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Blog sobre Ansiedade e seus Transtornos: Pânico, Ansiedade Social

Estresse Pós-Traumático, Fobia, Ansiedade Generalizada…

PÂNICO SEM PÂNICO: A PREPARAÇÃO PARA LIDAR COM AS CRISES DE PÂNICO

As crises de pânico – ou ataques de pânico – podem ser experiências traumáticas. A pessoa ficou traumatizada pelo modo como viveu a crise de pânico, com uma sensação de desorientação, descontrole e catástrofe iminente. A partir deste trauma ela passa a viver com uma expectativa ansiosa de ter uma nova crise de pânico, com medo de sentir o descontrole e o terror que sentiu daquela vez, acentuado por fantasias catastróficas de que a próxima crise pode ser ainda pior.

Neste estado traumatizado, qualquer reação interna parece indicar um possível retorno do monstro, daquela experiência tão temida.

A visão do futuro fica limitada pelo trauma passado, um tormento constante de monitoramento das reações do corpo e pensamentos catastróficos, deixando a pessoa sentindo-se sempre vulnerável. Qualquer sinal do corpo parece indicar o surgimento daquela ameaça terrível.

O desafio para quem tem pânico é se preparar para lidar com as crises. As primeiras crises se tornaram traumáticas por pegarem a pessoa desprevenida e despreparada, levando-a um estado de pavor e pânico. Para interromper a repetição das crises de pânico, é necessário uma preparação, com uma nova atitude para enfrentar as ondas de ansiedade.

É importante aprender a ficar mentalmente presente e observar as reações de ansiedade exatamente como elas realmente acontecem e não como a mente fantasia que elas possam se tornar. Esta diferença é essencial. Estar preparado para observar as reações de ansiedade no presente, e não, a olhar as reações esperando o pior – um futuro que seja repetição do passado traumático.

Quando sente os primeiros sintomas, o trauma das primeiras crises deixa a pessoa com medo do que possa vir. Ela não fica presente, observando o que sente, mas começa a imaginar o pior cenário e assim gera mais ansiedade, se apavorando com o que sente e perpetuando o ciclo das crises de pânico.

Quando se consegue realmente a aceitar as reações de ansiedade, torna-se possível viver as crises sem medo, sem pavor, aceitando o desconforto, sem se deixar levar pelos pensamentos catastróficos. Na verdade nunca houve uma catástrofe real, mas uma experiência emocional intensa de medo e desorientação nas primeiras crises, que deixaram a pessoa com pavor de que aquilo pudesse se repetir ou se transformar em algo ainda pior.

A partir do momento que se sabe o que é uma crise de pânico, que se consegue ficar presente no centro da consciência observando as reações, é possível atravessar qualquer “crise de pânico” sem entrar em pânico, sem se apavorar.

Este é o verdadeiro estado de Pânico sem Pânico. A partir daí as crises de pânico vão desaparecendo, interrompendo assim seus ciclos automáticos.

Através de uma psicoterapia especializada fazemos um treinamento formal com técnicas específicas, preparando a pessoa para lidar e superar suas crises de pânico.

Observar e Aceitar para Perder o Medo de Sentir Medo

Os ataques de pânico são episódios de intensa ansiedade acompanhadas de reações corporais, pensamentos catastróficos e sentimentos de desamparo.

Geralmente, durante um ataque de pânico a pessoa imagina catastroficamente que suas reações sairão dos limites de uma simples reação emocional, transformando-se em algo muito pior como morte súbita, perda de controle irreversível, enlouquecimento etc. Apesar deste transbordamento nunca ocorrer, ele é sempre fantasiado e temido.

É como se alguém se sentisse a beira de uma abismo, podendo cair a qualquer momento, apesar de nunca cair pois este abismo é somente uma projeção do cinema 3D da mente.

Os ataques de pânico nunca ultrapassam o limite de uma forte reação emocional, não levam a loucura, não matam e sempre, sempre passam. Enquanto se teme estes cenários castróficos, se alimenta as reações de ansiedade, gerando mais ansiedade e aumentando a intolerância em sentir estas reações.

O desafio é aprender a olhar as reações no ataque de pânico como elas são, e não pelo cenário catastrófico que os pensamentos negativos imaginam que elas poderiam se tornar.

Através de práticas de atenção centrada e serena é possível encontrar a familiaridade dos ataques de pânico, nas reações que se repetem e nunca ultrapassam os limites de uma reação emocional, nem mais, nem menos.

Para isto é necessário praticar uma observação centrada e neutra da experiência interna, com uma atitude de aceitação e curiosidade. Em nossa prática começamos fortalecendo a atenção observando elementos neutros, como a respiração nas narinas, para depois de algumas semanas passar a observar os sintomas de ansiedade, mantendo a mesma atitude centrada de aceitação.

É importante que o centro da atenção – o “eu que observa” – possa se diferenciar dos pensamentos automáticos. Assim, no meio do caos de um ataque de pânico, o centro de atenção pode permanecer sereno, observando a turbulência interna, esperando ela passar, sem ser levado pelos pensamentos automáticos negativos e sem ativar o pavor de querer fugir daquele estado.

Neste processo, os ataques de pânico vão deixando de ser alimentados pelo medo de sentir medo. Com a prática desta atenção centrada e serena, os ataques de pânico vão se tornando suportáveis, diminuindo sua intensidade e deixando de ser vividos como uma ameaça de rompimento das fronteiras do eu.

Flexibilizar a Atenção para Regular a Ansiedade

O processo de atenção tem relação direta com o estado emocional. Na ansiedade, a mente funciona em estado de alerta, buscando qualquer coisa que possa representar risco e ameaça, seja algo vindo do mundo externo ou de dentro do indivíduo. Neste estado, predomina uma atenção estreita e distanciadora, quando a mente tenta localizar e afastar possíveis ameaças.

Identificamos este modo de atenção nos estados de estresse crônico e nos Transtornos de Ansiedade como Síndrome do Pânico, Fobia Social e Transtorno de Ansiedade Generalizada.

O funcionamento de uma atenção estreita e distanciadora é evidente no modo com que uma pessoa com Síndrome do Pânico se relaciona com as reações em seu corpo. Ela monitora e fica aflita com o que sente, interpretando cada reação como prenúncio de um caos interno que pode eclodir a qualquer momento.

Há um estreitamento no foco de atenção – como se aquilo fosse a única coisa que importasse – e um distanciamento, no qual há uma tentativa de afastar e “se livrar” daquilo que acontece dentro de si.

Nos Transtornos de Ansiedade este modo de atenção estreita e distanciadora tende a se cronificar, contribuindo para a manutenção de um estado ansioso, alerta e tenso que não se relaxa nunca.

Assim como a ansiedade se acompanha de um modo particular de organização da atenção, a cronificação deste modo de atenção contribui para manutenção do estado ansioso.

Um caminho importante para sair do estado de ansiedade cronificado é trabalhar diretamente para flexibilizar o processo da atenção, ativando outros modos de funcionamento atencional.

Através da ativação de um modo de atenção aberto e imersivo, criamos um foco aberto de atenção que recebe e inclui as reações de ansiedade num campo atencional maior sem se fechar sobre a “ameaça”. Ao mesmo tempo, através de um modo imersivo busca-se aceitar – ao invés de afastar – o que é sentido.

Assim é possível interromper a luta contra as reações internas “perigosas” que geram tensão e mantém o aprisionamento na ansiedade. Quando se para de brigar contra os sinais da ansiedade – sejam reações físicas ou pensamentos negativos – a ansiedade diminui e retorna para os limites assimiláveis da janela de tolerância.

A mudança de um modo crônico de atenção estreita e distanciadora para um modo de atenção aberta e imersiva permite uma reorganização do padrão crônico de ansiedade. Assim se pode superar da sensação de caos iminente das crises de ansiedade e atenuar significativamente os níveis de sofrimento duradouro.

Em nosso trabalho de flexibilização dos modos de atenção utilizamos a metodologia de “Open Focus Attention Training” desenvolvidos pelo Dr Lester Fehmi, entre outros recursos.

A emoção sem história e a história sem emoção: os traumas na raiz dos transtornos de ansiedade.

Numa situação traumática a mente busca se proteger através de mecanismos para limitar os efeitos caóticos da dor e do sofrimento psicológico. Um destes mecanismo é a dissociação entre emoção e cognição.

A dissociação pode permanecer por anos e a pessoa pode se lembrar do que ocorreu mas sem sentir nenhuma emoção com a lembrança. Ou ao contrário, pode ter intensas reações emocionais mas sem lembrar da situação traumática que originou estas reações.

Os traumas estão na raiz de muitos problemas psicológicos que vão se manifestar posteriormente de modos distintos e vão receber diagnósticos diferentes, apesar de sua raiz comum. Muitos casos de depressão e transtornos de ansiedade, por exemplo, derivam de experiências traumáticas. Estes traumas podem ficar aparentemente adormecidos dentro da pessoa até serem ativados por experiências posteriores que reverberam aquela mesma problemática e disparam uma nova expressão para o sofrimento.

Quando vamos investigar casos de fobia social, por exemplo, comumente vemos que a emoção atual de ansiedade é uma reativação de emoções de experiências traumáticas que estavam dissociadas, como experiências traumáticas de humilhação, vergonha, bullying, rejeição etc.

Em casos de Síndrome do Pânico e Agorafobia frequentemente encontramos experiências traumáticas de violência, perda, abandono, separação etc.

A experiência emocional dissociada permanece em segundo plano como combustível alimentando os sintomas atuais.

Nos casos mais difíceis, que respondem mais lentamente ao tratamento, traumas complexos do passados tem presença importante. O sofrimento atual não pode ser totalmente resolvido enquanto não se integra as experiências traumáticas cindidas. Conforme avançamos no processo psicoterapêutico, os elementos cindidos voltam a se integrar, a memória emocional se conecta com a memória narrativa do que foi vivido.

A integração entre a história de vida e a reação emocional – entre cognição e emoção – é que vai permitir a pessoa superar seu sofrimento atual, sua depressão, sua fobia, seu pânico, seu trauma.

Tratamento Psicológico como Primeira Opção

A Psicologia tem evoluído significativamente no desenvolvimentos de técnicas e abordagens com eficácia comprovada no tratamento de diferentes problemas mentais. Um fato importante que ilustra esta evolução ocorreu na Inglaterra no ano passado.

No início de 2014, o Instituto Nacional para a Saúde e Excelência em Cuidados (NICE, em inglês), órgão oficial do governo inglês, publicou as novas diretrizes para o tratamento de vários transtornos mentais. A partir de agora, para diversos transtornos mentais, o tratamento psicológico é a primeira opção de tratamento, tendo precedência sobre os tratamentos medicamentosos.

Segundo o NICE, entre os transtornos que devem ser tratados preferencialmente com tratamento psicológico estão todos os Transtornos de Ansiedade como Pânico, Fobia Social, Estresse Pós Traumático, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtorno Dismórfico Corporal.

Esta é uma mudança importante, reconhecendo o avanço das teorias e técnicas desenvolvidas nas últimas décadas. Os resultados positivos dos tratamentos psicológicos se mostram cada vez evidentes e consistentes, tornando-se agora o tratamento padrão para os transtornos de ansiedade.

É importante que cada vez mais pessoas na população possam se beneficiar destes avanços nas técnicas psicológicas e que um contingente maior de psicólogos possam ser treinados nestas abordagens eficazes.

Você pode ler o anúncio das novas diretrizes do NICE para os Transtornos de Ansiedade (em inglês) aqui.

Pânico, Excitação Fisiológica e Sentimentos Profundos

Toda pessoa com um Transtorno de Ansiedade como o Transtorno do Pânico costuma apresentar hipersensibilidade a ansiedade, que é um processo de intolerância na qual as reações físicas ou psicológicas que acompanham a ansiedade são vividas de modo aflitivo e interpretadas como perigosas.

É comum o sujeito ficar com medo e aflito com sua excitação fisiológica como batimentos cardíacos, sensações respiratórias, tremores, suor, tontura etc. Esta “hipersensibilidade” leva a tentativas de se livrar das reações ou a se tentar tudo evitar senti-las novamente, como se elas fossem terríveis, abomináveis. Há um aprisionamento num processo de aflição – evitação.

As reações corporais temidas despertam ansiedade e pensamentos negativos sobre o que se sente. Porém a ansiedade gera mais reações físicas e estas levam a mais pensamentos negativos, num redemoinho sem fim. A pessoa fica aprisionada, tentando evitar o inevitável, pois junto da emoção de ansiedade – assim como de qualquer emoção – sempre haverá excitação fisiológica.

Algumas abordagens de tratamento tentam calar esta voz do corpo, com medicações excessivas ou “técnicas de controle da ansiedade”. No entanto quanto mais se tenta abafar a voz do corpo, mais ele se revolta e grita, pois não se pode calar aquilo que a própria atitude de aversão e medo estão acentuando. Não se vence o medo com mais medo.

Há um caminho terapêutico. É necessário construir uma atitude de enfrentamento do que se sente. Esta nova atitude começa com o cultivo da atenção plena, do claro entendimento e da força interna para fazer a travessia necessária. Este enfrentamento é mais fácil quando feito através de uma estratégia terapêutica planejada e apoiada numa relação profissional de confiança.

Devemos frisar que o cerne do problema da insegurança e ansiedade não está naquelas reações do corpo. A raiz do problema está em sentimentos de desamparo e vulnerabilidade que tem raízes em traumas vividos em outros momentos da vida.

É neste ponto mais profundo que precisamos chegar para que a pessoa enfrente dores que no passado foram intoleráveis, angústias que não podiam ser nomeadas e seus grandes desafios existenciais. Estes elementos agora poderão ser reencontrados, elaborados, assimilados e integrados, permitindo que a pessoa possa se transformar para seguir mais plena em sua vida.

Enquanto não fizer a travessia do enfrentamento das reações superficiais de ansiedade, a pessoa pode ficar anos de sua vida vivendo de modo limitado, com medo das reações físicas, achando que controlar o corpo é suficiente para ficar bom, enquanto o problema está num lugar mais profundo.

É necessário mirar e atingir o alvo certo para evitar o desperdício de tempo, de anos de vida em lutas improdutivas.

O lado positivo da ansiedade

A ansiedade não é boa nem ruim. É uma emoção, um estado mental e corporal que se ativa sempre que nossa mente avalia uma situação como tendo riscos potenciais. O disparador pode ser o pressentimento de algo incerto ou a antecipação de uma situação futura temida.

Há um lado positivo na ansiedade. Podemos imaginar, por exemplo, a ansiedade que antecede uma apresentação numa reunião de trabalho ou a participação numa competição esportiva. A ansiedade tem um papel relevante na preparação para o enfrentamento destas situações, ativando a máxima utilização dos recursos internos para um bom desempenho.

Pouca ansiedade poderia levar a uma atitude de negligência e a uma preparação insuficiente para se obter bons resultados.

Um grau ótimo de ansiedade, por seu lado, ativa um estado de alerta e prontidão adequados, preparando a pessoa para lidar bem com desafios que podem se apresentar.

Quando a ansiedade é excessiva, por outro lado, pode haver paralisia, descontrole e comprometimento da performance.

Geralmente o excesso de ansiedade decorre de se exagerar na avaliação dos riscos envolvidos e de se subavaliar os recursos internos para se lidar com a situação. Outro fator importante para uma experiência de ansiedade excessiva é quando a pessoa está ansiosa mas acredita que “deveria” estar calma. Por não aceitar e não tolerar sentir ansiedade ela passa a entrar em conflito, a brigar com o que está sentindo e acaba ficando ainda mais ansiosa.

É fundamental aprender a tolerar certo nível de tensão e ansiedade que é natural em qualquer situação desafiadora.

Aprender a lidar com a ansiedade e saber agir sob seu efeito é um recurso importante para se obter bons resultados nas diversas situações da vida.

Remover a Espuma para Chegar a Raiz da Dor

Há um caminho terapêutico eficiente na terapia dos Transtornos de Ansiedade, como a Síndrome do Pânico (Transtorno do Pânico) e a Fobia Social.

Quando se sente ansiosa, a pessoa fica aflita e vive lutando contra com o que sente – os sintomas da ansiedade – como se estes fossem sinais de um perigo iminente.

Porém, quanto mais alguém luta contra a ansiedade, mais ansioso se sente, mais sintomas tem, e logo mais ameaçado vai se sentir por aquele estado que tenta evitar. Esta batalha contra a ansiedade é uma batalha fracassada.

O verdadeiro caminho de recuperação é oposto e até contra-intuitivo. A pessoa quer se afastar do que sente, mas o que realmente ajuda é aprender o modo certo de se aproximar da experiência ansiosa.

Primeiro, é necessário perder o medo das reações corporais. Reações que acompanham um ataque de ansiedade como taquicardia, falta de ar e tontura são desconfortáveis, mas não precisam ser vividos como perigosos.

Geralmente a pessoa vive estas reações como alarmantes e desesperadoras, acompanhadas de pensamentos automáticos negativos de que poderiam trazer consequências catastróficas. Esta aversão e medo precisam ser transformados. Há estratégias e técnicas para isto.

Por exemplo, através de técnicas de exposição gradual às reações corporais temidas é possível transformar a relação com estas sensações e aumentar a tolerância a ansiedade. Este processo pode começar com um treino onde se aprende a observar os sinais da ansiedade sem tentar controlá-los. Observar e aceitar.

Depois se parte para técnicas que produzem – gradualmente – aquelas reações temidas. Este processo gradual e controlado vai produzindo uma reaprendizado sobre a ansiedade e todas as reações corporais concomitantes.

Após esta etapa de exposição interoceptiva – exposição as sensações corporais – há um aumento significativo na tolerância aos sintomas da ansiedade, geralmente com uma diminuição significativa na ocorrência de ataques de ansiedade.

Porém, nesta etapa, os ataques continuam a ocorrer esparsamente e a pessoa ainda se sente um pouco vulnerável e insegura. Neste momento intermediário da terapia vamos partir para um mergulho mais profundo nas fontes reais das crises de ansiedade.

Quando não são mais as reações do corpo que ameaçam, chegamos mais próximos das raízes das crises de ansiedade: a ameaça trazida por estados psicológicos profundos de vulnerabilidade. Estes estados são compostos de sentimentos antigos e experiências intoleráveis que não foram bem assimiladas. Através de técnicas específicas, é possível ir se aproximando destas experiências, onde comumente encontrarmos sentimentos profundos de abandono, solidão, fragilidade, desamparo, fracasso etc.

O caminho terapêutico de superação está em ajudar a pessoa a entrar gradualmente em contato com aquelas experiências emocionais. Aquilo que era estranho, indizível e insuportável, vai podendo ser experienciado, nomeado e tolerado.

Assim como foi necessário aprender a tornar as reações corporais suportáveis, agora é a vez de tornar suportáveis os estados emocionais e dores psicológicas mais profundas, para que a aproximação destes deixem de disparar reações intensas de ansiedade.

Sempre que estas experiência profundas ameaçavam surgir, o sujeito se assustava com as primeiras reações em seu corpo, sendo enredado por uma espuma de sofrimento superficial que não lhe deixava entrar na raiz mais profunda do problema. Precisamos remover a espuma do medo das reações corporais para ajudar o sujeito a confrontar suas angústias profundas e assim se libertar das crises de ansiedade.

Para percorrer este caminho precisamos de um processo estruturado. Nisto reside a eficácia de um tratamento especializado.

por Artur Scarpato.

O Corpo como Lar

As crises de ansiedade produzem uma turbulência corporal: aceleração cardíaca, tremores, falta de ar, suor frio, boca seca, tontura…o corpo parece dominado pelo caos.

Sentindo-se ameaçada, a pessoa vive alerta, monitorando o que sente, torcendo para que seu corpo fique “quieto”. Este medo das sensações corporais acentua tendências de dissociação, onde as reações corporais perdem sua conexão com as emoções e sentimentos e são vividas como estranhas e ameaçadoras.

Assim dissociada, a pessoa vê o que acontece de modo catastrófico. Ao invés de expressão da emoção, aquelas reações corporais são interpretadas de modo distorcido, como indícios de uma catástrofe iminente. Esta visão negativa aumenta a ansiedade, intensificando ainda mais as reações corporais.

É comum um alerta e um constante monitoramento do corpo, com certo desejo de “sair do corpo”, de não sentir mais nada. Instala-se um conflito interno e um medo das sensações e experiências somáticas.

Apesar do desejo de não sentir, de se afastar do corpo, o caminho que precisa ser seguido é o oposto, de habitar o corpo e voltar-se para o que se sente com uma nova atitude.

A atitude necessária é de aceitação do desconforto da experiência ansiosa. Assim se cria maior tolerância para o sentir, com menos medo das reações internas.

Toda técnica que ajude a observar as reações corporais – agradáveis ou desagradáveis – ajuda no processo de reconectar-se a experiência do corpo como fonte das experiências internas.

A sintonia interna com a experiência somática é fundamental para que os sintomas de ansiedade deixem de representar uma ameaça.

Identificada com o corpo, portanto menos dissociada, a pessoa vai aumentando sua tolerância as reações de ansiedade e vai aumentado suas experiência positivas.

Enraizar-se na experiência somática é um norte que deveria orientar os tratamentos dos transtornos de ansiedade.

Um Centro de Estabilidade no Meio do Caos

Numa crise de pânico a pessoa reage com sintomas de medo quando não há nada em volta que pareça justificar aquelas reações.

Esta experiência de “medo sem causa” é assustadora, pois sempre buscamos ligar o sofrimento a uma causa identificável, visível. Como é difícil ficar com este “medo sem objeto”, a pessoa começa a temer as consequências daquele estado, como se aquilo fosse levar a alguma consequência catastrófica, a morte, a um desmaio, como se não fosse passar nunca…

A experiência de uma crise de pânico leva a uma vivência psicológica de desamparo, pela falta de referências, pela falta de sentido. A pessoa se sente entregue ao destino, sem proteção nem garantias.

Neste momento existe um recurso dentro da pessoa que pode ajudá-la. É próprio da natureza humana uma capacidade de vivenciar algo e ao mesmo tempo se observar na vivência. Temos dois níveis de experiência mental; enquanto estou comendo um pedaço de chocolate, posso também me perceber comendo, observar o sabor, os movimentos da boca, etc.

A consciência pode tomar outros processos da mente como objetos de atenção. A consciência pode dirigir seu foco para sensações, emoções e pensamentos sem estar totalmente identificada com estes processos.

No caso de um ataque de pânico, a pessoa pode aprender a ativar esta consciência observadora para observar suas reações numa crise de pânico.

Ao mesmo tempo em que está lá, ansiosa, aflita, com aquelas reações em seu corpo e aqueles pensamentos catastróficos, mantém parte de sua presença centrada em sua consciência, observando aquilo que se desenrola no teatro de sua mente e de seu corpo.

Surge assim, a experiência direta e ao mesmo tempo a testemunha da experiência. Eu estou sofrendo, mas também observo minha dor, a partir de um lugar seguro, dentro de mim.

Ao fazer isto algumas mudanças começam a acontecer. A atitude de se observar de modo neutro a partir do centro da consciência ajuda a criar um ponto de referência no meio do caos, um lugar interno de estabilidade.

Eu vou deixando de estar totalmente entregue a experiência desamparada de pânico. Na medida em que posso observar o que sinto, passo a me acompanhar, com possibilidade de aceitar o que sinto. Neste momento, “eu sou comigo mesmo”.

Esta presença de si consigo durante um episódio de tanto sofrimento, produz uma transformação fundamental no processo do pânico, pois aquilo que parecia sem sentido, avassalador, vai se relativizando, sendo uma experiência que volta a se repetir e pode sempre ser observada.

Depois de passada a experiência da crise é importante que o sujeito também aprenda a expressar aquilo que viveu através de palavras – faladas ou escritas – para que aquilo que era da ordem do indizível e insuportável, vá ganhando forma e contorno. A nomeação ajuda a tornar familiar o que era estranho e assustador.

Neste processo a pessoa aprende a “ser consigo mesma” e a dar continência para aquilo que parecia totalmente sem sentido e parecia ameaçar tanto sua experiência de ser.

A crise de ansiedade e pânico, uma experiência de “vulnerabilidade do ser”, vai se transformando e se tornando uma experiência suportável, cada vez menos assustadora. Assim as crises e ataques de pânico vão se enfraquecendo gradativamente.