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A Psicossomática Reichinana *

Artur Thiago Scarpato**
Artigo publicado pela Revista Catharsis n. 28 Nov-dez 1999

A Psicologia tem origens que se perdem nos campos da medicina, da filosofia e da religião. Mas a Psicologia que praticamos hoje, nos consultórios, grande parte dela derivou da medicina no século passado, numa tentativa de dar conta de fenômenos que os recursos médicos não davam conta na época: a histeria, a psicose, etc. Assim Freud, um neurologista, vai se aventurar pelo mundo psíquico. Como ele, muitos outros médicos deram início a algumas das principais correntes da Psicologia.

Neste contexto, é possível entender que a Medicina tente hoje retornar a Psicologia ao Biológico, numa tentativa de fazer o psíquico retornar à sua “origem”, ao cérebro; como se a Psicologia tivesse sido um recurso provisório da medicina, enquanto os avanços das neurociências não pudessem controlar as variáveis anímicas. No entanto parece que o filho cresceu e adquiriu autonomia.

Há uma concepção dualista dominante na cultura ocidental, que separa o corpo da alma. Aliás o dualismo é que tornou possível o surgimento da Psicologia como temos hoje, como ramo terapêutico separado da Medicina. Temos, portanto, a Medicina como ciência que estuda os fenômenos orgânicos e a Psicologia, como ciência que estuda os fenômenos psíquicos.

A própria medicina na antigüidade já foi diferente: em Hipócrates, por exemplo, temos uma concepção psicossomática, onde os sonhos eram usados como indicadores do estado de saúde do sujeito, saúde física e emocional, integradas.

Hoje observamos uma tendência nas áreas biomédicas de explicar os fenômenos psíquicos e seus “distúrbios” recorrendo a modelos de funcionamento bioquímico cerebral e à genética. É um movimento de “biologização” da dimensão psíquica.

Por outro lado, na Psicologia está crescendo uma abordagem dos fenômenos biológicos e das doenças orgânicas, pela recorrência a símbolos, mitos, metáforas e modelos psicológicos. “Psiquizações” curativas, processos de cura e mutações que contrariam a concepção tradicional médica de doença. É um movimento de “psicologização” da dimensão biológica.

Além disso, temos visto o fenômeno das curas espirituais dos problemas do corpo e da alma, contrariando os princípios das ciências psicológicas e médicas. Os “milagres” explicitam um processo de “espiritualização” do psíquico e do somático.

Há portanto movimentos antagônicos de “biologização” do psíquico, “psiquização”do corpo e de “espiritualização” de ambos. A mídia tem refletido estes movimentos de forma interessante, um tanto cindida, onde cada matéria fala das últimas tendências seguidas por uma parcela do público e defendida por parte dos profissionais.

Os caminhos da Medicina e da Psicologia cada vez mais se encontram, se conflitam porque os limites estão ficando tênues, difusos. O avanço dos conhecimentos tanto nas áreas médicas como psicológicas tem permitido vislumbrar conexões antes insuspeitas entre corpo e o psiquismo.

Pesquisas sobre bioquímica, neurotransmissores e genética, demonstram que o chamado mundo psíquico tem fortes raízes no biológico. Avanços na Psicologia desvelam um corpo emocional, erógeno, simbólico que é constitutivo do psiquismo e fortemente ativo nos fenômenos biológicos. Portanto cada área está começando a dar conta de fenômenos que eram da outra área.

Pesquisas recentes têm demonstrado que tanto um medicamento quanto uma psicoterapia “focal” tem efeitos semelhantes sobre o cérebro na cura de alguns transtornos como o Obsessivo-Compulsivo, a Síndrome do Pânico, etc. Estamos falando de uma perspectiva sintomática, pois as implicações psicodinâmicas destes fenômenos têm raízes mais amplas e de difícil mensuração cerebral.

Está havendo também uma cisão no campo do conhecimento, onde a Medicina acadêmica e algumas abordagens na Psicologia cada vez mais se afastam quanto à linguagem, metodologia, objetivos. Valores como auto-conhecimento, desenvolvimento pessoal, desenvolvimento espiritual, estão substituindo na Psicologia o valor médico de cura das patologias.

Não é a abordagem psicológica ou biológica que está certa ou errada; o problema é de outra ordem. O que falta, isto sim, é uma abordagem que lide com a lógica interna da unidade psicossomática.

No entanto, uma perspectiva “de dentro”, “unitária” já foi desenvolvida. Talvez o melhor modelo disso que chamo lógica interna da unidade psicossomática nos tenha sido legada por Wilhelm Reich: a psicossomática em sua funcionalidade.

A abordagem reichiana não busca nem a “psicologização” nem a “biologização”, mas insere um terceiro elemento nesta relação, e considera os outros dois, psique e soma, como derivações da energia. Os fenômenos psicológicos e orgânicos são articulados como manifestações em níveis diferentes de um mesmo princípio comum: a energia orgone. Poderíamos dizer que Reich faz uma“energetização”.

Há uma vantagem epistemológica neste modelo ao permitir operar com a unidade psicossomática. Psique e soma não estão separados, pois apresentam um funcionamento integrado, uma inter-relação intrínseca. Derivam do mesmo princípio comum, são expressões da realidade energética. O corpo sem a psique, o corpo-objeto, desprovido de sua fenomenologia vivencial não é o corpo reichiano. A psique sem corpo, alma desencarnada, não é a psique reichiana.

A energia quando presente no organismo vivo torna-se bioenergia, ou mais precisamente, biopsicoenergia e então, passa a adquirir algumas leis próprias de funcionamento: as leis da unidade psicossomática. Reich faz uma “biopsicoenergética”.

Há também um espaço possível de ver a espiritualidade nesta vinculação energética de todo ser vivo com o cosmos. Reich não segue este caminho, ele era muito comprometido com os valores científicos, mas sua obra permite este salto.

Neste sentido a obra reichiana oferece-se como uma possibilidade de resposta a esta cisão moderna de que eu falava: a aparente incompatibilidade entre a Medicina e a Psicologia, e também com a espiritualidade. Há também uma grande preocupação com as raízes sociais dos problemas emocionais que percorre toda a obra de Reich.

Podemos afirmar que a neurose é um estado de ser comprometido em seus aspectos biológico, psicológico, social e espiritual.

Qual o preponderante? O psiquiatra organicista, o psicólogo, o sociólogo e o padre provavelmente vão divergir na hora de montar uma hierarquia destes fatores.

A obra de Reich é um longo percurso de pesquisas e experiências buscando dar conta de uma concepção de neurose que abarque todos estes terrenos.

EMOÇÃO

A conexão corpo-psique deve começar primeiro a ser entendida através do conceito de emoção. Há um plano psíquico e outro somático pelo qual podemos perceber qualquer manifestação emocional. Juntos formam uma unidade funcional. Não existe emoção que não seja manifestação fisiológica e psíquica simultaneamente. Toda emoção acompanha-se de alterações do fluxo sangüíneo, alterações elétricas na superfície da pele, mudanças respiratórias, bioquímicas, posturais, enfim, de mudanças que envolvem o corpo em seus diversos sistemas e aparelhos. Ao mesmo tempo apresentam-se como vivência psíquica, que permite a quem as sente reconhecer o sentido do que está sentindo; se raiva, medo, tristeza, alegria. A emoção, portanto, existe a partir de um movimento corporal interno e da percepção.

No caso da psicose, por exemplo, parece que há uma cisão entre os planos psíquicos e corporais; assim uma manifestação energética emocional não é percebida pelo sujeito como lhe sendo própria. O delírio e a alucinação seriam construções que visam dar sentido a esta excitação que o sujeito sente, mas não consegue reconhecer como sua. Há uma dificuldade na integração entre as vivências psíquica e corporal. Está em ação o que chamamos de couraça vegetativa visual.

No trabalho com pessoas que apresentam traços “esquizo”, é interessante notar como as alucinações diminuem conforme você vai trazendo estas pessoas para a presença no corpo. Ao mesmo tempo vai aumentando o nível de angústia e de excitação emocional que estas pessoas não suportam muito. É um trabalho lento, delicado e difícil.

AS FASES DO DESENVOLVIMENTO

Há vários recortes possíveis no desenvolvimento infantil. Podemos mapear as fases do desenvolvimento da inteligência, as fases do desenvolvimento motor, as fases de interação e sociabilidade ou as fases do desenvolvimento emocional. Dentro do desenvolvimento emocional realçamos o desenvolvimento da sexualidade na criança. Por que esta primazia do sexual sobre os outros aspectos da vida emocional? Antes de qualquer coisa, é pertinente afirmarmos que quando falamos de sexual, estamos falando de um aspecto que é energético e relacional ao mesmo tempo.

Talvez haja uma única temática que seja comum a todos os clientes e apresente ao mesmo tempo muitas variações na forma com que se apresenta: as questões afetivas do relacionamento humano. O amor – se fosse para resumir em uma única expressão – poderíamos dizer que todos padecemos pelo amor. Basta ouvir os clientes. Ouvir suas queixas, associações, lembranças, seus insights, devaneios, suas imagens, suas dores.

As fases do desenvolvimento afetivo-sexual são cinco: a fase visual relacionada às primeiras semanas de vida, a fase oral, a fase anal, a fase genital infantil e a fase do controle do diafragma ou “fase do poder” que se organiza ao redor dos 7 anos de idade. Estas fases se estruturam primordial mente em torno de zonas erógenas, que por sua vez são zonas corporais. Dizem respeito a vivências corporais erógenas e a modalidades de relacionamento afetivo. As zonas erógenas se diferenciam das outras partes do corpo, pois se constituem também como organizadores psíquicos. Cada fase está relacionada também a uma organização afetiva, motora e cognitiva.

A vivência relacional é uma vivência emocional, portanto psicossomática e não apenas psíquica. Logo não deveria estranhar o fato de eu falar que as marcas destas experiências deixam inscrições corporais tanto quanto psíquicas. A observação do corpo na terapia reichiana ocupa o lugar que a interpretação dos sonhos vai ocupar na visão junguiana. O corpo revela aspectos visíveis do mundo inconsciente.

O CARÁTER

Na visão reichiana, o caráter é o jeito de ser de cada um e está relacionado à dinâmica emocional das fases do desenvolvimento, à utilização de certos mecanismos de defesa, à estruturação mental de crenças internas, enfim, à um funcionamento energético, emocional e corporal. Há cinco tipos principais de caráter: esquizóide, oral, masoquista, rígido (fálico-narcisista, histérico e passivo) e psicopata. Cada um deles relacionado principalmente a uma das fases do desenvolvimento afetivo-sexual: visual, oral, anal, genital e diafragmática respectivamente.

Quais os traços corporais de uma oralidade, por exemplo? Vamos utilizar um exemplo para tornar as coisas mais claras, acentuando as coisas para ficar mais visível. Um cliente chega ao nosso consultório e numa situação hipotética nós podemos olhar bem o seu corpo antes que ele comece a falar. Observamos os seguintes sinais corporais: apresenta pouca musculatura geral no corpo, tônus muscular alterado na região da boca, fraqueza nas pernas, peito afundado, braços com pouca energia e respiração superficial. Depois conversando e ouvindo esta pessoa percebemos seu jeito de ser: é uma pessoa que se queixa muito, e ser queixoso mostra-se uma característica básica sua. Sempre espera receber tudo dos outros, mas ao mesmo tempo tem uma convicção interna de que nunca receberá o suficiente. Muitas vezes quando recebe, não dá valor a isso e não consegue acolher o que lhe é dado. Vive uma sensação interna de ser injustiçada pela vida. Tem também uma capacidade agressiva fraca, lutando pouco pelo que quer, como se esperasse que as coisas chegassem à ela apenas pelo seu merecimento. É uma pessoa que parece ter uma imagem de si muito valorizada, mas incompatível com a sua realização.

Vamos ficar somente com estas características. Agora vamos tentar “ler” alguns daqueles sinais corporais: Tônus muscular da região da boca alterado: este traço tem o significado mais claro, já que, quando criança, esta pessoa deve ter sentido falta, carência erógena no contato com a mãe na fase oral. A alimentação deveria satisfazer-lhe tanto as necessidades de comida como de afeto. Fraqueza nas pernas: Se a energia ficou aí, paralisada nesta insatisfação oral, menos energia desceu na ativação das pernas e da autonomia características da fase seguinte que é a fase anal. Este traço pode prejudicar o contato desta pessoa com o chão, com a realidade. Peito afundado: o peito afundado reflete o estado de carência de afeto e estas pessoas freqüentemente relatam uma sensação de vazio no peito. Isto pode trazer uma intensa vivência de fragilidade. Braços com pouca energia: os braços indicam baixa capacidade de ação e realização características destas pessoas, o seu baixo nível de agressividade. Respiração superficial: a respiração está relacionada à carga energética e emocional e uma pessoa com fortes traços orais vive num nível energético bem baixo precisando, portanto receber, receber energia, amor, atenção, etc.

Este foi só um exemplo ilustrativo; a oralidade apresenta uma complexidade grande em sua caracterização corporal e suas implicações psicodinâmicas. Normalmente as pessoas apresentam mais de um traço de caráter. Assim, uma pessoa com um caráter predominante rígido pode apresentar também traços visuais e orais. Ou seja, tipos puros são raros.

Há uma relação muito próxima entre os traços corporais e o jeito de ser de uma pessoa, o que envolve a sua modalidade de relacionamentos, os seus afetos predominantes, suas crenças internas, a sensibilidade que essa pessoa tem de seu próprio corpo, sua imagem corporal, sua identidade, sua sexualidade, etc.

O corpo e a postura têm uma relação íntima com os mecanismos de defesa e com as fases de desenvolvimento emocional. É curioso como as modalidades relacionais que se estruturaram na infância passam a fazer parte do repertório automático no dia a dia do adulto, mostrando como ainda está ativa a criança nele. Naquele momento quem está reclamando, quem está se boicotando é esse outro eu que nos habita e que tem profundas relações com a vida emocional infantil, a criança em nós.

Se fizermos um corte apenas no momento presente podemos perceber que as pessoas apresentam uma sensibilidade corporal seletiva. Há partes do corpo que elas sentem mais, outras que sentem menos ou até partes que não sentem. Falo de sensação não apenas muscular, mas também visceral, de ondas de prazer e de emoção. Em toda neurose há uma certa anestesia do corpo. Sentindo mais o corpo, sentimos mais a angústia, a dor. O que é próprio do encouraçamento é justamente a diminuição da sensibilidade e da motilidade corporal. Uma forma de reduzir a dor profunda e a angústia através da diminuição da sensibilidade geral.

Couraças são mecanismos de proteção necessários para a integridade do ego ou da vida. Trabalhamos para atenuar a utilização de soluções anacrônicas, de recursos defensivos e protetores que foram fundamentais num determinado momento da vida do sujeito, geralmente em sua infância, quando seu ego era mais frágil, mas que atualmente poderia ter sido superados, mas ainda restringem a vida da pessoa.

No geral as couraças apresentam as seguintes funções:

  • Diminuem a vitalidade: respirando menos, sentimos menos.
  • Limitam a mobilidade e a motilidade, levando a um agir e sentir controlado através da diminuição e contenção das reações emocionais no corpo.
  • Estruturando o pensamento: crenças internas que reforçam as defesas: “Eu não mereço”, “eu não pertenço a este mundo”, “eu não confio em você”.
  • Estruturando a percepção: não percebo em mim o que não posso sentir. “Isto não é meu, é dele”; projeção.

As couraças levam a uma restrição motora, sensorial e emocional. A restrição sensorial leva diretamente a uma restrição perceptiva. Como diz Reich: “o organismo pode sentir somente o que ele por si mesmo expressa”. Não podemos perceber o que não podemos sentir e expressar em nós mesmos, ou, se percebemos, não conseguimos compreender. Quando calamos uma voz dentro de nós, temos dificuldade em ouvir esta voz vindo de outra pessoa.

Assim a couraça vai construindo um campo de coisas percebidas pela pessoa, organizando valores, um jeito de ser e responder às situações, e principalmente, uma visão de mundo.

A terapia reichiana se desenvolve a partir da relação cliente-terapeuta, utilizando-se de referências psicodinâmicas. Há uma organização do trabalho prático, das técnicas de mobilização corporal, que são feitas de acordo com os traços de caráter do cliente, das defesas utilizadas, das couraças ativas, etc. Apresenta tanto um caráter analítico, desconstrutivo das estruturas cristalizadas, como sintético e construtivo de modos de ser mais positivos e vitais.

Reich é um autor muito pouco lido e mal compreendido. Felizmente este panorama está se modificando, o que permite a um número maior de pessoas entrar em contato com um conhecimento tão rico e exemplar na profundidade com que aborda a vida emocional. É um conhecimento que integra as dimensões psíquicas, somática e energética numa concepção de ser humano que está faltando às ciências da saúde e ao universo terapêutico.

Os caminhos abertos por Reich oferecem-se para serem explorados, redescobertos e ampliados. A prática clínica reichiana fala por si, em seu eficaz trabalho a favor do maior de todos os valores: a vida.

* Artigo publicado pela Revista Catharsis n. 28 nov-dez 1999. Este texto serviu de base para palestra proferida na UNIBAN SP por ocasião da 2° Jornada de Psicologia em 16/09/97.

** Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

Notas:

O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação sugerido:
Scarpato, Artur. A Psicossomática Reichiana. Revista Catharsis São Paulo, n. 28, nov-dez, 1999
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Artur T. Scarpato – Psicologia Clínica – CRP 06/42113 
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