
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Última atualização: 06/09/2016

Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico

Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico

Artigo publicado pela Revista Hermes do
Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, número 6, 2001, p 107-123.

Artur Thiago Scarpato

Na terapia nos movemos entre sensações, emoções, posturas, palavras, imagens, etc. Neste campo compomos cartografias junto com o cliente, tentativas de dar voz aos afetos, dar novas formas ao mundo, falar dos temores secretos, dos desejos, das dores profundas, de explorar caminhos….

Criamos na terapia um espaço de intimidade, intimidade não no sentido de contato com o conhecido, familiar, mas um espaço singular de abertura protegida pelo vínculo, onde podemos deixar vir o desconhecido em nós, o estranho, o novo.

O vínculo propicia um ambiente favorável para enfrentar as muitas adversidades, para suportar níveis altos de angústia e falta de sentido. O vínculo é um dos elementos básicos do processo terapêutico.

O vínculo terapêutico é também um campo de experimentação de modos novos de vinculação, de diferenciações em relação aos padrões conhecidos e de confrontação com os modos habituais.

Cartografar o território clínico nos permite encontrar algumas coordenadas para navegar com mais segurança em direção a processos mais consistentes de vida. A função deste texto é explorar este território a partir da influência do pensamento formativo de Stanley Keleman. Problematizar alguns aspectos da dinâmica somática do vínculo terapêutico, notadamente a instrumentalização das formas somáticas do terapeuta como recurso clínico.

(início da pág 108)

IDENTIFICAÇÃO, COMPLEMENTARIDADE E ALTERIDADE

Podemos observar quatro modos de percepção dos afetos da relação terapêutica que indicam os diferentes lugares ocupados pelos membros neste espaço dinâmico. 

Vamos falar mais especificamente destes lugares a partir da perspectiva do terapeuta.

1 –  Eu sou o outro:

Os sentimentos do cliente  podem ser percebidos pelo terapeuta em si mesmo, num fenômeno de identificação. 

Uma forma de compreender o cliente é saber se colocar em seu lugar. Sair de nossa posição de outro e compartilhar o olhar, ir junto. Buscar sentir o que o cliente sente, pensar o que ele pensa, desejar e temer como ele. Assim, antes que ele fale algo, você já sentiu, numa identificação de formas somáticas e experiências. Sentir o que o cliente sente nos permitir compartilhar a sua dor e compreender o seu mundo. Muitas vezes já estamos nesta sintonia e só então nos percebemos nela a partir da dinâmica vincular. Em outros momentos podemos imitar o cliente, buscando nos aproximar de sua vivência, repetindo voluntariamente posturas e formas somáticas, num modo ativo e rico de colocar-se em seu lugar e compreender o seu mundo.

O cliente pode também fazer o terapeuta se sentir como ele. Assim, por exemplo, um cliente está falando de situações onde se sentiu sem espaço, invadido, e ao mesmo tempo fala ininterruptamente, não deixando muito espaço para o terapeuta intervir, limitando o espaço do terapeuta na sessão. O cliente faz, de algum modo, com que o terapeuta se sinta sem espaço na sessão, invadido, como ele se sente.

2 –  Eu para o outro:

O terapeuta pode ocupar um lugar de complementaridade aos afetos (pág 109) do cliente, ocupando um lugar em sua dinâmica (do cliente).

Podemos perceber o modo do cliente em relação a nós e observar a nossa tendência de resposta de complementar o seu funcionamento.

Esta é uma experiência de complementaridade, matriz de aspectos importantes da dinâmica transferencial e que será mais desenvolvido adiante no texto.

3 –  O outro para mim:

O terapeuta pode perceber o que a situação despertou em si de conteúdos pessoais (do terapeuta), com o cliente ocupando um lugar na dinâmica do terapeuta. 

O cliente pode ser o nosso outro. Podemos nos perceber paralisados, por exemplo, e explorando isto vemos o cliente ocupando um lugar em nosso teatro de dores pessoais. Explorando as nossas reações, nossos esboços de respostas  frente a ele, podemos aprender sobre nós mesmos. E podemos compreender o cliente a partir da nossa dor, o que pode nos permitir estar com ele de um outro modo. É a contraparte da complementaridade, agora a partir do processo formativo do terapeuta. 

4 –  Eu e o outro:

O cliente é vivido como o outro, dois mundos diferentes.

Percebendo o cliente “de fora” podemos apreender este “outro singular” por observações, descrições, um olhar mais diferenciado sobre a pessoa à nossa frente. Na experiência da alteridade nos aproximamos do limite de apreensão do que é um definitivamente outro. Neste momento podem surgir experiências de estranhamento, susto, distância, respeito e o início de um diálogo sujeito a sujeito, não mais sujeito – objeto.

Há assim um trânsito onde o terapeuta pode se sentir sendo o próprio cliente, sentir-se e ser o outro do cliente na relação, sentir que o cliente seja o outro de si ou ainda viver a experiência da alteridade.  

(pág 110) O vínculo terapêutico ocorre dentro de um continuum que vai da identificação à alteridade.

Transitamos entre estes diferentes lugares na terapia: sentir junto, ocupar lugares complementares, diferenciar-se destes lugares, viver a alteridade. Qualquer uma destas posições esclarece elementos importantes do vínculo terapêutico. A sua discriminação e operacionalização é um dos recursos preciosos da terapia. 

Em cada um destes modos de relação estamos envolvidos e organizados somaticamente de um modo diferente, o que implica em níveis diferentes de vínculo e diferentes qualidades de presença. 

O CORPO A CORPO DO VÍNCULO

A relação terapêutica é uma interação corpo a corpo. No sentido de que o cliente organiza um corpo frente ao terapeuta e este por sua vez responde com outro corpo.

As posturas, tensões e modulações das formas somáticas explicitam a distribuição da excitação emocional nos corpos que estão em relação naquele momento, naquele campo de afetos. Há um diálogo somático anterior ao diálogo verbal. 

Um corpo ativa algo em outro corpo, um corpo convoca o outro corpo a interagir de um determinado modo, e este por sua vez responde a partir da sua realidade somática, das suas camadas somáticas mais ativas, seu repertório de formas, suas experiências.

Os corpos dialogam numa linguagem que lhes é própria, uma linguagem de formas somáticas, camadas embriológicas, tônus de tecidos, toda uma fisicalidade básica e constitutiva da vida afetiva.

Numa determinada situação, por exemplo, o terapeuta pode sentir seu corpo se arredondando, seus braços se ampliando como se fossem pegar o cliente no colo, e observa neste momento que o cliente está organizado numa forma somática onde se faz pequeno, evocando no (pág 111) terapeuta esta forma cuidadora. Em outra situação, por exemplo, o terapeuta sente seu corpo contraído, diminuído, inseguro e percebe que esta sensação advém de uma atitude do cliente, que está com seu corpo inflado e com olhar e atitude de intimidação.

As formas somáticas e a excitação emocional do terapeuta explicitam o seu lugar no campo da relação, os modos de relação daquele cliente com o mundo e daquele terapeuta com aquele cliente.

Esta experiência se torna bastante acessível quando o terapeuta experimenta o recurso de posturar volitivamente os efeitos do encontro sobre si, dando mais nitidez às afetações e às atitudes organizadas no vínculo.

Com este recurso é possível acompanhar o diálogo infraverbal das formas somáticas, ajudando a explicitar os afetos, a dinâmica, a criar um mapa do território que permite voltar a ele, orientar-se e influenciar os processos. 

Assim, trazemos para o plano visível, consciente, o que se passa num plano de sensações, afetos, fluxos e nuances.
Neste campo, o terapeuta usa seu próprio corpo como referencial de orientação em relação ao que ocorre na terapia e na relação com o cliente. O corpo do terapeuta pode ser visto como um dos palcos onde se desenvolve a sessão.

Daí a importância fundamental de uma boa discriminação do próprio corpo – sensações, propriocepções, afetos – para o terapeuta navegar bem no universo da sessão.

O CORPO A CORPO DO VÍNCULO

A relação terapêutica é uma interação corpo a corpo. No sentido de que o cliente organiza um corpo frente ao terapeuta e este por sua vez responde com outro corpo.

As posturas, tensões e modulações das formas somáticas explicitam a distribuição da excitação emocional nos corpos que estão em relação naquele momento, naquele campo de afetos. Há um diálogo somático anterior ao diálogo verbal. 

Um corpo ativa algo em outro corpo, um corpo convoca o outro corpo a interagir de um determinado modo, e este por sua vez responde a partir da sua realidade somática, das suas camadas somáticas mais ativas, seu repertório de formas, suas experiências.

Os corpos dialogam numa linguagem que lhes é própria, uma linguagem de formas somáticas, camadas embriológicas, tônus de tecidos, toda uma fisicalidade básica e constitutiva da vida afetiva.

Numa determinada situação, por exemplo, o terapeuta pode sentir seu corpo se arredondando, seus braços se ampliando como se fossem pegar o cliente no colo, e observa neste momento que o cliente está organizado numa forma somática onde se faz pequeno, evocando no (pág 111) terapeuta esta forma cuidadora. Em outra situação, por exemplo, o terapeuta sente seu corpo contraído, diminuído, inseguro e percebe que esta sensação advém de uma atitude do cliente, que está com seu corpo inflado e com olhar e atitude de intimidação.

As formas somáticas e a excitação emocional do terapeuta explicitam o seu lugar no campo da relação, os modos de relação daquele cliente com o mundo e daquele terapeuta com aquele cliente.

Esta experiência se torna bastante acessível quando o terapeuta experimenta o recurso de posturar volitivamente os efeitos do encontro sobre si, dando mais nitidez às afetações e às atitudes organizadas no vínculo.

Com este recurso é possível acompanhar o diálogo infraverbal das formas somáticas, ajudando a explicitar os afetos, a dinâmica, a criar um mapa do território que permite voltar a ele, orientar-se e influenciar os processos. 

Assim, trazemos para o plano visível, consciente, o que se passa num plano de sensações, afetos, fluxos e nuances.
Neste campo, o terapeuta usa seu próprio corpo como referencial de orientação em relação ao que ocorre na terapia e na relação com o cliente. O corpo do terapeuta pode ser visto como um dos palcos onde se desenvolve a sessão.

Daí a importância fundamental de uma boa discriminação do próprio corpo – sensações, propriocepções, afetos – para o terapeuta navegar bem no universo da sessão.

O terapeuta é um intérprete de si mesmo, dos efeitos daquele encontro em sua subjetividade corporificada.

Quanto maior a capacidade do terapeuta em se permitir ser perpassado por fluxos afetivos na relação terapêutica, maiores as possibilidades de desdobramentos do universo existencial dos clientes na terapia.

(pág 112) Há uma certa dança, um diálogo de corpos durante a sessão terapêutica e podemos pensar como podemos acompanhar esta dança, aprender esta linguagem dançante, interativa e formativa e poder instrumentalizar esta dimensão do vínculo como um recurso para a clínica.

TRANSFERÊNCIA, PASSADO E FUTURO

Transferência e contratransferência são fenômenos do vínculo que fazem um grande sentido a partir do diálogo das formas somáticas. 

A transferência é uma experiência de complementaridade na relação terapêutica. É um fenômeno de vinculação onde o modo de ser de alguém chama o co-participante a ocupar um lugar complementar numa certa dinâmica.

Há um campo emocional criando os lugares a partir do encontro. 
 Assim, por exemplo, um cliente pode evocar um pai no terapeuta. Os comportamentos, modo de falar e se mover do cliente evocam no corpo do terapeuta um modo paternal. O terapeuta começa a se perceber com sentimentos e esboços motores de atitudes paternais.

Por um lado, isto poderia dizer do passado daquele cliente, da reativação de sua relação com o seu pai. A transferência, neste sentido, poderia ser pensada como uma transposição de processos relacionais passados, uma transferência de tempo e lugar dos personagens de um drama.

Porém, mais do que isto, a transferência contém a história presentificada, ela é a reativação recorrente de modos e formas somáticas que se construíram a partir da relação com um pai. 
Mais do que chamar o pai, o que se ativa é a memória somática de um modo de existência, ou seja, uma forma somática. 

Esta forma somática, este modo de existência, se criou a partir das experiências com um pai, determinando um modo de ser com uma certa configuração somática. No vínculo com o terapeuta aparece a história (pág 113) que se presentifica nas formas somáticas.

O que se repete é uma dinâmica vincular, um modo de existência, um repertório determinado de formas somáticas, muitas vezes fixados e  paralisados pelas experiência que a pessoa não pôde assimilar em sua vida. Estas formas somáticas cristalizadas interrompem o processo formativo e levam uma pessoa a responder às situações diversas com um repertório limitado de comportamentos, com modos reiterantes de sentir, pensar, perceber e agir.

A repetição destes modos somático-existenciais na terapia, por outro lado, abre a possibilidade de confronto, consciência e diferenciações dentro do processo de vida. Permite a desorganização de comportamentos limitantes e a emergência de novas formas somáticas a partir do vínculo terapêutico. Uma oportunidade de sair de um labirinto armado no passado, que paralisa o andamento do futuro.

AS VERTENTES DE FUTURO

O vínculo contém também uma função formativa, de gestação de novos territórios existenciais.

Um cliente, por exemplo, suscita no terapeuta coisas próximas do lugar de um irmão mais velho, mais formado, que possa ajudá-lo a entrar na vida adulta com mais recursos.

Cabe ao terapeuta poder ocupar este lugar neste campo de gestação de um modo de existência, permitindo a passagem de um momento ao outro do processo formativo do cliente, assim como cabe, ir desocupando este lugar em outro momento, quando este modo já não favorece mais o processo do cliente.

No vínculo terapêutico o terapeuta vai ocupar diferentes lugares para o cliente, de acordo com o que esteja em  evidência no processo formativo do cliente naquele momento.

A partir da percepção dos afetos, atitudes e lugares da relação, o (pág 114)terapeuta pode reconhecer os tipos de vínculo que o cliente estabelece, o que ele formativamente está precisando. 

O vínculo tem assim uma função formativa, de ajudar na desconstrução de formas desatualizadas e na construção de formas corporais contemporâneas.

No processo vincular há uma necessidade daquele lugar do outro, daquele funcionamento do outro para que o processo do cliente possa ser gestado e maturar. Acompanhar ao longo da terapia o processo vincular fornece uma referência importante das várias fases do processo terapêutico e do processo de vida do cliente.

O vínculo terapêutico é um laboratório onde novas formas podem emergir, diferenciações dos padrões habituais de comportamento, um lugar de experimentação e maturação vincular.

O vínculo, portanto, pode tanto apresentar uma reedição de uma dinâmica relacional cristalizada quanto criar uma dinâmica necessária naquele momento da vida da pessoa. O vínculo é assim tanto uma derivação do passado quanto uma vertente de futuro. Este processo é movido pelo impulso formativo, a força de criação de novas formas em direção à atualização do passado e à composição do futuro.

O CAMPO GESTATIVO VINCULAR

Trabalhando com o cliente, podemos ir aprendendo sobre o seu funcionamento, seu modo de ser habitual e o quanto isto restringe a sua vida. Observamos suas modalidades de relacionamento com o mundo, seu lugar na teia de relações pessoais, seus modos de dar e receber, mandar e obedecer, pedir e tomar, agir e esperar, etc. Podemos ajudar a esclarecer estes modos e estar juntos para ampliar os seus limites e criar novos caminhos de vida.

É necessário discriminar as sutilezas do vínculo, as variações que permitem identificar que um cliente está buscando aceitação, outro (pág 115) orientação, outro confronto e outro ainda, testando confiança. A cada momento do vínculo há questões diferentes sendo maturadas.

O terapeuta ocupa um lugar no mundo do cliente e este ocupa um lugar no mundo do terapeuta. Há um encontro do processo formativo do cliente com o processo formativo do terapeuta, criando um processo formativo daquele vínculo, numa inter-relação naquele espaço clínico.

Um elemento singular do espaço terapêutico é que o terapeuta está lá para favorecer o processo formativo do cliente, para instrumentalizar o vínculo como recurso de compreensão e intervenção na terapia.

A RESPOSTA TERAPÊUTICA

Muitas vezes um cliente não percebe os tipos de vínculo que estabelece e que contribuem, por exemplo, para que várias coisas em sua vida acabem dando errado.

Por exemplo, uma cliente veio para primeira entrevista contando histórias de rejeição, de não ser aceita pela família, de ser abandonada pelos amigos, etc. Ao longo da entrevista, ela foi provocando uma sensação muito ruim ao terapeuta, fazendo com que este sentisse vontade de mandá-la embora. Aquela pessoa estava repetindo com o terapeuta, já na primeira entrevista, uma dinâmica que ela repetiu muitas vezes em sua vida e da qual não conseguiu se diferenciar. Ela estava levando o terapeuta a querer rejeitá-la também. Caso o terapeuta fosse apenas re-agir ao seu sentimento, a teria mandado embora, dando qualquer desculpa de que não poderia atendê-la e repetindo o que acontecia no cotidiano daquela mulher. Ela sairia do consultório com as suas crenças confirmadas, seu sofrimento aumentado, seu comportamento reeditado. 

Porém o terapeuta não está na situação numa posição ingênua, apenas interagindo com o cliente, mas numa posição de observação e explicitação do que está acontecendo, atento aos fenômenos em si próprio e no cliente, neste campo que vai se formando. 

(pág 116) Percebendo em seu corpo as tendências à ação, porém retardando a re-ação automática, o terapeuta pode discriminar o que o move e o que sente e assim esclarecer o funcionamento daquele cliente: em que posição o coloca, se coloca, que afetos circulam, etc.

O que caracteriza a resposta terapêutica é a capacidade do terapeuta em  conter a sua reação, discriminar o que sente e eventualmente apontar para o cliente a sua atitude.

Devolver para o cliente a percepção sobre a dinâmica do vínculo, como no caso desta mulher, abriria uma porta para ela perceber seus modos frente ao mundo, iniciar diferenciações frente ao seu próprio funcionamento, trazendo de volta para si o que ela só via projetado nos outros, etc.

Quando um cliente pode discriminar como vê o terapeuta, que lugar este está ocupando naquele momento para o cliente, ele está abrindo um espaço para aprofundar a auto-percepção e dialogar com suas formas, percepções e afetos. 

O auto-diálogo é um dos elementos centrais do processo terapêutico formativo, onde a pessoa vai se tornando capaz de identificar as próprias formas somáticas e suas relações com a sua experiência subjetiva. A partir daí ela pode aprender modos de interagir consigo mesma e influenciar os seus processos internos, trabalhando com as próprias formas, dando início a um processo de participação ativa na construção de sua existência.

COMUNICAÇÃO DE CAMPO

Algumas vezes na terapia corre-se o risco do cliente ser atravessado por um excesso de excitação e insights que não são produtivos porque ultrapassam a capacidade elaborativa da pessoa naquele momento.

Por exemplo, em certa sessão em que caminhavam em terreno novo na terapia, o terapeuta sentiu uma certa pressão que forçava as suas costas contra a sua poltrona, na altura do diafragma. Acentuando voluntariamente (pág 117) esta pressão, percebeu organizando-se nele uma forma somática de contenção que enrijecia as suas costas e lhe dizia algo como: “pare aí, não vá mais, deixe ele elaborar o que já tem, vá devagar.” Enfim, estava sendo dito ao terapeuta o limite da capacidade de assimilação daquele cliente naquela sessão, o que pôde ser confirmado ao devolver ao cliente algumas observações sobre como estava vivendo aquele momento. 

Este é um exemplo de comunicação de campo, onde o terapeuta e o cliente trocam mensagens não verbais que atingem um ao outro em sua corporeidade e se afetam mutuamente.

Em muitos momentos na terapia não é possível falar em “minhas sensações”, mas apenas de “sensações em mim”. Os afetos, sensações e modulações da forma são elementos do campo, do entre, e só é possível entendê-los a partir daquele campo formativo e seus processos. 

O campo da relação terapêutica é extremamente rico de afetos e sentidos, de elementos visíveis e invisíveis. A relação terapêutica é atravessada por afetos de diversas ordens, o que faz do espaço terapêutico, o espaço do sentir por natureza. O acolhimento do sentir é uma das marcas maiores deste espaço, onde podemos receber em nós mesmos as sensações e sentimentos mais obscuros, sutis, indiretos e aceitar a vida em nós e em relação a nós. 

Espaço do sentir ilimitado mas do agir cuidadoso. Esta singularidade permite uma grande exploração de muitas vertentes do existir lideradas por um compromisso ético de ajuda.

Os afetos e sensações vividos pelo terapeuta na sessão podem ser grandes orientadores sobre a dinâmica do cliente. Assim, se um terapeuta está se sentindo desconfortável na sessão, ausente, com sono, etc., deve perceber o que aquela reação diz daquele cliente naquele momento da sessão e de sua terapia, ao invés de logo pensar que a questão é sua, pessoal do terapeuta, que não dormiu direito, comeu algo que não lhe fez bem, etc. Não que estes fatos não participem da sessão, determinando em parte a qualidade de presença do terapeuta, mas focar logo sobre (pág 118) estes eventos externos à sessão pode desviar o terapeuta de algo muito importante que está se desenrolando naquele momento. 

Numa determinada sessão, por exemplo, um cliente falava de sua inquietação pelo “momento agitado” que vivia em seu trabalho. Seu modo de falar, no entanto, não expressava muito de agitação, aliás, era de um tom mais contido do que agitado. Ao longo da sessão, o terapeuta foi sentindo um certo cansaço. Para o terapeuta, este cansaço começou a representar idéias como: “estou cansado de ter atendido muito ao longo deste dia, estou trabalhando muito, etc.”. O terapeuta estava vendo neste cansaço algo em si próprio e isto o deixava mais distante do cliente, um pouco ausente da sessão e tomado pelo “seu” cansaço. Até que o terapeuta ponderou se este cansaço também teria algo a ver com aquele cliente. Ao sugerir ao cliente algo relacionado a cansaço, este começou a falar de desânimo, e veio à tona uma situação de depressão que já tinha alguns anos e que não tinha surgido ainda naquele início de terapia. Essa depressão mascarada mostrou-se depois como uma das questões centrais da terapia daquele cliente. Assim, mesmo sensações do terapeuta que podem parecer simples, como uma cansaço, precisam ser observadas em suas possíveis relações com o estado do cliente e do vínculo deste com o terapeuta. 

AS FORMAS SOMÁTICAS SÃO TERRITÓRIOS EXISTENCIAIS

Podemos apreender a dinâmica da sessão estando atentos aos efeitos em nosso corpo daquilo que está ocorrendo.

Segundo Nina Bull, toda ação é precedida por uma pré-organização motora preparatória. Esta pré-organização, que Keleman denomina de forma somática, permite os arranjos somáticos necessários para a construção de todo comportamento.

As formas somáticas organizam a presença, a resposta às afetações e as ações subsequentes. Por exemplo, quando o terapeuta tem a forma de (pág 119) seu corpo se arredondando frente a presença do cliente, organizando em seu corpo uma atitude acolhedora, esta forma estaria preparando um comportamento de acolhimento, com suas respectivas falas, gestos, sentimentos, assim como determinando a sua percepção sobre aquele cliente. 

Porém, se o terapeuta retarda esta reação automática de acolhimento, observando em seu corpo os estados produzidos pela forma, pode discriminar as atitudes organizadas, os afetos presentes e compreender a dinâmica do vínculo, antes de agir e falar. Assim ele desautomatiza o processo para operacionalizá-lo terapeuticamente.

As formas somáticas ocorrem antes da percepção consciente, pois primeiro respondemos internamente e então nos damos conta destes efeitos se processando em nós. 

Quando uma forma somática não se realiza imediatamente em ação, possibilita a emergência da auto-percepção mais discriminada. Daí a importância de se inibir e retardar voluntariamente a ação para clarear os afetos e os sentidos da experiência.

As formas somáticas são organizações motoras que criam os “modos de lidar” com os acontecimentos, são territórios existenciais organizados somaticamente. As formas somáticas são a própria construção dos territórios existenciais.

Algumas formas somáticas vão se estabilizando com o passar do tempo, criando alguns padrões motores que expressam os “modos de ser” mais característicos de cada um. Estas “formas duradouras” também nascem, fenecem e se transformam para dar conta de experiências em diferentes fases de vida. 

Os territórios existenciais tem linhas de tempo próprias, no sentido de que há formas mais duradouras e formas mais efêmeras. As formas somáticas se complexificam e se diferenciam a partir dos desafios dos encontros.

(pág 120) Certas formas somáticas podem se paralisar e perpetuar pela experiência do excessivo.  As experiências excessivas ultrapassam a capacidade “de lidar” de um território existencial e levam à cristalização de formas somáticas, criando modos mais estereotipados de comportamento, produzindo estagnações no processo formativo de criação contínua de formas somáticas.

Estes estados de paralisia são os estados recorrentes na clínica em busca de recuperar o processo formativo de diferenciação, desterritorialização e reterritorialização contínuos e necessários.

O olhar para o processo formativo explicita quais formas somáticas estão se criando neste momento da vida do cliente, quais formas não dão mais conta dos acontecimentos, que conflitos de formas e estratégias de vida estão presentes e quais experiências excessivas paralisaram o processo de vida e estão impedindo a criação de novas formas e respostas frente às novas situações.

DESAFIOS FORMATIVOS AO TERAPEUTA

Cada terapeuta vive a situação de atendimento a partir de sua realidade formativa, do seu repertório de formas somáticas, dos seus modos de lidar com as situações e vínculos. Um terapeuta vai sempre encontrar alguns modos mais característicos do seu jeito de estar com seus clientes, sempre haverá aquelas atitudes mais “naturais” para aquele terapeuta, a partir de seu corpo, suas formas e sua história. 

Cartografar seus modos de clinicar, suas posturas corporais que se repetem nas sessões, pode ser um recurso valioso para um terapeuta acompanhar e poder influir em seus corpos de terapeuta.

Na relação com o cliente, o terapeuta também cresce. O terapeuta é solicitado a se deixar ser afetado pelo cliente, para poder levá-lo por caminhos novos, ajudá-lo a crescer, a aceitar novas afetações e buscar novas experiências. 

(pág 121) Lidar com estas experiências do cliente traz também desafios à forma do terapeuta. Ele precisa caminhar para que o cliente caminhe. Por isto alguns processos terapêuticos paralisam num ponto em que o terapeuta também paralisou.

O corpo do terapeuta se coloca na terapia com suas preferências, seus modos dominantes, seus limites de tolerância, seu momento formativo.

Assim um terapeuta de algum modo também escolhe seus clientes. Isto vai poder explicar por exemplo, porque um terapeuta em diferentes momentos de sua clínica se dá conta que tem um número X de clientes com uma mesma temática tal e alguns anos depois, por exemplo, tem um número Y de clientes com outra temática predominante. Estas são temáticas do processo pessoal do terapeuta, vividas e elaboradas no processo clínico com os seus clientes. O terapeuta também chama clientes com tal e tal perfil. São estes clientes que são mandados pelo “acaso”. Entre outras questões envolvidas, são estes clientes que ficam a partir das entrevistas iniciais. A terapia é um desafio também ao processo formativo do terapeuta.

CONCLUSÃO

Atender em psicoterapia é encontrar um modo de estar ao lado do cliente, buscar uma compreensão de seu universo, esclarecer o seu mundo, as suas dificuldades, reconhecer com ele os modos habituais, as estratégias conhecidas, cartografar o processo formativo, o que não dá mais conta dos acontecimentos, o que está em vias de surgir, as transições em andamento e ajudá-lo a buscar novos modos de viver, criando novas experiências, gerenciando formas, matrizes de novos comportamentos.

As formas somáticas são relacionais. A forma de cada um vai construindo o outro e neste processo vai surgindo um diálogo de formas somáticas. Trabalhamos discriminando e atuando sobre estes processos. 

Toda forma somática é vincular, toda forma somática pressupõe um outro complementar. Sendo assim, querendo ou não, percebendo ou (pág 122) não, o terapeuta é sempre chamado a uma presença somática em relação às formas do cliente. 

Atentar para os efeitos da presença somática do cliente em seu corpo, permite ao terapeuta, entre outras coisas:

– Reconhecer o sentido da experiência interna do cliente pelo efeito deste na organização somática do terapeuta.

– Reconhecer o tipo de vínculo que está se estabelecendo naquele momento do processo terapêutico e o sentido formativo deste vínculo.

O terapeuta aprende a conter os afetos da relação para devolver de forma mais organizada para o cliente. 

Este é um processo de instrumentalização da relação terapêutica. 

A relação terapêutica é uma interação de afetação contínua, onde cliente e terapeuta estão se afetando mutuamente. O terapeuta pode reconhecer os efeitos deste campo de afetação em seu corpo e assim cartografar os processos em andamento e operacionalizar o que percebe dentro do processo formativo e clínico no espaço privilegiado da terapia. 

A terapia é uma incubadora de processos formativos.

BIBLIOGRAFIA:

  • Bull, Nina, The Attitude Theory of Emotion, Johnson Corp., New York, 1968
  • Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992
  • Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995
  • Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996 (p. 123)
  • (pág 123)Keleman, S. Mito e Corpo, Summus, São Paulo, 2001
  • Rolnik, Suely, Cartografia Sentimental, Estação Liberdade, São Paulo, 1989

Notas:

 

* Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte. (p.___) Os parênteses marcam o início da página na publicação impressa, para fins de citação.

 

Modo de citação sugerido: 
Scarpato, Artur. Transferência Somática: A dinâmica formativa do vínculo terapêutico, Revista Hermes, São Paulo, número 6, 2001, p. 107-123.

 

 

* * Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: em Psicologia da Reabilitação pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. É autor de diversos artigos na área.

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Última atualização: 06/09/2016

O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa

O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa *

Artigo publicado na Revista Reichiana do
Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, número 10, 2001, p. 50-66.

Artur Thiago Scarpato**

Na década de 1960, várias pesquisas científicas começaram a diferenciar inesperados ataques de ansiedade de outras manifestações de ansiedade. A classificação diagnóstica oficial de Síndrome do Pânico ocorreu em 1980, com a publicação, pela Associação Americana de Psiquiatria, do DSM III (Diagnostic and Statistical of Mental Disorders, 3rd Edition). Em 1987, o DSM III – R, versão revisada do manual, delimitou os critérios válidos até hoje. 

Segundo a classificação do DSM, a Síndrome do Pânico pertence à classe dos Transtornos de Ansiedade, junto com as Fobias, o Estresse Pós-Traumático, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo e o Distúrbio de Ansiedade Generalizada. 

Apesar da classificação razoavelmente recente, encontramos na história descrições semelhantes à do Pânico, embora não existisse ainda a categoria diagnóstica Síndrome do Pânico. A reação de pânico pode não ser nova, mas é nova a sua classificação científica como Síndrome do Pânico ou Transtorno do Pânico, assim como há atualmente tentativas sistemáticas de compreensão do fenômeno.

DEFINIÇÃO E SINTOMAS

A Síndrome do Pânico caracteriza-se pela ocorrência de ataques de pânico inesperados e recorrentes.

Os ataques de pânico, ou crises, consistem em períodos de intensa ansiedade e são acompanhados de alguns sintomas específicos. Os mais comuns são taquicardia, sensação de falta de ar, dificuldade de respirar, formigamentos, vertigem, tontura, dor ou desconforto no peito, despersonalização, sensação de irrealidade, medo de perder o controle, medo de enlouquecer, sudorese, tremores, medo de desmaiar, sensação de iminência da morte, náusea ou desconforto abdominal, calafrios ou ondas de calor, boca seca e perda do foco visual.

Nem todos esses sintomas podem estar presentes nas crises, mas alguns sempre estarão. Há crises mais completas e outras menores, com poucas manifestações. Os sintomas começam de súbito e se acentuam rapidamente, muitas vezes acompanhados por uma sensação de catástrofe ou de morte iminente e por uma ânsia de escapar da situação. A freqüência dos ataques varia de pessoa para pessoa. 

Enquanto, nas Fobias, a pessoa teme uma situação ou um objeto específico, fora dela, no Pânico, ela teme o que ocorre no próprio corpo. Podemos considerar os casos de Pânico como fobias nas quais o que assusta são as reações do próprio corpo; é para essas reações que se volta a atenção, como deflagradoras das crises de Pânico.

O Pânico é um Transtorno de Ansiedade; isso significa que os sintomas têm como carro-chefe a ansiedade – um estado emocional de apreensão, uma expectativa de que algo ruim aconteça, um medo sem objeto definido. 

A crise de Pânico é uma experiência de pico máximo de ansiedade levada ao extremo. O pânico é o ultimo grau do continuum crescente atenção-ansiedade-pânico.

Ansiedade antecipatória

A expectativa constante de ter uma nova crise é uma das características da Síndrome do Pânico. Com essa ansiedade antecipatória, as pessoas passam a evitar certas situações e acabam restringindo suas vidas. 

Podem ocorrer reações fóbicas secundárias, que geralmente estão relacionadas às situações nas quais a pessoa teve as primeiras crises (no elevador, dirigindo, passando por um determinado lugar etc.). A partir daí, a pessoa passa a associaressas situações às crises. Com o tempo, os sintomas do Pânico tendem a ocorrer também em outras situações, mas é muito comum continuar a temer situações específicas, que funcionariam como catalisadores de novas crises. Há uma classificação diagnóstica de Síndrome do Pânico com e sem agorafobia. 

Muitas vezes, a pessoa com Síndrome do Pânico não se sente presente nas situações e não consegue responder a elas adequadamente. Em vez de se compor com o que está à volta, ela pode se sentir ansiosa na maior parte do tempo. A ansiedade pode dominar a cena num sentimento flutuante de ameaça interna, de perigo que vem de dentro e que deixa a pessoa se sentindo um tanto distante da situação presente, limitando sua capacidade, por exemplo, de sentir raiva pelo que a desagrada, tristeza pelo que não obtém, de se sentir desafiada pelo novo etc. Muitas pessoas com Pânico relatam que se sentem um pouco “de fora” das situações. 

Quando a pessoa consegue se compor com o que vive, estando mais presente nas situações, tende a ir saindo desse estado constante de ansiedade. Como veremos, aprender como estar mais presente e poder lidar com as afetações dos encontros é ativar o processo de manejar a ansiedade, ponto básico no processo de superação das crises de pânico.

PÂNICO E ESTRESSE

O conceito de estresse, criado pelo cientista canadense Hans Selye, modificou profundamente a visão de saúde e doença em vários setores da Medicina. Sua força esclarecedora ainda está para ser assimilada por novas teorias na saúde mental. Stanley Keleman, em sua abordagem formativa, recorre constantemente à noção de estresse para pensar os seus efeitos sobre o processo formativo como, por exemplo, a interferência das experiências excessivas na capacidade de criação contínua de formas somáticas no processo de vida.

O que é estresse?

Estresse é uma reação básica que todo ser vivo apresenta frente a diversos tipos de afetações, boas ou ruins. 

Quando encontramos alguém, recebemos uma notícia importante, brigamos, enfrentamos um trânsito lento, algo ocorre em nosso corpo, nosso estado interno muda, estamos afetados e temos uma resposta do organismo para dar conta desse estado de afetação. 

A resposta biológica e comportamental para lidar com esse desequilíbrio interno produzido sobre o nosso estado anterior é o que denominamos estresse

A reação do estresse permite ao organismo agrupar forças e recursos internos para lidar com a situação de estar sob efeito de um encontro desestabilizador.Frente a uma situação na qual uma determinada forma somática não dá conta, a reação de estresse participa na mobilização e na preparação de novas formas, novas respostas. O desconforto do estresse chama a mudança. 

O estresse é uma reação à afetação sobre uma ordem estabelecida, um chamado para se compor com aquilo ou, no limite, diminuir os efeitos da afetação.

Há um aumento de atividade no organismo para lidar com o fato de estar afetado.

O problema é quando o nível dessa resposta é excessivo e permanente, não se desfazendo após a situação, deixando a pessoa paralisada num certo ponto de sua resposta de estresse. 

Quando a carga de estresse é excessiva, além do que uma pessoa é capaz de suportar, pode se iniciar um processo que desencadeia várias reações emocionais e sintomas próprios; os estados de ansiedade e pânico fazem parte desse processo.

Territórios existenciais

A situação estressante pode ser, por exemplo, uma crise conjugal, um medo de estar doente ou até mesmo uma viagem ou uma promoção no emprego – algo aparentemente bom, mas que exige adaptações e mudanças internas. 

A situação torna-se excessiva, muito estressante, quando exige da pessoa mais do que ela está conseguindo agenciar dos seus recursos pessoais, quando internamente ela não está dando conta da situação. 

É sempre com as afetações dos encontros que temos que lidar: encontro com as coisas, com as pessoas, com os próprios sentimentos, encontros do “eu” – aquilo com que o “eu” se identifica – com o “não eu” – aquilo que está fora dos limites de um território existencial. 

O “não eu” pode estar dentro de meu corpo, como um sentimento que eu não entendo e não aceito ter, um pensamento que eu rejeito, uma fantasia “perigosa”, uma sensação que eu temo, enfim todas essas partículas de experiência subjetiva que não fazem parte do território no qual o “eu” se reconhece.

Os territórios existenciais são campos compostos por um conjunto de formas somáticas, por alguns modos característicos de vinculação, por visões de mundo, modos de sentir, perceber, pensar, agir, por valores, preferências etc. São configurações de mundos, tantos quantos se possa imaginar.

A questão é como algo nos afeta e como podemos dar conta de um certodesmanchamento de nossos territórios existenciais que os encontros e afetações provocam; como se compor com os acontecimentos a partir das mudanças necessárias no processo da vida ou como ativar modos de limitar os efeitos desorganizadores do excessivo. 

O continuum do susto

No plano comportamental, a resposta de estresse envolve a ativação de certas emoções e atitudes para dar conta desses encontros que nos desequilibram. 

Quando vivemos uma situação que mexe muito conosco e nos desestabiliza, é ativada uma reação automática chamada reação de luta ou fuga. Essa reação faz parte da resposta biológica do estresse e nos prepara para respondermos à situação nova. 

Há um continuum de formas somático-emocionais nessa resposta frente a qualquer situação desestabilizadora, que Keleman denomina continuum do susto

O continuum do susto é a reação automática ativada quando uma experiência ultrapassa o limite de uma forma somática, o limite de um território existencial, chamando novas respostas para lidar com a situação. 

Para desencadear o continuum do susto, é necessário um potencial de estranhamento, uma capacidade de tirar o organismo de sua estabilidade. O continuum do susto é a reação frente à falta de forma para lidar com uma situação.

Nós somos desestabilizados muitas vezes nos encontros, e nossa capacidade de nos compormos ou não nesses encontros determina a experiência do assimilável ou do traumático.

O ser suportável ou excessivo depende de quanto um organismo suporta de estranhamento em si, potencializando-se em movimentos de diferenciação e complexificação de formas e estratégias de vida ou paralisando-se em tentativas de reduzir os efeitos de desorganização, de perda de limites e referências.

O continuum do susto é uma seqüência de formas emergenciais no processo de lidar com o novo.

Num primeiro momento, há um aumento de atenção para o que está ocorrendo; há uma reação de alarme inicial, em que o organismo endurece um pouco, suspende a respiração, ativa os receptores (olhar, ouvir, cheirar e sentir) e dirige a atenção. 

Caso a intensidade dessa mobilização seja suficiente para dar conta do que ocorre, com um reconhecimento adequado da situação e de seus efeitos, a reação de alerta se desfaz, e se organiza um modo de se compor com a situação e os afetos. 

No entanto, caso a experiência do estranhamento seja mais intensa, isto é, aquela afetação ameace algo em mim, posso me perceber organizado para defender o meu território, limitar a entrada do outro, criar um certo isolamento.

Avançando ainda mais no continuum da ameaça do estranho, posso agredir e atacar, buscando destruir o outro como modo de proteger o meu mundo. Há um aumento de minha força contra a ameaça do outro, um aumento da potência de um território contra o estrangeiro.

São graus de estranhamento – inicialmente, com mais atenção; em seguida, com criação de barreira e isolamento; depois, até com tentativas de agressão. 

Com o avanço da presença do outro em mim – ameaça pelo aumento de potência do estrangeiro –, posso começar a entrar em estado de medo, no qual enfrentar a situação já não é uma solução eficaz; me sinto ameaçado demais e começo a querer fugir da situação. Não dá para me compor com o outro, com a afetação, com aquilo que não é assimilável; preciso evitar para me salvar. 

Nesse momento, podem surgir experiências de ansiedade, confusão, pânico etc. Os estados de ansiedade e confusão interna marcam o conflito entre ficar para enfrentar a situação e fugir; expressam a coexistência de duas respostas simultâneas e contraditórias no comportamento – enfrentamento e fuga.

A intensificação do efeito de estranhamento do outro sobre mim me agride, me desorganiza, ameaça minha identidade, preciso recuar, para trás e para dentro de mim mesmo. 

E, finalmente, não posso dar conta, não posso mudar a situação, nada me resta a não ser a entrega, a derrota, o colapso. Caio em apatia, tristeza e depressão. A afetação foi demais para mim, me agrediu demais e nada posso fazer para mudar. 

Esquematicamente, o continuum do susto ficaria assim:

(1) Inicialmente, respondemos com mais atenção, cuidado; 

(2) em seguida, se o grau de afetação for mais intenso e nos ameaçar, reagimos com isolamento, depois com enfrentamento e raiva. 

(3) Caso a situação nos ameace ainda mais intensamente, começamos a nos sentir incapazes de dar conta do que ocorre e passamos a sentir medo,ansiedade, e

(4) podemos então caminhar para o pânico, grau extremo de uma situação excessiva, insuportável. 

(5) Daí em diante, se a situação persistir, tendemos a recuar e começam a surgir as respostas de tristeza, abatimento, desânimo, 

(6) colapso e depressão.

Nesse processo, há duas direções básicas de respostas: uma para reações de enfrentamento e luta (avançar), com aumento da organização das formas somáticas, e outra, quando a experiência é muito excessiva, para trás, para dentro, com respostas de fuga (recuar), com perda de organização das formas somáticas. 

Quando não podemos avançar nem recuar, não conseguindo nos compor com a situação, ficamos no estado de ansiedade e pânico.

A ansiedade é a expressão de uma excitação interna com a qual o organismo não consegue encontrar um modo de se compor, uma forma para dar conta da excitação. Como dissemos antes, a experiência do pânico é o ápice do continuum crescente atenção-ansiedade-pânico

Sempre temos que lidar com os efeitos e as reverberações dos acontecimentos em nós mesmos. Os limites e os modos de lidar são sempre pessoais, singulares a cada pessoa. 

A experiência emocional de pânico

A experiência emocional de pânico é uma experiência normal, que muitos podem sentir numa situação muito intensa como, por exemplo, dentro de um edifício em chamas. 

Nessa situação, o perigo é evidente e a reação de pânico mostra que se passou do limite de dar conta do que se está vivendo. Quando a pessoa está em pânico, já se encontra muito inundada pelo que está acontecendo, podendo, por exemplo, ficar num forte estado de confusão e se atrapalhar muito ao tentar sair do edifício, ficar paralisada e não conseguir fazer nada ou não suportar a situação e pular pela janela.

A pessoa atingiu um ponto no seu continuum do susto no qual o que a afeta é excessivo, ela não consegue organizar seus recursos internos. 

A reação de pânico que ocorre nos estados de Síndrome do Pânico é basicamente a mesma, só que a pessoa está reagindo a um perigo que vem de dentro dela. 

Mas pânico frente a quê, a que perigo?

Essa é a questão mais importante a ser respondida para toda pessoa que apresenta Síndrome do Pânico, pois aponta para as causas que a levaram ao estado de Pânico. A resposta a essa pergunta é sempre singular, cada um tem os seus motivos, mas todos têm um motivo.

O estranho que me habita

O pânico é uma reação frente a uma experiência excessiva da qual a pessoa não está conseguindo dar conta. Na Síndrome do Pânico, o que produz o excessivo está dentro da pessoa; um estado interno indica haver coisas em sua personalidade que estão vivendo como estrangeiras dentro dela. Quando essas coisas começam a vir à tona, produzem as reações do continuum do susto no grau do Pânico. 

Enquanto no edifício em chamas o perigo é visível, no Pânico o perigo é invisível

Esse estranho não tem nome, é um desconhecido que habita e domina a vida da pessoa. São sentimentos, sensações, micropartículas de experiência que estão marginalizadas de um território existencial dominante.

A pessoa se descobre ativada em suas respostas-padrão de luta ou de fuga frente a algo desconhecido, ao estranho dentro de si. Por isso a reação parece tão sem sentido; o visível é apenas a taquicardia, a falta de ar etc. 

Há algo pedindo passagem que não encontra lugar ao sol, que fica rejeitado, cindido da percepção consciente e que, quando emerge, produz uma intensa reação de estranhamento e desencadeia o reflexo do susto. Há uma reação de susto frente a uma excitação interna que não encontra modo de expressão, uma excitação sem forma. 

DESCONEXÃO: A SINGULARIDADE DO PÂNICO

O pânico é uma resposta de alta excitação numa situação limite em que não há possibilidade de se compor com o que afeta e, ao mesmo tempo, em que não há recurso viável de fuga; não dá para lutar e não dá para fugir daquilo que está dentro da pessoa e que ela não reconhece. 

Só é possível cindir partes da experiência, dividir-se a si mesmo em compartimentos, perceber e se identificar apenas com algumas partes e deixar outras ignoradas.

No Pânico, a reação ativada é a de desconectar a experiência somática, ver o problema objetificado no corpo e pensar: “estou tendo um ataque cardíaco”, “vou morrer” etc. É interessante notar que, geralmente, as pessoas com Pânico vivem como se o seu corpo fosse uma ameaça constante. A percepção se volta para as manifestações orgânicas, que parecem caóticas, levando a uma experiência de intensa ansiedade, com medo de morrer, de ter um ataque cardíaco etc. Há uma falência de sentido para o que está acontecendo.

A pessoa percebe a sua reação de susto frente a algo, mas não percebe esse algo, que está desconectado, separado da percepção, produzindo a resposta emocional de pânico. 

Nas Fobias, eu fico ansioso frente a objetos e situações; no Transtorno Obsessivo-Compulsivo, eu reajo aos pensamentos e às compulsões; no Pânico, eu me desespero por aquilo que está agindo em meu corpo, produzindo aquelas reações. 

Assim, nos aproximamos da singularidade do processo que leva ao Pânico: a desconexão entre a experiência somática e a experiência cognitiva.

A percepção das emoções

Segundo Nina Bull, em toda emoção (tristeza, raiva, alegria etc.) há pelo menos três componentes: 

– um componente fisiológico, como as alterações respiratórias, cardíacas, vasculares, digestivas etc.;

– um componente postural, muscular, que organiza um esboço de ação; na raiva, por exemplo, uma preparação para brigar;

– um componente cognitivo, que pode reconhecer a reação interna e o estímulo/situação que desencadeou a emoção. 

A integração desses três componentes (visceral, postural e cognitivo) possibilita adiscriminação consciente do que uma pessoa está sentindo e uma atitude orientada frente ao mundo. A percepção combinada das reações orgânicas, das alterações posturais e da situação vivida constitui o que podemos chamar deemoção.

Assim, se uma pessoa se percebe com determinadas tensões musculares, o coração batendo forte, a respiração acelerada e encontra uma situação da sua vida relacionada a essa reação, pode discriminar que está sentindo raiva e até saber o motivo. 

Algumas vezes, a pessoa pode não saber o motivo, mas tem suficiente discriminação para perceber, pela sua organização somática, o tipo de emoção que está se organizando. Por exemplo, se uma atitude postural está organizando uma tendência motora de bater, xingar etc., pode-se identificar a emoção de raiva. Há uma percepção de direção e intenção nas reações do corpo, há um senso de orientação interno. 

Esse senso faz com que haja uma integração entre o sentido da experiência e as reações do corpo.

Quando não há essa integração, a atenção recai sobre as “reações estranhas” que estão ocorrendo no corpo. 

Esse é o processo que ocorre nas pessoas com Pânico: há uma certadesconexão entre as reações somáticas e o sentido mental da experiência.

As pessoas que têm pânico freqüentemente se “desligam”, “ausentam-se” da situação presente pouco antes de as crises começarem. Isso permite pensar que, frente ao estranho que se anuncia dentro de si, inicia-se um processo de desconexão, que faz com que a pessoa se afaste do corpo e, logo depois, perceba as sensações como estranhas e ameaçadoras, respondendo com ansiedade e pânico. A pessoa se desconecta de seu corpo e aí a crise se instaura, com um grande susto em relação ao que nele ocorre.

As manifestações orgânicas “separam-se” da dimensão cognitiva, tornando-se sem sentido, estranhas à consciência. A ansiedade decorre desse estado: é uma reação frente a algo interno desconhecido; a pessoa se assusta com o que sente em seu corpo. A partir daí, desencadeia-se um movimento crescente de ansiedade que caracteriza as crises de Pânico. 

Assim, a característica mais específica da Síndrome do Pânico é essa desconexão entre a dimensão somática e a dimensão cognitiva, que explica como uma pessoa pode chegar a viver um enorme “estranhamento” em relação ao próprio corpo, em relação às sensações vividas dentro da pele. 

As estratégias para lidar com o excessivo

As afetações dos encontros são desafios às formas dominantes; são oportunidades para o organismo ampliar suas estratégias de vida ao lidar com elementos novos e se compor com isso. No entanto, todo desafio tem potencial de ser vivido como agressão. A agressão significa que a experiência produziu abalos intensos na forma e no funcionamento de uma pessoa e entra no campo do não-assimilável, do traumático.

Tomado pelo excessivo da afetação, é possível, no entanto, minimizar os seus efeitos. Os recursos incluem transformações nos tecidos do corpo, como adensamento, enrijecimento, inchaço e colapso – alterações emergenciais das formas somáticas para limitar o efeito devastador da excitação excessiva, da ansiedade e do estresse.

A desconexão percepção-soma é um modo de proteção frente ao excessivo, um dos momentos do continuum do susto. Quando não há como enfrentar nem fugir, um dos recursos é distorcer a autopercepção, uma tentativa limite de evitar a avalanche do inassimilável.

Por exemplo, frente ao excessivo, certa pessoa infla e, assim, dilui a excitação, sentindo menos; outra adensa e contém a reação dos afetos; outra, ainda, desconecta a experiência somática da experiência cognitiva, tentando se desligar dos efeitos do encontro em seu corpo.

Todas essas respostas expressam modos distintos de responder ao estresse excessivo. São modos de lidar com os acontecimentos, modos que permitem regular as intensidades possíveis ou intoleráveis, o que é suportável e o que é insuportável.

Frente a uma experiência de estresse muito intensa, algumas respostas podem ficar cristalizadas e perdurar como padrões organizados somaticamente, denominados por Keleman padrões de distresse. Um padrão de distresse é um conjunto de respostas solidificadas e cristalizadas que passam a limitar a amplitude de comportamentos de um organismo frente aos encontros; são padrões de resposta somática frente ao estresse excessivo que não se desfazem sozinhos. As pessoas com Pânico, por exemplo, ativam facilmente o padrão de desconexão cognição-soma frente ao excessivo.

O que predispõe ao Pânico

Há diversos modos de resposta ao excessivo que levam aos chamados estados psicopatológicos: recuar e deprimir, inflar em mania, desconectar e entrar em pânico etc.

Essas respostas singulares dependem da história de agressões vividas pela pessoa, do seu modo de lidar com as experiências excessivas, do seu repertório de formas somáticas, das suas heranças constitucionais etc. 

Algumas pessoas têm maior facilidade de desconectar a experiência cognitiva da experiência somática, fenômeno que ocorre no processo que leva ao Pânico. O surgimento dessa desconexão está relacionado às experiências emocionais muito intensas, tanto presentes quanto passadas. 

Parece haver, no entanto, uma tendência à desconexão em pessoas que tiveram experiências traumáticas muito precoces, nos primeiros meses de vida, quando o mecanismo de desconexão era um dos poucos recursos de proteção disponíveis frente às experiências excessivas. Essas pessoas parecem ter mais chances de desenvolver Pânico em algum momento da vida, pois mantêm organizado um padrão de desconexão ao longo dos anos.

A falta de confiança no corpo

Na crise de Pânico, a pessoa vive um profundo estranhamento em relação às suas sensações corporais; seu corpo é vivido como uma fonte de ameaça. Essa é uma das características centrais do pânico: os perigos vêm de dentro, vêm do próprio corpo. Nessa experiência de perigo interno, a pessoa reage com ansiedade e pânico, o que leva aos vários sintomas físicos, emocionais e cognitivos característicos.

Há um modo singular pelo qual tais pessoas lidam com as sensações corporais. Cada sensação diferente ou mais intensa do corpo pode ser percebida como um sinal de início de uma nova crise, um sinal de que “aquilo está vindo de novo”. Isso leva a um patrulhamento constante de que algo possa sair do controle. As pessoas com pânico fazem constantemente interpretações equivocadas e catastróficas de suas sensações corporais. 

A pessoa geralmente tem o ataque de pânico desencadeado por uma sensação do corpo que a assusta: uma alteração no batimento cardíaco, uma sensação de perda de equilíbrio, tontura, falta de ar, alguma palpitação ou tremor, por exemplo.

Uma das marcas desse processo é a falta de confiança no corpo. A pessoa vive uma profunda desconfiança do funcionamento do organismo e das sensações que dele derivam.

Os estados de ansiedade são acompanhados por alterações respiratórias que costumam produzir hiperventilação. Esta cria um desequilíbrio entre os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue, levando a várias manifestações perceptíveis, como formigamentos, aceleração dos batimentos cardíacos, tontura, sensação de falta de ar etc., sinais típicos das crises de Pânico. 

A ansiedade desperta muitas sensações, decorrentes da hiperventilação, que tendem a ser interpretadas pelas pessoas com Pânico como indícios de uma crise iminente. A ansiedade dessa sensação de iminência leva a mais ansiedade e, conseqüentemente, a mais hiperventilação, com mais sensações, num labirinto crescente em direção ao pânico.

O controle da hiperventilação, por meio de exercícios respiratórios específicos, é um recurso importante no controle das crises de Pânico.

OS MOMENTOS DE TRANSIÇÃO

Todos os momentos de transição na vida podem ser pontos críticos que levam às experiências excessivas, que ultrapassam as possibilidades de assimilação de uma pessoa. São momentos favoráveis para a eclosão dos muitos tipos de sofrimento emocional, entre os quais a Síndrome do Pânico.

As transições difíceis podem ocorrer nas mudanças de fases da vida, como a passagem pela puberdade, a saída da adolescência, a passagem para a vida adulta, para o adulto maduro, para a terceira idade. 

Há inúmeros outros momentos e situações críticas de transição – o crescimento dos filhos, a perda de satisfação e de sentido no trabalho, o fim de um relacionamento afetivo, o nascimento de um filho, entre vários e vários outros.

Todas essas situações de transição podem produzir abalos intensos no modo de vida de cada um. Muitas pessoas não se dão conta dessas passagens, dessas “crises”; apenas sentem seus efeitos posteriores e sintomas.

Esses momentos críticos são favoráveis para iniciar o processo de desequilíbrio interno, de marginalização de partes de si, que poderá levar algumas pessoas a desenvolverem Síndrome do Pânico. Essa é uma forte possibilidade reativa em pessoas que já apresentam uma acentuada tendência à desconexão psique-soma. 

A origem da Síndrome do Pânico precisa ser buscada na história de vida da pessoa, geralmente na época em que começaram as crises, quando aspectos importantes de sua vivência foram deixados de lado e retornam como elementos estranhos à própria pessoa, levando à resposta de pânico.

O excessivo nas transições

Vamos falar de um caso, entre muitos outros, em que a transição foi notadamente o deflagrador de um processo que levou à Síndrome do Pânico.

Uma mulher chega à terapia com uma história de 12 anos de Pânico. Pudemos observar, ao longo de seu processo, sua dificuldade em lidar com as mudanças decorrentes do avançar para a terceira idade, as mudanças em seu corpo, nos ritmos internos, na imagem social, na situação econômica etc. 

Na época que se seguiu à menopausa, essa pessoa foi endurecendo seu corpo, numa tentativa ferrenha de manter uma situação interna que buscava negar as mudanças em andamento. Ela criou uma batalha interna silenciosa, para manter um modo de funcionamento e uma imagem de si – “ativa e alegre” como antes –, deixando uma parte de si marginalizada, escondida de si mesma.

Essa pessoa insistia em um modo de viver que não condizia com sua realidade interna nem externa, tentando negar as afetações das transformações que ocorriam em seu corpo e outras mudanças em sua vida, como seu padrão econômico, que caiu com o envelhecimento do marido, o provedor da casa.

Conforme os acontecimentos se faziam mais evidentes e a estratégia de negar partes de si não dava mais conta, essas partes negadas, excluídas, foram voltando, minando aos poucos a aparente segurança conquistada. Essas afetações expulsas retornavam como sensações e sentimentos não assimilados, que eram, então, vividos como estranhos dentro dela. 

Ela sentia coisas que não conseguia nomear, identificar, e, assim, surgia a ansiedade – que é uma reação frente ao desconhecido dentro de si. A pessoa estranhava o que tais sensações e sentimentos produziam e reagia com ansiedade e pânico frente àquelas experiências.

As sensações não tinham nome, não tinham sentido, e eram vividas como se fossem reações estranhas, loucas, que ameaçavam a integridade de sua vida, desencadeando respostas de intensa ansiedade. 

Tudo parecia sem sentido, mas, na realidade, tudo tinha um sentido, desconhecido para a pessoa. 

Reconhecendo as transições, elaborando os processos em andamento, reconectando-se com suas experiências somáticas, modulando suas formas somáticas para acolher as novas afetações, essa mulher pôde sair do estado de Pânico e encontrar modos mais formativos em sua existência. 

O estranhamento de coisas em si produz ansiedade como reação ao desconhecido. O estado de ansiedade produz ainda mais reações no corpo, como hiperventilação, reações nos batimentos cardíacos, no fluxo de sangue, no estado de consciência etc. A pessoa vai sendo tomada por uma avalanche de reações que parecem sem sentido, como se fossem levá-la à loucura, à morte. 

Podemos dizer que as causas do processo que leva ao pânico são experiências internas não assimiladas. A pessoa não consegue identificar o que está vindo junto com as crises, todas as experiências de vida que foram negadas, excluídas de seu mundo, e, assim, acaba tendo crises de pânico frente ao desconhecido que a invade por dentro.

A essas experiências não assimiladas, a pessoa reage com uma desconexão cognição-soma, o que leva às crises de pânico.

Conflito de formas

Um cliente de 46 anos chega para o tratamento com uma história de muitos anos de crises de Pânico e depressão. Fala de seu problema com uma certa distância e objetividade, como se se referisse a algo externo a ele, algo com que não está identificado. Conta histórias em que se mostra bastante orgulhoso de suas conquistas profissionais e financeiras, mas, ao mesmo tempo, diz que está sofrendo muito e que sua vida está um inferno. Em seu modo de falar, evidencia-se um elevado grau de autocontrole. 

Deitado, já podendo se perceber mais, diz que sente uma grande tristeza no peito, com um forte desânimo; sente insegurança e fantasia perder todo seu dinheiro, o que diz ser racionalmente infundado, pois tem um bom patrimônio. 

Observando suas expressões, gestos e formas, percebemos que seu rosto apresenta uma expressão em desacordo com o estado do seu peito.

Intensificando volitivamente essa expressão do rosto, vai se organizando em todo o seu corpo uma forma somática em que ele fica rígido e insensível em relação ao mundo e a si mesmo. Relata que essa é uma atitude muito conhecida sua, “para inibir o sofrimento” emocional; diz que tem muito “medo de sentir dor”, que luta para não sofrer com experiências como perdas afetivas e quebras de vínculos e que faz de tudo para “não sentir”. Ele já percebe que, por exemplo, quando vai cumprimentar alguém, muitas vezes acha que está sorrindo, mas de fato não está. Sente a alegria interna, mas a emoção não chega a ser expressa em seus gestos.

Conforme desorganiza vários graus de sua forma rígida, vão surgindo experiências mais profundas que lhe lembram a sua juventude, a época em que tocava um instrumento musical etc.

Assim, fomos cartografando suas organizações somáticas e encontramos duas formas e territórios conflitantes. Uma forma do “durão” e outra, mais suave e afetiva.

Seu repertório de formas somáticas falava de um garoto adolescente muito sensível, que endureceu para dar conta de sua fragilidade e poder “crescer na vida” a partir de um ambiente emocional familiar muito árido.

Essa forma do “durão” passou a inibir o seu modo suave, uma forma somática passou a impedir a emergência de experiências de outra ordem, o território do “durão” limitava muitas possibilidades de afetividade e sensibilidade em sua vida.

Essa pessoa havia criado uma estratégia de enrijecimento somático para escapar de uma situação de muita dor e fragilidade em sua vida e para alcançar um modelo de homem que ele havia idealizado. No entanto, havia instaurado dentro de si uma verdadeira ditadura de um modo rígido sobre um modo sensível. 

Podemos observar, nesse caso, um funcionamento duplo, duas organizações somáticas, dois modos de ser brigando entre si. No jogo de forças instalado, cada forma somática representava uma ameaça à outra. Pela ótica do seu modo “durão”, o seu maior medo era perder o dinheiro e o status, as maiores conquistas desse modo de funcionar. Assim, o seu medo aparentemente “infundado” era, na realidade, a ameaça de rachar uma estrutura dura, porém frágil, construída literalmente com sacrifício de outras partes de si a partir de uma política interna opressiva.

Quando seus sentimentos cresciam, aumentava seu endurecimento, cindia a experiência somática da percepção consciente, até o ponto em que vivia suas sensações com profundo estranhamento e ameaça, o que o levava ao Pânico.

Esse homem oprimia havia muitos anos sua forma mais afetiva, numa luta constante para paralisar e negar as afetações dos encontros com o mundo, uma tarefa fadada ao fracasso, mas sempre reempreendida à custa de crises episódicas de pânico e de muita medicação para tentar calar o desconforto.

Encontramos freqüentemente, nos casos de Pânico, um conflito de formas somáticas, com uma história que fala de momentos de transição em que a organização de um modo de existência implica na tentativa de paralisação das afetações, dos acontecimentos, das transformações.

O Pânico é uma reação a um estado interno do qual a pessoa não dá conta, algo que ela sente e que não cabe em seu modo habitual de funcionar, algo que ameaça as suas formas dominantes e passa a incomodar por baixo, como excitação não assimilada, que não pode se expressar em formas somáticas novas. Frente a essa excitação, a pessoa reage com estranhamento, susto, ansiedade e pânico.

O TRATAMENTO

Padrões de distresse: a pré-crise constante

Se uma pessoa está muito paralisada num determinado modo de funcionamento, num padrão de distresse, seu repertório de respostas torna-se limitado e sua abertura e flexibilidade para lidar com diferentes situações, reduzidas. Essa pessoa será mais freqüentemente ameaçada pelo excessivo, pois terá menos possibilidades de modular suas formas somáticas para receber novas excitações, menos possibilidades de criar respostas diferentes, de se adaptar a uma nova situação.

Uma pessoa cristalizada no padrão de desconexão poderá, freqüentemente, responder com desconexões frente às afetações e, assim, reagir com crises de Pânico. É importante reconhecer e trabalhar esses padrões, para desativar o gatilho armado do Pânico e diminuir a ocorrência de crises. 

Observamos que, geralmente, após as crises, a pessoa permanece em estado de prontidão para ter novas crises, pois ainda mantém organizados os padrões de distresse que a levaram ao Pânico. Aliás, foi a organização desses padrões ao longo da vida que preparou o terreno para o Pânico.

Por exemplo, a contração crônica do diafragma e a desorganização da autopercepção (desconexão) são traços psicofísicos que mantêm a pessoa em estado de prontidão para ter novas crises. 

Precisamos desarmar esses gatilhos, por meio da desorganização dos padrões somáticos que deixam a pessoa ansiosa, em estado de pré-crise, e sem outro recurso para lidar com a excitação além da desconexão psique-soma ou da depressão. 

A depressão é também um modo de lidar com a excitação interna, limitando e diminuindo a vitalidade e a pulsação emocional. Uma pessoa com Pânico que deprime pode estar lançando mão de um recurso de proteção pois, limitando sua mobilidade e motilidade, encontra um modo de diminuir a excitação e, assim, evitar o Pânico. A depressão pode ser também um modo de se proteger contra o Pânico, até que a pessoa tenha condições de lidar com um nível maior de excitação com forma e sentido.

Por trás da desconexão cognição-soma, há sempre uma excitação que não encontra modo de expressão. Esse processo atua como um deflagrador, levando uma pessoa a usar o recurso radical da desconexão para lidar com experiências internamente excessivas. Esse fato não é consciente, e o surgimento do Pânico parece sempre “sem motivo”. A identificação das transições em andamento, dos conflitos de formas, das afetações inaceitáveis, é fundamental para a superação da Síndrome do Pânico.

No trabalho terapêutico, atuamos sobre os padrões psicofísicos que constituem a resposta do Pânico em suas relações com a história de vida. Precisamos atentar para as interrupções do processo formativo, os padrões de distresse envolvidos, a dinâmica funcional dos sintomas, os fatores existenciais da história de vida, os processos vinculares e os fatores contextuais, como, por exemplo, ambientes com diferentes qualidades.

Um enfoque global permite tanto um alívio do sofrimento trazido pelas crises quanto a superação e a cura, por chegar às causas que precipitaram o Pânico.

Algumas pessoas chegam para tratamento muito paralisadas pelo excesso de crises de pânico. Nesses casos, podemos indicar a utilização de medicamentos específicos paralelamente ao tratamento psicoterapêutico. 

As técnicas utilizadas

A pessoa aprende técnicas para influenciar as suas crises. Primeiro, aprende técnicas para diminuir a intensidade das crises; depois, como limitá-las e evitá-las, até atingir um ponto, no decorrer da terapia, em que não as têm mais. 

Assim, a pessoa vai saindo da fase das crises, podendo assimilar os sentimentos e sensações que a haviam levado ao Pânico; vai reconhecendo as transições em sua vida que não estavam sendo elaboradas e encontrando modos mais vitais de lidar com as afetações e os encontros. 

As principais técnicas utilizadas são o manejo postural dos estados de ansiedade, exercícios respiratórios, trabalhos com centralização da atenção e trabalhos de convergência binocular focal, entre algumas outras. Trata-se de técnicas com ação específica para a situação de Pânico, que ajudam a manejar as intensidades da ansiedade e do pânico. 

Os exercícios somáticos são fundamentais por vários motivos:

– atuam sobre a questão central do pânico, a da integração cognição-soma; 

– levam a resultados muito significativos no manejo dos estados de ansiedade e pânico;

– realizam uma verdadeira educação somática, ensinando meios para a pessoa gerenciar seu processo formativo, modulando suas formas somáticas, as matrizes dos territórios existenciais, aprendendo modos de navegar nos devires, participando ativamente da construção de sua própria existência.

Ampliando: transições e história de vida

Na terapia, buscamos ampliar a compreensão dos processos afetivos, recontando a história de vida a partir da realidade somática formativa, revendo os acontecimentos e os modos de lidar, para esclarecer os “nós” que levaram ao Pânico. 

Mapeamos as transições, as crises e as pressões presentes nos momentos em que o Pânico começou, as formas e as estratégias de vida que não deram conta dos acontecimentos, as formas e os processos emergentes. Buscamos reconectar a pessoa ao seu processo formativo. 

A superação da Síndrome do Pânico é possível pela aquisição de maior capacidade de elaboração das emoções, pela reorganização dos padrões de distresse que levaram ao Pânico e mantiveram-no e pela formação de outros modos de sentir, perceber e agir, criando caminhos pessoais mais satisfatórios.

No tratamento de uma pessoa com Pânico, precisamos aproximá-la das afetações em sua vida, do reconhecimento das formas que surgem dessas afetações e dos novos sentidos que podem derivar em sua vida a partir daí. Precisamos abrir os territórios existenciais a novos sentidos e afetos, à criação contínua de novas formas no processo de construção da existência.

Superar a experiência do Pânico pode ser uma grande oportunidade de crescimento pessoal; de uma retomada vital e contemporânea do processo formativo. 

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Nota: O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido:

Scarpato, Artur. O estranho que me habita: a Síndrome do Pânico numa perspectiva formativa,Revista Reichiana,São Paulo, numero 10, 2001, p. 50-66.

 

 

**Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

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Última atualização: 06/09/2016