Consumo compulsivo: Resposta a um menino de 9 anos

SEÇÃO ARTIGOS

Este texto foi escrito como resposta a um garoto de 9 anos que me pediu informações sobre consumo compulsivo. Ele estava fazendo um trabalho para a feira de ciências de sua escola. Na falta de um material acessível na hora para lhe enviar, resolvi escrever este texto. 

Consumo compulsivo: resposta a um menino de 9 anos

por Artur Thiago Scarpato

Caro Beto,

O que segue são alguns comentários a partir da minha experiência em consultório.

O consumo esta sempre ligado a objetos desejados. Consumimos o que queremos ter para nós. Um tênis, um videogame, um carro, uma bolsa, um sapato, uma camisa, etc.

O que nos move na direção deste querer Ter ? Porque acreditamos que tendo o objeto desejado, nós Seremos mais felizes…

Observe, Beto, que estamos falando de dois verbos: o verbo TER e o verbo SER.

Ao TER o que queremos, SERemos mais…felizes!!!

Esta é a primeira fórmula que eu queria te mostrar:

o TER promete transformar o SER.

Quando consumimos algo desejado, podemos ter o reconhecimento dos outros por isto; é o que chamamos de status social.

Quando compro um videogame de ultima geração, por exemplo, posso mostrá-lo para os meus amigos, e através dos olhares deles me valorizar junto com o objeto que comprei.

O atributo, o valor que é do objeto (videogame) – ser de ultima geração, moderno, legal – estende-se a mim também, e passo a ser visto pelos meus amigos como legal, moderno, de última geração… E isso vale para o carro potente, o tênis da moda, etc.

De novo a primeira fórmula: o Ter promete transformar o Ser aos olhos dos outros também.

Quando queremos o reconhecimento dos outros, o que no fundo estamos buscando?

Há uma palavra que resume bem o nosso maior anseio, 
a nossa maior busca: AMOR

Queremos ser amados e para isto queremos ter tudo aquilo que nos faça ser mais desejados, mais admirados, mais importantes, mais valorizados…

O objeto de consumo tenta preencher um lugar vazio em nós: o lugar que gostaríamos de ver ocupado pelo amor.

Sabe Beto, a nossa mente é muito ardilosa e aquele objeto de consumo que nos traria o amor dos outros (pelo reconhecimento), passa ele mesmo a representar o amor para nós.

Há uma IDEALIZACÃO do objeto de consumo (tênis, videogame, etc.) que traz junto consigo, na fantasia, o preenchimento de nossa necessidade de amor, de nossa carência.

Aqui está, então, a segunda fórmula:

OBJETO DE CONSUMO é igual a AMOR
Há assim uma mudança de rumo, uma TROCA de uma solicitação de amor por uma necessidade (compulsiva) de consumir e sentir-se provisoriamente preenchido.

Consumir torna-se, nestes casos, satisfazer uma necessidade de amor. Através do objeto de consumo buscamos ser mais amados.

No entanto como o desejo no fundo não é pelo objeto, mas principalmente pela satisfação da carência, o sentimento de plenitude e de vitória não dura muito e logo logo vem o vazio de novo e a sensação de que falta…de que ainda tem aquele outro objeto que eu quero… e aquele outro e aquele outro…sem fim.

Junta-se a tudo isto o fato de que no amor nós precisamos receber e dar, enquanto que consumindo, nós podemos nos satisfazer por iniciativa própria. O que nos coloca aparentemente menos dependente, mas eternamente insatisfeitos e carentes.

Para você entender, compulsão é todo comportamento que uma pessoa faz repetidamente porque não consegue evitar de fazer. Ela sente ansiedade se não fizer, aí acaba fazendo de novo e de novo.

Ansiedade é aquela inquietação dentro da gente que nos deixa um pouco com medo, na expectativa, inquieto, tenso.

Mas ansiedade de consumir? Por que?

Lembre-se que a pessoa está preenchendo uma carência de afeto, de amor, com o objeto de consumo. Logo se ela não consumir, ela vai sentir a DOR da carência, a tristeza de não se sentir amada.

Esta dor ameaça vir à tona e desfazer aquela TROCA na qual a pessoa substituiu a carência de amor pelo objeto de consumo.

Ela precisa então consumir para não sentir a carência.

A ansiedade avisa para ela de que se ela não consumir, algo ruim pode acontecer. A pessoa não sabe o que é, mas consome para diminuir a ansiedade e assim evitar que esse algo ruim venha.

Esse algo ruim é a carência, a tristeza e a raiva de NAO SE SENTIR AMADA.

 Esta Beto, é uma das maiores dores que um ser humano pode vir a sentir. E no entanto, todos nós a conhecemos em maior ou menor grau em alguns momentos de nossa vida.

Quando não aguentamos essa dor, por ela estar muito, muito forte, colocamos algo no seu lugar para disfarçar a dor; nos casos de que estamos falando, a pessoa consome compulsivamente…

 Quando você estiver lendo isto, gostaria que você buscasse entender junto comigo este comportamento exagerado. Que não considerasse os casos de compulsão ao consumo como se fosse uma doença estranha, mas como um desequilíbrio, que todos nós podemos passar pela vida, em doses maiores ou menores.

Pois assim, compreendendo uma pessoa que está sofrendo, você pode ajudá-la.

Como todo comportamento que causa sofrimento à própria pessoa, este também pode ser tratado (ajudado) . O nome do tratamento é psicoterapia e é feito por um psicólogo – é o tipo de trabalho que eu faço.

Boa sorte,

Respondido em junho/1998 Apenas o nome do menino foi modificado.

Nota: 

O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação (ABNT): Scarpato, Artur (1998).Consumo compulsivo: resposta a um menino de 9 anos. Disponível em: <www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_consum.html> Acesso em: dia/mes/ano.
Artur T. Scarpato – Psicologia Clínica – CRP 06/42113
Rua Artur de Azevedo, 1767
Pinheiros  São Paulo SP
(Próx. da Av. Rebouças e da R. Teodoro Sampaio)
Fone (0xx11) 3067 5967
  Copyright – Todos os direitos reservados
Última atualização: 06/09/2016

Videogames e Dependência: Quando o Jogar se Torna Perigoso

SEÇÃO ARTIGOS

Videogames e Dependência: Quando o Jogar se Torna Perigoso *

 Artur Thiago Scarpato**

A vida envolve um processo de pulsação. A partir da pressão de nossas necessidades nos expandimos e nos movemos em direção ao mundo; quando satisfeitos, recuamos e voltamos para nós mesmos. Depois de certo tempo de repouso, com novas necessidades, recomeçamos a expansão, seguida de recolhimento e assim sucessivamente.

Ao longo da vida este processo pode sofrer algumas distorções. Estas alterações resultam em paralisia em algum destes pólos, de expansão ou de recolhimento. Por exemplo, uma certa pessoa paralisa no movimento do recuo e fica constantemente retraída e inibida, enquanto uma outra pessoa paralisa no movimento da expansão e torna-se hiperativa, excitada e agitada na maior parte do seu tempo.

Há muitos modos de distorção da pulsação e nós vamos buscar entender como se dá este processo nas pessoas que se tornam dependentes dos videogames, uma situação que possui várias ressonâncias com outras formas de dependência e que nos ajuda a iluminar algumas coisas da dinâmica geral da adição.

As dependências acontecem com pessoas que se expandem numa situação específica e não conseguem mais recuar e voltar para si. Elas muitas vezes ocorrem com pessoas que eram retraídas em outras esferas da vida, mas que vão além de seus limites nesta nova atividade. Algumas pessoas são capturadas pelas intensidades afetivas da nova experiência e se tornam dependentes. Inicialmente as pessoas se sentem mais vivas quando estão envolvidas com aquilo, mas depois vão se tornando escravas, pois não conseguem recuar, assimilar o que viveram, não conseguem deixar de fazer sempre aquilo.

Comer, praticar esporte, trabalhar, jogar, apostar, consumir, todas as atividades podem assumir uma dimensão explosiva, onde a pessoa passa a fazê-las de forma intensa e repetida e não consegue recuar e ficar sem elas por muito tempo. Aí se inicia um padrão de dependência, também chamado de adição ou mais popularmente, vício.

Muitas atividades podem entrar no circuito da dependência, mas para isto é necessária uma pessoa suscetível, e isto se adquire a partir de uma história de vida que produziu uma distorção do pulso natural entre expansão e recolhimento.

Mas como ocorre o comportamento de adição especificamente em relação aos videogames?

Toda criança brinca de situações de “faz de conta”, brinca de casinha, de boneca, de carrinho, de guerra e de luta. A fantasia e a simulação fazem parte de nossa vida psicológica. “Agora sou um soldado e que vou matar todos os bandidos”. A criança brinca com elementos do mundo adulto (ser policial, ser modelo, ser médico, etc) adaptados para a sua realidade. Neste processo ela encontra um modo de recriar o mundo adulto ao seu modo, dando espaço para viver seus dramas internos e elaborar seus sentimentos. Os videogames permitem a criação de situações de simulação, de faz de conta, porém adaptadas também para os jovens e os adultos.

O sexo virtual não deve ser melhor que o sexo real; participar de uma guerra virtual não deve ser comparável a participar de uma guerra de fato, com armas em punho e presenciando seus amigos sangrarem e morrerem de verdade ao seu lado. Apesar de serem “menos reais” que o real, podem ser experiências bastante intensas, segundo dizem os usuários de games.

A tecnologia permite criar muitas situações “como se”, simulações e criações de realidade através de muitas imagens e sons, que disparam uma miríade de sensações e experiências. Os videogames, os computadores e a internet têm permitido a criação de ambientes cada vez mais fantásticos, onde os recursos gráficos e de multimídia impulsionam as experiências de imersão emocional no jogo.

A intensidade desta “hiper-realidade” pode contribuir para uma pessoa esquecer-se de si mesma, dissociar-se das suas necessidades de alimentação, sono, trabalho, etc, deixando-se absorver pelo mundo fascinante do ciberespaço – os novos ambientes criados pela tecnologia.

Indo além da vida cotidiana através dos videogames, uma pessoa pode experimentar outros tipos de experiências, pode controlar a vida dos personagens num jogo de simulação, arriscar a vida de seu personagem num combate, ir muito além das leis físicas deste mundo, sem os limites frágeis que nossa corporeidade nos impõe.

A dimensão dos fatos reais da vida os fazem únicos e sem volta. Se uma pessoa corre com seu carro numa estrada e bate de frente com um caminhão, dificilmente terá uma segunda chance para experimentar de novo esta emoção, a realidade nos obriga a um nível de responsabilidade sobre a vida que os jogos nos eximem. Dá para se arriscar imensamente nos jogos, dá para se expor, para experimentar. Os jogos nos afastam do horizonte da finitude, eles nos prometem um mundo onde podemos desejar, agir, tropeçar, cair, mas sempre podemos recomeçar em pleno estado de energia.

Os videogames propiciam experiências virtuais cheias de possibilidades, onde é possível ser um outro além de si mesmo, dar vazão a fantasias que não se tornarão realidade e arriscar comportamentos novos. Num certo sentido, os videogames são também exercícios de libertação.

Portanto, o ciberespaço permite experimentações com garantias. Afinal, em última instância, se a coisa ficar muito preta, se eu for morto, se minha cidade falir, se meu império for destruído, posso sair do jogo e tudo voltará ao “normal”. Há uma certa promessa de “superação” das limitações reais da vida, uma negação da morte, permitindo uma experimentação radical e sem efeitos reais. Mas são também estas garantias que podem levar uma pessoa a querer ir sempre um pouco mais e um pouco mais, capturada pelo jogo da simulação. Em alguns casos, a aventura “segura” pode acabar aprisionando por não impor limites. E assim a pessoa vai, vai, e sempre que pode quer ir de novo, sem conseguir voltar, dando alguns passos em direção à dependência. O jogo é sem limites enquanto a vida é uma pressão com limites.

Na dependência a pessoa alcança um estado de preenchimento interno pela atividade que se torna muito envolvente. No jogo há uma suspensão do tempo que não se percebe passar. Em alguns casos o jogar compulsivo pode abafar muitas vozes: o vazio existencial, a falta de sentido, as carências, as frustrações, os sentimentos de inadequação e muitos problemas da vida.

A dependência do jogo pode ser avaliada por alguns sinais, entre os quais a freqüência. Ninguém que é “viciado” joga só de vez em quando, o viciado joga muito e freqüentemente joga bem mais do que pretendia fazê-lo inicialmente. A pessoa tende a comprometer outras atividades em sua vida, como relacionamentos, família, trabalho, escola e outros passatempos. Ela até pensa e tenta reduzir a freqüência com que joga, mas não consegue. Há uma impotência para mudar este padrão. Quando deixa de jogar a pessoa pode sentir-se irritada, desanimada, ansiosa, tomada por uma série de sensações ruins, mal conhecidas dentro de si. O afastamento freqüente de si nos deixa cada vez mais estranhos a nós mesmos. Nestas situações, voltar a jogar permite o abafamento e o alívio temporário deste “mal estar” nunca enfrentado e solucionado.

O comportamento de adição, de dependência, torna-se uma fonte de sofrimento, pois se uma pessoa depende de algo, ela já não faz mais por prazer, mas por necessidade. A pessoa sofre se não jogar e repete exaustivamente seu comportamento de jogar a ponto de comprometer seus relacionamentos, seus estudos, seu trabalho, sua saúde, etc.

O problema não está no videogame, que pode ser uma boa diversão, mas no padrão de uso que se estabelece com ele. Algumas pessoas perdem o controle e passam a ser dominados pelo jogo. Estas precisam da ajuda psicológica, sendo que a dependência é um estado que pode ser superado.

Notas:

*Voltar ao início do texto Este texto pode ser parcialmente reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

Modo de citação (ABNT):

Scarpato, Artur (2004).Videogames e dependência: quando o jogar se torna perigoso. Disponível em: <www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_games.html> Acesso em: dia/mes/ano.

**Voltar ao início do texto Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

Artur T. Scarpato – Psicologia Clínica – CRP 06/42113
Rua Artur de Azevedo, 1767
Pinheiros  São Paulo SP
(Próx. da Av. Rebouças e da R. Teodoro Sampaio)
Fone (0xx11) 3067 5967
  Copyright – Todos os direitos reservados
Última atualização: 06/09/2016

A Psicossomática Reichinana

SEÇÃO ARTIGOS

A Psicossomática Reichinana *

Artur Thiago Scarpato**
Artigo publicado pela Revista Catharsis n. 28 Nov-dez 1999

A Psicologia tem origens que se perdem nos campos da medicina, da filosofia e da religião. Mas a Psicologia que praticamos hoje, nos consultórios, grande parte dela derivou da medicina no século passado, numa tentativa de dar conta de fenômenos que os recursos médicos não davam conta na época: a histeria, a psicose, etc. Assim Freud, um neurologista, vai se aventurar pelo mundo psíquico. Como ele, muitos outros médicos deram início a algumas das principais correntes da Psicologia.

Neste contexto, é possível entender que a Medicina tente hoje retornar a Psicologia ao Biológico, numa tentativa de fazer o psíquico retornar à sua “origem”, ao cérebro; como se a Psicologia tivesse sido um recurso provisório da medicina, enquanto os avanços das neurociências não pudessem controlar as variáveis anímicas. No entanto parece que o filho cresceu e adquiriu autonomia.

Há uma concepção dualista dominante na cultura ocidental, que separa o corpo da alma. Aliás o dualismo é que tornou possível o surgimento da Psicologia como temos hoje, como ramo terapêutico separado da Medicina. Temos, portanto, a Medicina como ciência que estuda os fenômenos orgânicos e a Psicologia, como ciência que estuda os fenômenos psíquicos.

A própria medicina na antigüidade já foi diferente: em Hipócrates, por exemplo, temos uma concepção psicossomática, onde os sonhos eram usados como indicadores do estado de saúde do sujeito, saúde física e emocional, integradas.

Hoje observamos uma tendência nas áreas biomédicas de explicar os fenômenos psíquicos e seus “distúrbios” recorrendo a modelos de funcionamento bioquímico cerebral e à genética. É um movimento de “biologização” da dimensão psíquica.

Por outro lado, na Psicologia está crescendo uma abordagem dos fenômenos biológicos e das doenças orgânicas, pela recorrência a símbolos, mitos, metáforas e modelos psicológicos. “Psiquizações” curativas, processos de cura e mutações que contrariam a concepção tradicional médica de doença. É um movimento de “psicologização” da dimensão biológica.

Além disso, temos visto o fenômeno das curas espirituais dos problemas do corpo e da alma, contrariando os princípios das ciências psicológicas e médicas. Os “milagres” explicitam um processo de “espiritualização” do psíquico e do somático.

Há portanto movimentos antagônicos de “biologização” do psíquico, “psiquização”do corpo e de “espiritualização” de ambos. A mídia tem refletido estes movimentos de forma interessante, um tanto cindida, onde cada matéria fala das últimas tendências seguidas por uma parcela do público e defendida por parte dos profissionais.

Os caminhos da Medicina e da Psicologia cada vez mais se encontram, se conflitam porque os limites estão ficando tênues, difusos. O avanço dos conhecimentos tanto nas áreas médicas como psicológicas tem permitido vislumbrar conexões antes insuspeitas entre corpo e o psiquismo.

Pesquisas sobre bioquímica, neurotransmissores e genética, demonstram que o chamado mundo psíquico tem fortes raízes no biológico. Avanços na Psicologia desvelam um corpo emocional, erógeno, simbólico que é constitutivo do psiquismo e fortemente ativo nos fenômenos biológicos. Portanto cada área está começando a dar conta de fenômenos que eram da outra área.

Pesquisas recentes têm demonstrado que tanto um medicamento quanto uma psicoterapia “focal” tem efeitos semelhantes sobre o cérebro na cura de alguns transtornos como o Obsessivo-Compulsivo, a Síndrome do Pânico, etc. Estamos falando de uma perspectiva sintomática, pois as implicações psicodinâmicas destes fenômenos têm raízes mais amplas e de difícil mensuração cerebral.

Está havendo também uma cisão no campo do conhecimento, onde a Medicina acadêmica e algumas abordagens na Psicologia cada vez mais se afastam quanto à linguagem, metodologia, objetivos. Valores como auto-conhecimento, desenvolvimento pessoal, desenvolvimento espiritual, estão substituindo na Psicologia o valor médico de cura das patologias.

Não é a abordagem psicológica ou biológica que está certa ou errada; o problema é de outra ordem. O que falta, isto sim, é uma abordagem que lide com a lógica interna da unidade psicossomática.

No entanto, uma perspectiva “de dentro”, “unitária” já foi desenvolvida. Talvez o melhor modelo disso que chamo lógica interna da unidade psicossomática nos tenha sido legada por Wilhelm Reich: a psicossomática em sua funcionalidade.

A abordagem reichiana não busca nem a “psicologização” nem a “biologização”, mas insere um terceiro elemento nesta relação, e considera os outros dois, psique e soma, como derivações da energia. Os fenômenos psicológicos e orgânicos são articulados como manifestações em níveis diferentes de um mesmo princípio comum: a energia orgone. Poderíamos dizer que Reich faz uma“energetização”.

Há uma vantagem epistemológica neste modelo ao permitir operar com a unidade psicossomática. Psique e soma não estão separados, pois apresentam um funcionamento integrado, uma inter-relação intrínseca. Derivam do mesmo princípio comum, são expressões da realidade energética. O corpo sem a psique, o corpo-objeto, desprovido de sua fenomenologia vivencial não é o corpo reichiano. A psique sem corpo, alma desencarnada, não é a psique reichiana.

A energia quando presente no organismo vivo torna-se bioenergia, ou mais precisamente, biopsicoenergia e então, passa a adquirir algumas leis próprias de funcionamento: as leis da unidade psicossomática. Reich faz uma “biopsicoenergética”.

Há também um espaço possível de ver a espiritualidade nesta vinculação energética de todo ser vivo com o cosmos. Reich não segue este caminho, ele era muito comprometido com os valores científicos, mas sua obra permite este salto.

Neste sentido a obra reichiana oferece-se como uma possibilidade de resposta a esta cisão moderna de que eu falava: a aparente incompatibilidade entre a Medicina e a Psicologia, e também com a espiritualidade. Há também uma grande preocupação com as raízes sociais dos problemas emocionais que percorre toda a obra de Reich.

Podemos afirmar que a neurose é um estado de ser comprometido em seus aspectos biológico, psicológico, social e espiritual.

Qual o preponderante? O psiquiatra organicista, o psicólogo, o sociólogo e o padre provavelmente vão divergir na hora de montar uma hierarquia destes fatores.

A obra de Reich é um longo percurso de pesquisas e experiências buscando dar conta de uma concepção de neurose que abarque todos estes terrenos.

EMOÇÃO

 

A conexão corpo-psique deve começar primeiro a ser entendida através do conceito de emoção. Há um plano psíquico e outro somático pelo qual podemos perceber qualquer manifestação emocional. Juntos formam uma unidade funcional. Não existe emoção que não seja manifestação fisiológica e psíquica simultaneamente. Toda emoção acompanha-se de alterações do fluxo sangüíneo, alterações elétricas na superfície da pele, mudanças respiratórias, bioquímicas, posturais, enfim, de mudanças que envolvem o corpo em seus diversos sistemas e aparelhos. Ao mesmo tempo apresentam-se como vivência psíquica, que permite a quem as sente reconhecer o sentido do que está sentindo; se raiva, medo, tristeza, alegria. A emoção, portanto, existe a partir de um movimento corporal interno e da percepção.

No caso da psicose, por exemplo, parece que há uma cisão entre os planos psíquicos e corporais; assim uma manifestação energética emocional não é percebida pelo sujeito como lhe sendo própria. O delírio e a alucinação seriam construções que visam dar sentido a esta excitação que o sujeito sente, mas não consegue reconhecer como sua. Há uma dificuldade na integração entre as vivências psíquica e corporal. Está em ação o que chamamos de couraça vegetativa visual.

No trabalho com pessoas que apresentam traços “esquizo”, é interessante notar como as alucinações diminuem conforme você vai trazendo estas pessoas para a presença no corpo. Ao mesmo tempo vai aumentando o nível de angústia e de excitação emocional que estas pessoas não suportam muito. É um trabalho lento, delicado e difícil.

 

AS FASES DO DESENVOLVIMENTO

 

Há vários recortes possíveis no desenvolvimento infantil. Podemos mapear as fases do desenvolvimento da inteligência, as fases do desenvolvimento motor, as fases de interação e sociabilidade ou as fases do desenvolvimento emocional. Dentro do desenvolvimento emocional realçamos o desenvolvimento da sexualidade na criança. Por que esta primazia do sexual sobre os outros aspectos da vida emocional? Antes de qualquer coisa, é pertinente afirmarmos que quando falamos de sexual, estamos falando de um aspecto que é energético e relacional ao mesmo tempo.

Talvez haja uma única temática que seja comum a todos os clientes e apresente ao mesmo tempo muitas variações na forma com que se apresenta: as questões afetivas do relacionamento humano. O amor – se fosse para resumir em uma única expressão – poderíamos dizer que todos padecemos pelo amor. Basta ouvir os clientes. Ouvir suas queixas, associações, lembranças, seus insights, devaneios, suas imagens, suas dores.

As fases do desenvolvimento afetivo-sexual são cinco: a fase visual relacionada às primeiras semanas de vida, a fase oral, a fase anal, a fase genital infantil e a fase do controle do diafragma ou “fase do poder” que se organiza ao redor dos 7 anos de idade. Estas fases se estruturam primordial mente em torno de zonas erógenas, que por sua vez são zonas corporais. Dizem respeito a vivências corporais erógenas e a modalidades de relacionamento afetivo. As zonas erógenas se diferenciam das outras partes do corpo, pois se constituem também como organizadores psíquicos. Cada fase está relacionada também a uma organização afetiva, motora e cognitiva.

A vivência relacional é uma vivência emocional, portanto psicossomática e não apenas psíquica. Logo não deveria estranhar o fato de eu falar que as marcas destas experiências deixam inscrições corporais tanto quanto psíquicas. A observação do corpo na terapia reichiana ocupa o lugar que a interpretação dos sonhos vai ocupar na visão junguiana. O corpo revela aspectos visíveis do mundo inconsciente.

 

O CARÁTER

 

Na visão reichiana, o caráter é o jeito de ser de cada um e está relacionado à dinâmica emocional das fases do desenvolvimento, à utilização de certos mecanismos de defesa, à estruturação mental de crenças internas, enfim, à um funcionamento energético, emocional e corporal. Há cinco tipos principais de caráter: esquizóide, oral, masoquista, rígido (fálico-narcisista, histérico e passivo) e psicopata. Cada um deles relacionado principalmente a uma das fases do desenvolvimento afetivo-sexual: visual, oral, anal, genital e diafragmática respectivamente.

Quais os traços corporais de uma oralidade, por exemplo? Vamos utilizar um exemplo para tornar as coisas mais claras, acentuando as coisas para ficar mais visível. Um cliente chega ao nosso consultório e numa situação hipotética nós podemos olhar bem o seu corpo antes que ele comece a falar. Observamos os seguintes sinais corporais: apresenta pouca musculatura geral no corpo, tônus muscular alterado na região da boca, fraqueza nas pernas, peito afundado, braços com pouca energia e respiração superficial. Depois conversando e ouvindo esta pessoa percebemos seu jeito de ser: é uma pessoa que se queixa muito, e ser queixoso mostra-se uma característica básica sua. Sempre espera receber tudo dos outros, mas ao mesmo tempo tem uma convicção interna de que nunca receberá o suficiente. Muitas vezes quando recebe, não dá valor a isso e não consegue acolher o que lhe é dado. Vive uma sensação interna de ser injustiçada pela vida. Tem também uma capacidade agressiva fraca, lutando pouco pelo que quer, como se esperasse que as coisas chegassem à ela apenas pelo seu merecimento. É uma pessoa que parece ter uma imagem de si muito valorizada, mas incompatível com a sua realização.

Vamos ficar somente com estas características. Agora vamos tentar “ler” alguns daqueles sinais corporais: Tônus muscular da região da boca alterado: este traço tem o significado mais claro, já que, quando criança, esta pessoa deve ter sentido falta, carência erógena no contato com a mãe na fase oral. A alimentação deveria satisfazer-lhe tanto as necessidades de comida como de afeto. Fraqueza nas pernas: Se a energia ficou aí, paralisada nesta insatisfação oral, menos energia desceu na ativação das pernas e da autonomia características da fase seguinte que é a fase anal. Este traço pode prejudicar o contato desta pessoa com o chão, com a realidade. Peito afundado: o peito afundado reflete o estado de carência de afeto e estas pessoas freqüentemente relatam uma sensação de vazio no peito. Isto pode trazer uma intensa vivência de fragilidade. Braços com pouca energia: os braços indicam baixa capacidade de ação e realização características destas pessoas, o seu baixo nível de agressividade. Respiração superficial: a respiração está relacionada à carga energética e emocional e uma pessoa com fortes traços orais vive num nível energético bem baixo precisando, portanto receber, receber energia, amor, atenção, etc.

Este foi só um exemplo ilustrativo; a oralidade apresenta uma complexidade grande em sua caracterização corporal e suas implicações psicodinâmicas. Normalmente as pessoas apresentam mais de um traço de caráter. Assim, uma pessoa com um caráter predominante rígido pode apresentar também traços visuais e orais. Ou seja, tipos puros são raros.

Há uma relação muito próxima entre os traços corporais e o jeito de ser de uma pessoa, o que envolve a sua modalidade de relacionamentos, os seus afetos predominantes, suas crenças internas, a sensibilidade que essa pessoa tem de seu próprio corpo, sua imagem corporal, sua identidade, sua sexualidade, etc.

O corpo e a postura têm uma relação íntima com os mecanismos de defesa e com as fases de desenvolvimento emocional. É curioso como as modalidades relacionais que se estruturaram na infância passam a fazer parte do repertório automático no dia a dia do adulto, mostrando como ainda está ativa a criança nele. Naquele momento quem está reclamando, quem está se boicotando é esse outro eu que nos habita e que tem profundas relações com a vida emocional infantil, a criança em nós.

Se fizermos um corte apenas no momento presente podemos perceber que as pessoas apresentam uma sensibilidade corporal seletiva. Há partes do corpo que elas sentem mais, outras que sentem menos ou até partes que não sentem. Falo de sensação não apenas muscular, mas também visceral, de ondas de prazer e de emoção. Em toda neurose há uma certa anestesia do corpo. Sentindo mais o corpo, sentimos mais a angústia, a dor. O que é próprio do encouraçamento é justamente a diminuição da sensibilidade e da motilidade corporal. Uma forma de reduzir a dor profunda e a angústia através da diminuição da sensibilidade geral.

Couraças são mecanismos de proteção necessários para a integridade do ego ou da vida. Trabalhamos para atenuar a utilização de soluções anacrônicas, de recursos defensivos e protetores que foram fundamentais num determinado momento da vida do sujeito, geralmente em sua infância, quando seu ego era mais frágil, mas que atualmente poderia ter sido superados, mas ainda restringem a vida da pessoa.

No geral as couraças apresentam as seguintes funções:

  • Diminuem a vitalidade: respirando menos, sentimos menos.
  • Limitam a mobilidade e a motilidade, levando a um agir e sentir controlado através da diminuição e contenção das reações emocionais no corpo.
  • Estruturando o pensamento: crenças internas que reforçam as defesas: “Eu não mereço”, “eu não pertenço a este mundo”, “eu não confio em você”.
  • Estruturando a percepção: não percebo em mim o que não posso sentir. “Isto não é meu, é dele”; projeção.

As couraças levam a uma restrição motora, sensorial e emocional. A restrição sensorial leva diretamente a uma restrição perceptiva. Como diz Reich: “o organismo pode sentir somente o que ele por si mesmo expressa”. Não podemos perceber o que não podemos sentir e expressar em nós mesmos, ou, se percebemos, não conseguimos compreender. Quando calamos uma voz dentro de nós, temos dificuldade em ouvir esta voz vindo de outra pessoa.

Assim a couraça vai construindo um campo de coisas percebidas pela pessoa, organizando valores, um jeito de ser e responder às situações, e principalmente, uma visão de mundo.

A terapia reichiana se desenvolve a partir da relação cliente-terapeuta, utilizando-se de referências psicodinâmicas. Há uma organização do trabalho prático, das técnicas de mobilização corporal, que são feitas de acordo com os traços de caráter do cliente, das defesas utilizadas, das couraças ativas, etc. Apresenta tanto um caráter analítico, desconstrutivo das estruturas cristalizadas, como sintético e construtivo de modos de ser mais positivos e vitais.

Reich é um autor muito pouco lido e mal compreendido. Felizmente este panorama está se modificando, o que permite a um número maior de pessoas entrar em contato com um conhecimento tão rico e exemplar na profundidade com que aborda a vida emocional. É um conhecimento que integra as dimensões psíquicas, somática e energética numa concepção de ser humano que está faltando às ciências da saúde e ao universo terapêutico.

Os caminhos abertos por Reich oferecem-se para serem explorados, redescobertos e ampliados. A prática clínica reichiana fala por si, em seu eficaz trabalho a favor do maior de todos os valores: a vida.

* Artigo publicado pela Revista Catharsis n. 28 nov-dez 1999. Este texto serviu de base para palestra proferida na UNIBAN SP por ocasião da 2° Jornada de Psicologia em 16/09/97.

** Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP. Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

 

Notas:

O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido:
Scarpato, Artur. A Psicossomática Reichiana. Revista Catharsis São Paulo, n. 28, nov-dez, 1999
.
Artur T. Scarpato – Psicologia Clínica – CRP 06/42113
Rua Artur de Azevedo, 1767
Pinheiros  São Paulo SP
(Próx. da Av. Rebouças e da R. Teodoro Sampaio)
Fone (0xx11) 3067 5967
  Copyright – Todos os direitos reservados
Última atualização: 06/09/2016

Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman

Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman

 Artur Thiago Scarpato

A relação entre anatomia e subjetividade é um tema básico da Psicologia Formativa de Stanley Keleman. Este autor estuda as formas somáticas, que são as constantes transformações morfológicas e anatômicas do corpo que se produzem ao longo da existência acompanhado pelas transformações psicológicas. Na concepção kelemaniana a vida é um processo constante de construção de formas somáticas, desde o processo embriológico na formação do ser humano até o final da vida. Essas transformações não são guiadas apenas por um programa já dado geneticamente, mas as formas somáticas refletem a própria produção da existência, com todos os seus acontecimentos, encontros e relacionamentos.

O estudo da forma humana revela sua história genética e emocional. A forma reflete a natureza dos desafios individuais e como eles afetam o organismo humano….a postura ereta é acompanhada de uma história emocional de vínculos parentais e separações, proximidade e distanciamento, aceitação e rejeição. Uma pessoa pode incorporar a densidade compacta que reflete desafio ou um peito murcho que expressa vergonha. A anatomia humana é, assim, mais do que uma configuração bioquímica; é uma morfologia emocional. Formas anatômicas produzem um conjunto correspondente de sentimentos humanos“. (Keleman, 1992 p.72)

Keleman deixa de lado os modelos clássicos do aparelho psíquico e parte em busca da experiência encarnada, o corpo sendo criado e criando existência, sendo produzido e se produzindo e o psiquismo como uma parte deste processo somático-existencial.

Na visão kelemaniana, o psiquismo é uma função do corpo, o corpo sente, o corpo pensa, o corpo imagina, o corpo sonha. Nesta concepção, a anatomia e o psiquismo estão absolutamente enredados. Keleman propõe uma anatomia emocional, cognitiva, existencial. O psiquismo está estruturado a partir da organização morfológica do corpo todo e não apenas restrito ao cérebro ou a algum espírito imaterial.

Os estados subjetivos – sentimentos, pensamentos, estados de consciência – são estados do corpo. Como diz Keleman: “todas as sensações, todas as emoções, todos os pensamentos são, de fato, padrões organizados de movimento“.(Keleman, 1995, p 17).

O corpo cria imagens e símbolos de si e do mundo e assim se torna capaz de dialogar consigo mesmo e com os outros. Estas imagens são geradas no córtex cerebral a partir de um diálogo das diferentes camadas somáticas.

O diálogo do corpo consigo mesmo permite ativar um processo de auto-gerenciamento, onde é possível identificar, compreender e modular as formas somáticas, dialogando com os efeitos somáticos das experiências vividas, num modo de participar ativamente da construção da própria existência.

Keleman propõe a Metodologia dos Cinco Passos, processo onde pretende-se influenciar as atitudes, comportamentos e estados internos através da ação modulatória sobre a organização das formas somáticas. Este trabalho está focado na identificação do “como” um determinado comportamento é organizado somaticamente.

Ajuda-se o cliente primeiro a identificar o que ele faz, qual a imagem da situação (passo 1), depois a identificar como ele faz isto através de suas organizações somáticas, intensificando volitivamente com a ajuda da musculatura estriada, discriminando os afetos, estados cognitivos e esboços motores de ação organizados (passo 2). Depois começa-se a desidentificar e desorganizar as formas previamente intensificadas (passo 3) e a observar e receber de volta os efeitos desta desorganização – imagens, sentimentos, lembranças, etc. (passo 4). A partir daí pode-se reconhecer as formas que emergem como diferenciações sobre as formas anteriores (passo 5) ou então retorna-se aos padrões anteriores.

Através deste método de trabalho, atuando diretamente sobre as formas somáticas – organizadoras da experiência subjetiva – procura-se reorganizar comportamentos, atitudes e modos de ser e ensinar uma participação volitiva do sujeito em seu processo de vida, pelo aprendizado das regras da produção somática de existência.

A clínica formativa realiza uma cartografia das formas somáticas de uma pessoa para compreender e atuar sobre:

  • Os efeitos dos acontecimentos no sujeito.
  • Os modos habituais de lidar com estes efeitos e a cristalização somática da história de vida em formas estereotipadas, em modos fixos de lidar com as situações, em atitudes padrões.
  • O estabelecimento de um autodiálogo construtivo, de uma participação volitiva para o restabelecimento do processo formativo.

A partir do reconhecimento de como a pessoa está organizando somaticamente a sua experiência, ela poderá aprender a desorganizar e reorganizar estes modos. Fazer mais e fazer menos constituem um caminho para desorganizar padrões de ação estereotipados, abrindo a possibilidade para a emergência de sensações, sentimentos e novos padrões de ação. A pessoa pode então investir volitivamente neste processo, reconhecendo padrões, desorganizando formas e investindo em formas somáticas emergentes, na intenção de criar e estabilizar novos padrões de ação.

No processo clínico formativo, assim como no trabalho diário de cada um consigo mesmo, opera-se um manejo constante com as formas somáticas utilizando-se a Metodologia dos Cinco Passos.

Cada configuração de forma somática está relacionada a diferentes experiências subjetivas. O pensamento formativo oferece uma importante ferramenta para podermos participar ativamente deste processo, dialogando com os efeitos das experiências em nossos corpos, influindo em nossos comportamentos, aprendendo a navegar no devir.

BIBLIOGRAFIA:

  • Keleman, Stanley. Anatomia Emocional, Summus, São Paulo, 1992
  • Keleman, S. Corporificando a Experiência, Summus, São Paulo, 1995
  • Keleman, S. Amor e Vínculos, Summus, São Paulo, 1996

Notas:

* Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31, 2005.

**Autor: Artur Thiago Scarpato : Psicólogo clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Possui quatro especializações na área de Psicologia: Especialização em Psicologia da Reabilitação pelo HC FMUSP, Especialização em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Especialização em Teoria e Técnica Reichiana pelo Pulsar – Centro de Estudos Energéticos e Especialização em Educação Somática Existencial pelo Centro de Educação Somática Existencial. Trabalha em consultório particular com psicoterapia individual e de grupo. Autor de diversos artigos na área.

Nota: O material aqui disponível pode ser reproduzido desde que se faça a referência do autor e da fonte.

 

Modo de citação sugerido: 
Scarpato, A (2005). Introdução à Psicologia Formativa de Stanley Keleman, Revista Psicologia Brasil, ano 3 n 27, p 30-31. Disponível em: http://www.psicoterapia.psc.br/scarpato/t_intro.html