Flexibilizar a Atenção para Regular a Ansiedade

O processo de atenção tem relação direta com o estado emocional. Na ansiedade, a mente funciona em estado de alerta, buscando qualquer coisa que possa representar risco e ameaça, seja algo vindo do mundo externo ou de dentro do indivíduo. Neste estado, predomina uma atenção estreita e distanciadora, quando a mente tenta localizar e afastar possíveis ameaças.

Identificamos este modo de atenção nos estados de estresse crônico e nos Transtornos de Ansiedade como Síndrome do Pânico, Fobia Social e Transtorno de Ansiedade Generalizada.

O funcionamento de uma atenção estreita e distanciadora é evidente no modo com que uma pessoa com Síndrome do Pânico se relaciona com as reações em seu corpo. Ela monitora e fica aflita com o que sente, interpretando cada reação como prenúncio de um caos interno que pode eclodir a qualquer momento.

Há um estreitamento no foco de atenção – como se aquilo fosse a única coisa que importasse – e um distanciamento, no qual há uma tentativa de afastar e “se livrar” daquilo que acontece dentro de si.

Nos Transtornos de Ansiedade este modo de atenção estreita e distanciadora tende a se cronificar, contribuindo para a manutenção de um estado ansioso, alerta e tenso que não se relaxa nunca.

Assim como a ansiedade se acompanha de um modo particular de organização da atenção, a cronificação deste modo de atenção contribui para manutenção do estado ansioso.

Um caminho importante para sair do estado de ansiedade cronificado é trabalhar diretamente para flexibilizar o processo da atenção, ativando outros modos de funcionamento atencional.

Através da ativação de um modo de atenção aberto e imersivo, criamos um foco aberto de atenção que recebe e inclui as reações de ansiedade num campo atencional maior sem se fechar sobre a “ameaça”. Ao mesmo tempo, através de um modo imersivo busca-se aceitar – ao invés de afastar – o que é sentido.

Assim é possível interromper a luta contra as reações internas “perigosas” que geram tensão e mantém o aprisionamento na ansiedade. Quando se para de brigar contra os sinais da ansiedade – sejam reações físicas ou pensamentos negativos – a ansiedade diminui e retorna para os limites assimiláveis da janela de tolerância.

A mudança de um modo crônico de atenção estreita e distanciadora para um modo de atenção aberta e imersiva permite uma reorganização do padrão crônico de ansiedade. Assim se pode superar da sensação de caos iminente das crises de ansiedade e atenuar significativamente os níveis de sofrimento duradouro.

Em nosso trabalho de flexibilização dos modos de atenção utilizamos a metodologia de “Open Focus Attention Training” desenvolvidos pelo Dr Lester Fehmi, entre outros recursos.

Tratamento Psicológico como Primeira Opção

A Psicologia tem evoluído significativamente no desenvolvimentos de técnicas e abordagens com eficácia comprovada no tratamento de diferentes problemas mentais. Um fato importante que ilustra esta evolução ocorreu na Inglaterra no ano passado.

No início de 2014, o Instituto Nacional para a Saúde e Excelência em Cuidados (NICE, em inglês), órgão oficial do governo inglês, publicou as novas diretrizes para o tratamento de vários transtornos mentais. A partir de agora, para diversos transtornos mentais, o tratamento psicológico é a primeira opção de tratamento, tendo precedência sobre os tratamentos medicamentosos.

Segundo o NICE, entre os transtornos que devem ser tratados preferencialmente com tratamento psicológico estão todos os Transtornos de Ansiedade como Pânico, Fobia Social, Estresse Pós Traumático, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtorno Dismórfico Corporal.

Esta é uma mudança importante, reconhecendo o avanço das teorias e técnicas desenvolvidas nas últimas décadas. Os resultados positivos dos tratamentos psicológicos se mostram cada vez evidentes e consistentes, tornando-se agora o tratamento padrão para os transtornos de ansiedade.

É importante que cada vez mais pessoas na população possam se beneficiar destes avanços nas técnicas psicológicas e que um contingente maior de psicólogos possam ser treinados nestas abordagens eficazes.

Você pode ler o anúncio das novas diretrizes do NICE para os Transtornos de Ansiedade (em inglês) aqui.

Mindfulness e os Transtornos de Ansiedade

Um fator comum nos Transtornos de Ansiedade é uma baixa tolerância a ansiedade e uma tendência de interpretar esta experiência emocional como potencialmente perigosa.
Esta aversão a experiência ansiosa leva a pessoa a ficar mais ansiosa cada vez que sente ou antecipa sentir os sintomas de ansiedade.

Para “não sentir mais aquilo”, desenvolve muitas estratégias de evitação, controle e fuga. No entanto, quanto mais tenta evitar sentir ansiedade, mais intensa a emoção fica, o que só agrava o problema.

É necessário aprender outros modos de lidar com a ansiedade, como vivenciá-la sem entrar em desespero, aumentando a tolerância interna.

Outra característica do ansioso é viver em estado de pre-ocupação frequente, sofrendo numa expectativa negativa de futuro, a partir de cenários que vão se configurando em sua mente. Trazer a mente para o presente é uma estratégia fundamental no trabalho com a ansiedade.

Nos últimos anos vem sendo pesquisado os benefícios de um processo mental específico ativado em algumas práticas de meditação. É o processo de Mindfulness ou Atenção Plena.

De modo resumido, a prática de Mindfulness envolve: (1) o direcionamento da atenção para a experiência imediata, presente, (2) com uma atitude de aceitação, curiosidade e abertura.

O estudo científico do processo de atenção plena tem permitido o desenvolvimento mais preciso de recursos terapêuticos que podem ajudar no tratamento psicológico dos Transtornos de Ansiedade (Pânico, Fobias, Traumas, TAG, etc).

Através desta prática – adaptada a psicoterapia – é possível aprender a observar de modo “neutro” a experiência presente, as reações da ansiedade no corpo, os pensamentos negativos e as tendências de evitação e fuga. Neste aprendizado aprende-se a observar sem julgar, sem tentar interferir na experiência… entrar numa atitude onde não há nada a ser mudado, a ser corrigido… apenas reconhecido.

A emoção e os pensamentos negativos podem ser observados, o que cria uma diferenciação interna entre o centro da consciência (eu que observa) e os fenômenos observados (reações corporais, pensamentos, etc). O “eu que observa” pode reconhecer a turbulência interna e permanecer sereno em sua atitude de reconhecimento e aceitação.

Ao mesmo tempo há uma diminuição na ansiedade antecipatória, pois a pessoa começa a cultivar um estado de presença.

Se a pessoa parar a briga interna contra a ansiedade, deixar de tentar se livrar do que sente e se permitir sentir, ela inicia uma mudança fundamental em sua psique. Começa a se criar uma transformação interna, onde a ansiedade pode ocupar um espaço interno e a tensão e o conflito diminuem.

É fundamental diferenciar aquilo que se pode controlar daquilo que não se pode controlar. Ao lidar com emoções, as tentativas de controle são bastante problemáticas, pois as emoções sempre voltam e a luta interna cria mais tensão e mais ansiedade. O melhor caminho é de compreensão e aceitação.

Aceitar não é resignar-se passivamente, mas abrir espaço para perceber a experiência direta da ansiedade e responder de outro modo, saindo das reações automáticas de aflição, evitação, fuga e pânico.

É possível interferir nos graus da ansiedade?
Sim, há técnicas e recursos para isto, mas enquanto a pessoa não mudar sua relação com a experiência ansiosa, estará fadada a fracassar em sua recuperação, pois a intolerância faz com que tente controlar e evitar aquilo que não se pode controlar.

Lutar contra a própria emoção só aumenta o sofrimento. Paradoxalmente, é através do caminho da aceitação que a ansiedade pode começar a diminuir.

(por Artur Scarpato)